Os negros sorridentes do Caribe, por Eduardo Bonzatto e Luis Gustavo Reis

A “geometria” caribenha é um contraforte diante das histórias nada comoventes de seus habitantes. Existe algo no Caribe que estimula a revolta, um mistério que a razão não consegue interceptar.

Círculo de crianças, Parque Submarino na Baía de Moilinere, Granada.

Os negros sorridentes do Caribe

por Eduardo Bonzatto e Luis Gustavo Reis

Ninguém, somente nós mesmos podemos libertar nossas mentes.

Marcus Garvey

Se olharmos com mais vagar o mapa da América Central, vamos perceber que da costa sul da Flórida à última cidadela da Guiana, o Caribe forma o desenho de uma ferradura com um triângulo no meio. O leitor pode consentir com a ferradura, mas custa a crer no triângulo. Afinal, ele não é visível no mapa e frequentemente não é citado pelos geógrafos.

O triângulo que estamos falando é o Triângulo das Bermudas, lugar misterioso que engole navios, pescadores, aviões e sabe-se lá o que mais

A “geometria” caribenha é um contraforte diante das histórias nada comoventes de seus habitantes. Existe algo no Caribe que estimula a revolta, um mistério que a razão não consegue interceptar.

A tensão entre a ferradura e o triângulo, essa imagem figurativa tão peculiar da região, promoveram uma areação de liberdade e possibilitaram a escolha de uma forma de vida diversa daquelas impostas pelos códigos coloniais. E não foi por falta de tentativas dos congêneres de Cristóvão Colombo, sempre dispostos ao mando, à arbitrariedade e ao vilipêndio.

Ingleses, holandeses, franceses lograram impor submissão total, mas o resultado sempre foi constrangedor, ainda que sua herança seja pesada até hoje, visível nas cicatrizes desta América de ambiguidades.

No fundo da baía de Moilinere, em Granada, há um círculo de crianças de mãos dadas voltadas para fora do círculo. Estão dizendo, sob a imensidão do mar, que a solidariedade não se desfaz. É uma união costurada na pedra a vencer o tempo e as intempéries, o esquecimento e a cumplicidade.

Na solidão do mar, resiste uma confraria de crianças, representando altivamente todos os afogados que foram atirados dos navios negreiros. Com seus olhares nada severos, essas crianças vertem uma alegria imemorial diante do luto da humanidade. Parecem dizer que não há passado que resista a uma boa gargalhada, que não há truculência que dobre o espírito. O riso é o pai da revolta. O gozo é a mãe.

Talvez, diante disso, chamar de ferradura esse desenho imaginário no mar das Caraíbas seja uma heresia. Seria melhor imaginar uma concha, lugar de imprevisibilidades onde a racionalidade instrumental coercitiva encontrou seus limites. Afinal, o arbítrio não imperou, até porque, todo mundo dança e canta no Caribe.

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Se o deslocamento forçado de milhões de seres humanos tornados cativos deste outro lado do Atlântico partiu de Zanzibar, sob o látego de Tippu Tip, poderoso traficante do século XIX, ou do castelo da Ilha Bunce, em Serra Leoa, ou da Casa dos Escravos, no Senegal, ou do Castelo de São Jorge da Mina, em Gana, ou do Forte de São João de Ajudá, no Benin, todos encontraram no abraço forte da concha do Caribe um lugar de magia, onde reinventaram e originaram sociedades díspares.

Parece até que essas pessoas foram convocadas pelas entidades divinatórias africanas para um grande teste a provar que os europeus eram frágeis, afinal. Senão, como explicar a mais intensa e variada onda de rebeliões, conflitos, negociações num só lugar e que obrigou o Império Britânico a abolir a escravidão ainda no raiar do século XIX, incapazes de lidar com tanta fúria e tanto riso?

Fotografia de Tippu Tip, poderoso comerciante de escravos do século XIX.

Bussa sublevou uma legião de escravizados em Barbados; em Curaçao, Tula provocou a Desenkadená, a quebra das correntes, junto a nomes como Bazjan Karpata e Salika; pra não falar no Haiti, cuja memória guarda Neg Mawon, que na tradução do crioulo haitiano é Negro Marrom, símbolo do escravizado desconhecido que fundou a primeira república negra na América; e na Jamaica, onde até hoje cantam a “canção de redenção” em suas danças para homenagear os 60 mil escravos mortos na revolta de 1831; ou ainda, na Martinica, o “Cap 110, Memória e Fraternidade”, do escultor Laurent Valére, cujos mortos do naufrágio olham fixamente os visitantes com aquele sorrisinho de Monalisa na dura face de pedra. A revolta obrigou os senhores a substituir essa mão de obra por indianos de Madras e Calcutá e chineses de Xangai e Cantão.

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Em Cuba se toma muito sorvete; em Barbados, o rum é o combustível da festa; em Aruba, as árvores divi-divi se inclinam suavemente na composição de uma brisa única que só ali pode ser sentida; a insular Santa Lúcia oferece os picos cônicos pítons para adornar a paisagem; as Bahamas abrigam a grande barreira de coral de Andros; Belize ostenta as ruínas maias Caracol, Lamanai e Altun Ha; Bermudas, águas cristalinas e areias rosa; Antigua e Barbuda abrigaram os siboney, arawak e caribe muito antes dos europeus ali aportarem; Dominica expõe o lago Boling, aquecido diretamente pelo vulcão de Morne; as ilhas Turcas e Caicos abrigam a formidável muralha de Provo; as Maldivas é a mesquita da sexta-feira que dá o tom de cores e sonoridades; as Ilhas Cayman guardam o dinheiro sujo do mundo. São muitos os motivos para rir, além do espírito de revolta.

Portanto, é oportuno nomear aqui essa gente negra e sorridente do Caribe, pelo menos alguns cujo destaque pode servir de guia para imaginarmos os desconhecidos que forjaram na concha uma história que vale a pena tatuar nas nossas memórias. São eles:

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E milhares de outras e outros que construíram um Caribe fabuloso, pujante, misterioso. Talvez não seja assim para os sisudos, que apenas enxergam destruição e morte por todos os lados, em todas as épocas.

Em um tempo de tristezas como o atual, resgatar as experiências dos afro-caribenhos pode nos ensinar algo salutar: apesar do sofrimento, é fundamental não perder a capacidade de sorrir.

Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal da Bahia (UFSB).

Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros didáticos.

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