Os imigrantes em tempos de pandemia – Notas sobre violência e esquecimento, por Camila Koenigstein

Com a pandemia tudo se intensificou, a xenofobia ganhou espaço, e parte dos cidadãos brasileiros acreditam que o governo não deveria ajudar pessoas oriundas de outros países.

Os imigrantes em tempos de pandemia – Notas sobre violência e esquecimento

por Camila Koenigstein

Telefono para Jean Katumba, imigrante congolês que dirige a ONG – Pacto pelo Direito de Migrar – África do Coração, criada por imigrantes para gerar trabalho, moradia e saúde para aqueles que chegam ao Brasil.

A conversa tem um tom informal, vez que conheço o local e sei do trabalho social intenso feito pelos membros, mas logo ganha contorno tenso quando o diretor começa a relatar a atual situação dos imigrantes no Brasil. Não esperava uma descrição tão visceral sobre a condição de descaso e precariedade vivida por pessoas vindas em sua maioria de diversos países da África.

A situação é alarmante, não somente pelo COVID-19, mas pela total ausência do Estado.

Diversas famílias estão vivendo em situação de extrema precariedade, habitando abrigos coletivos, hotéis localizados no centro da cidade, e muitos vivendo debaixo dos viadutos. Somado a isso, existe a dificuldade linguística que prejudica a comunicação entre os que chegam e os brasileiros.

Medidas paliativas são tomadas, como: distribuição de cestas básicas, doações através de instituições religiosas e pedidos de arrecadações por meio das redes sociais.

Jean, relata que a fome já é fato e pedidos de auxílio são facilmente negados, vez que, as leis em relação aos imigrantes ainda estão no papel gerando uma burocratização nos processos de residência permanente.

O desemprego também assusta aqueles que perderam o trabalho e vivem de aluguel, sentindo o medo de um possível despejo.

Com a pandemia tudo se intensificou, a xenofobia ganhou espaço, e parte dos cidadãos brasileiros acreditam que o governo não deveria ajudar pessoas oriundas de outros países. Retrato contundente do racismo e fascismo que cresce de forma exponencial em todo o continente.

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A ausência de dados públicos sobre o impacto da pandemia sobre os imigrantes é apontada como um dificultador a mais na luta contra o vírus. […] Diante disso, coletivos e associações ligadas à temática migratória lançaram uma carta aberta na qual pedem a inclusão da informação sobre nacionalidade nos registros do Ministério da saúde. Também no escopo do esforço para conter a pandemia há movimentações tanto de coletivos como no Congresso Nacional para regularização de imigrantes residentes no Brasil. (Borges, 2020)

O número de imigrantes mortos vítimas do COVID-19 é desconhecido até o momento, mas sem dúvida não são poucos, dada a precariedade em que vivem.

Além da pandemia, o fenômeno da xenofobia gerou recentemente à morte de João Manuel, 47 anos, frentista, morto após receber diversas facadas. Pessoas que estavam no local contam que a discussão começou quando o assassino disse que: “os estrangeiros só queriam receber dinheiro do governo, enquanto os brasileiros estão sofrendo”.

O caso de João não é único, há diversas notícias de ameaças de morte contra imigrantes, inclusive alguns tiveram que mudar de casa por medo da violência.

Outro fator relatado é o denominado divórcio forçado, prática que consiste na separação das famílias. Os homens, assim que chegam, são levados para abrigos e mulheres e filhos para outras locais, desconsiderando os vínculos familiares, o que confirma a permanência do colonialismo, principalmente se pensarmos que tal prática era altamente utilizada durante o período da escravidão.

Na Argentina o problema não é menor, imigrantes senegaleses e haitianos enfrentam a discriminação, precarização laboral, e a exclusão de subsídios, já que a maioria têm somente a cédula de identidade temporal ou a chamada precaria (documento que permite somente três meses de permanência em solo argentino) o que impossibilita acesso ao auxílio. Muitos trabalham nas ruas de maneira informal, com isso a quarentena impossibilitou a renda mensal dos cidadãos.

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Em 11/04, a morte do estudante Jonka Riosendaullv, de 23 anos, gerou comoção após ser atropelado por um ônibus na cidade de Rosário. Os imigrantes haitianos pedem justiça, principalmente frente ao desprezo do governo, que segundo a comunidade está alterando os fatos, culpabilizando o estudante e não mais o condutor do veículo.

O aumento de casos de COVID-19 na Argentina, com 706 novos casos positivos nas últimas 24 horas, não permite todavia perspectiva de retorno aos trabalhos, o que gera preocupação sobre o futuro e a permanência no país.

Nos Estados Unidos, à morte de George Floyd, de 46 anos, gerou uma onda de revolta e indignação na população local, que têm enfrentado a truculência do presidente Donald Trump, que já anunciou à autorização de disparos caso lojas sejam saqueadas.

Em comum é que em sua maioria são cidadãos negros, que lutam permanentemente pelo direito à vida, em um continente que tem os pés fincados no colonialismo, racismo e consequentemente na xenofobia.

São tempos sombrios, mas que iluminam muito mais do que a precariedade sanitária do continente, expondo às estruturas desiguais que nunca deixaram de existir.

Desemprego, medo, doenças, fome, são condições frequentes na vida dos negros há séculos. Nesse cenário de enorme vazio e violência, lembrei de Richard Wright em seu famoso livro Sou um negro: crônica de infância e juventude, e sua indignação e revolta pela condição dos negros nos Estados Unidos, que de certa forma segue operando por toda a América.

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A fome, homens encapuzados da Ku-klux-klan, o medo de dizer ou fazer algo que irritaria os brancos, as leis Jim Crow com seus letreiros: “Somente para brancos”  “Não se admitem negros”… (Wright. 1966).

Fontes:

  • Pacto pelo Direito de Migrar – África do Coração. Recuperado de http://pdmig.org/
  • Borges, Rodrigo. 2020. Migra Mundo. Pesquisa vai medir impacto do coronavírus sobre imigrantes e refugiados no Brasil. Recuperado de:

https://www.migramundo.com/pesquisa-vai-medir-impacto-do-coronavirus-sobre-imigrantes-e-refugiados-no-brasil/

  • Figueiredo, Patrícia. 2020. Globo. Angolano morre esfaqueado na Zona Leste de SP e 2 ficam feridos; imigrantes deixam suas casas em Itaquera por medo de xenofobia. Recuperado de:

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/05/19/angolano-morre-esfaqueado-na-zona-leste-de-sp-e-2-ficam-feridos-imigrantes-deixam-suas-casas-em-itaquera-por-medo-de-xenofobia.ghtml

  • 2020. Furia en Minneapolis por la muerte de George Floyd: manifestantes prendieron fuego a una estación de policía. Recuperado de:

https://www.infobae.com/america/eeuu/2020/05/29/furia-en-minneapolis-por-la-muerte-de-george-floyd-manifestantes-prendieron-fuego-a-una-comisaria-de-policia/

  • com.ar
  • Wright, Richard. Soy negro: Cronica de infancia y juventud. Editoral Nacional de Cuba. Habana, 1966.

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1 comentário

  1. Tarsila do Amaral. 1.a República. República Paulista. Já fomos cabeça, até que em 1930, a metamorfose esquerdopata fascista nos transformou em rabo. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação. ROGERIO CENI

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