Os (prováveis) impactos das eleições norte-americanas para a América Latina, por Lívia Peres Milani

A volta dos democratas à Presidência dos EUA deve impactar a Política Externa do país e também aspectos mais difusos, tendo relevância na dimensão transnacional e repercutindo no movimento global de extrema direita.

O então candidato Joe Biden discursa no evento do Mês da Herança Hispânica, no Osceola Heritage Park, em Kissimmee, Flórida, em 15 set. 2020 (Crédito: Patrick Semansky/AP)

do OPEU – Observatório Político dos Estados Unidos

Os (prováveis) impactos das eleições norte-americanas para a América Latina

por Lívia Peres Milani

A derrota de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos é um evento de relevância para a política internacional com repercussões em todos os continentes e, também, na América Latina. Embora ainda seja cedo para se ter clareza sobre os rumos das políticas a serem adotadas pelo presidente eleito – uma vez que as eleições para o Senado e a escolha do gabinete permanecem em aberto, assim como há contestação do resultado eleitoral por parte dos perdedores –, é possível especular sobre as consequências sub-regionais da eleição.

A volta dos democratas à Presidência dos EUA deve impactar a Política Externa do país e também aspectos mais difusos, tendo relevância na dimensão transnacional e repercutindo no movimento global de extrema direita. Em ambos os níveis, a América Latina deverá ser afetada.

Política Externa e América Latina

A Presidência de Joe Biden não deve provocar transformações estruturais para a Política Externa dos Estados Unidos, embora traga mudanças no que se refere a agendas e estratégias. Assim como seus antecessores, Biden deve buscar manter e reafirmar a primazia dos Estados Unidos. Em texto publicado na revista Foreign Affairs, o presidente eleito afirma que os Estados Unidos estariam prontos para “liderar de novo”, com “o exemplo do nosso poder e com o poder do nosso exemplo”, retomando uma tradição dos democratas em conceber os EUA como um modelo para o mundo. A ideia também se aplica ao Hemisfério Ocidental, onde o democrata percebe um vácuo de liderança.

In 2009, when Joe Biden was vice president, he stood with Latin American leaders after a multilateral meeting at Casa Presidencial in San Jose, Costa Rica.
O então vice-presidente dos EUA Joe Biden acompanhado de líderes latino-americanos após um encontro na Casa Presidencial, em San José, Costa Rica, em 2009 (Crédito: Casa Branca)

Assim, parece existir uma tendência a priorizar o poder brando da potência, o que poderia levar ao aumento dos investimentos em diplomacia e em assistência internacional. Não se trata de uma subestimação do poder militar, mas de conceber o poder dos Estados Unidos como calcado também em outros aspectos.

Por um lado, Biden se propõe usar a força apenas como último recurso. Por outro, promete manter os investimentos em Defesa e reitera a supremacia militar do país. O presidente eleito deve reverter as tentativas de cortes do orçamento da USAID (a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e promete aumentar a assistência para os países do Triângulo Norte (Guatemala, El Salvador e Honduras).

Dois temas prioritários apontados por Biden são a expansão e o fortalecimento da democracia liberal – tanto doméstica, quanto internacionalmente – e a agenda ambiental. No primeiro aspecto, cabe pontuar a proposta de uma Cúpula das Democracias e a retórica de defesa do “mundo livre”. Já a pauta da agenda ambiental vem crescendo no âmbito do Partido Democrata, inclusive por força de políticos mais progressistas, cujo projeto Green New Deal, teve alguns de seus pontos incorporados ao plano mais moderado de Biden para o meio ambiente.

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Em ambos os casos, haverá efeitos para a América Latina, seja pela continuidade em condenar governos autoritários como o venezuelano e o nicaraguense, seja pela retirada do apoio à (falta de) política ambiental brasileira. Neste último caso, a possibilidade de atuação assertiva foi anunciada no primeiro debate eleitoral entre Trump e Biden, quando o presidente eleito mencionou assistência econômica e sanções como táticas para influenciar o comportamento brasileiro.

No que se refere a temas específicos com a América Latina, cabe pontuar as relações com Venezuela e Cuba e a postura dos Estados Unidos frente à crescente presença chinesa e russa no continente americano. No texto da Foreign Affairs, Biden descreve a situação na Venezuela como um “desafio de segurança nacional”, o que sugere continuidade das pressões pela mudança de regime e das sanções econômicas ao país bolivariano. É possível, no entanto, que haja uma mudança no tom, e a potência adote uma postura de mais baixo perfil – até porque as políticas adotadas pelo governo Trump, incluindo o apoio aberto a tentativas de golpe de Estado, não surtiram efeito.

Com relação a Cuba, é possível uma tentativa de recuperação de avanços que haviam sido construídos durante o governo Obama, quando Biden era vice-presidente, e que foram parcialmente revertidos durante a administração Trump. Em 2018, o agora presidente eleito criticou as decisões do governo republicano em referência à ilha, especialmente o recuo da abertura para viagens turísticas e de negócios. É difícil, porém, que sejam dados passos no sentido da superação do embargo comercial, pois tais mudanças passam pelo Congresso.

A man shows U.S. and Cuban flags at his house in Havana.
Cubano exibe as bandeiras dos EUA e da ilha, em sua casa em Havana (Crédito: Yamil Lage/AFP/Getty Images)

No que tange à expansão comercial chinesa na América Latina, Biden é claro em afirmar que os EUA devem reagir à potência asiática. De acordo com ele, os “rivais geopolíticos dos Estados Unidos estão preenchendo o vácuo de liderança” aberto por um desengajamento estadunidense em relação à região. O diagnóstico não é totalmente preciso, uma vez que desconsidera iniciativas dos republicanos no sentido da retomada do protagonismo na América Latina. O governo Trump promoveu um plano de investimentos, o América Cresce, e uma ofensiva para ampliar a liderança no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com a eleição do primeiro estadunidense a dirigir a instituição. De todo modo, mostra que os democratas estão dispostos a também objetar os avanços regionais da China.

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Impactos transnacionais e o movimento de extrema direita

Os efeitos das eleições americanas também devem ser sentidos no âmbito transnacional, com consequências para os movimentos de extrema direita no mundo e na América Latina. Em livro recente publicado pela Oxford University Press, os pesquisadores Nexon e Cooley caracterizam a extrema direita contemporânea como um movimento político transnacional iliberal, que busca corromper a ordem liberal internacional por dentro. Existem importantes conexões e contatos entre os partidos e as lideranças políticas nacionais de extrema direita, que se expressam em iniciativas como a Conservative Political Action Conference (CPAC) e, por exemplo, no frustrado papel protagonizado por Steven Bannon, que tentou se portar como um consultor para políticos reacionários na Europa.

Desde 2016, quando ocorreu o plebiscito pelo Brexit e a eleição de Donald Trump, o movimento se mostrava em caminho ascendente, conquistando espaço em parlamentos europeus e governos na periferia, como ocorreu no Brasil. No caso brasileiro, as conexões e a emulação de táticas da extrema direita estadunidense são patentes, por intermédio do papel desempenhado por Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, que construiu uma relação bastante próxima com Bannonarticulou a aproximação com políticos conservadores dos EUA e foi cogitado para o posto de embaixador naquele país.

In 2013 Bannon was something of an outcast at CPAC. This week he spoke at the conference as one of the rights most...
Bannon, na CPAC de fev. 2017, como um dos principais nomes da programação (Crédito: T. J. Kirkpatrick/Redux)

Além do Brasil, em outros países latino-americanos, a extrema direita também conquistou espaço desde 2016. No Paraguai, um herdeiro da ditadura militar ocupa a Presidência e, no Uruguai, o partido de extrema direita faz parte da coalizão do governo. Na Colômbia, a extrema direita, que já tinha espaço desde o governo de Álvaro Uribe, retornou ao poder com Iván Duque e, no Chile, a direita retornou ao governo com o presidente Sebastián Piñera. Também cabe ressaltar o breve governo interino de Jeanine Áñez (2019-2020), que chegou à Presidência na Bolívia após um golpe de Estado. Embora a ascensão de tais governos tenha causas locais relevantes, o contexto internacional e, especialmente, a onda global de extrema direita não devem ser desconsiderados como impulsionadores.

A derrota do Partido Republicano é, assim, uma batalha perdida para a extrema direita global, com impactos inclusive para a América Latina. Não sendo suficiente para significar sua derrota, mostra, ao menos, suas fraquezas eleitorais em uma eleição que foi acompanhada globalmente. Se, por um lado, o trumpismo e a extrema direita devem persistir nos EUA – até porque esta última precede Trump –, é um golpe de grande importância para a narrativa de invencibilidade até então propagada por seus apoiadores. Por outro, os desafios do governo Biden serão árduos, uma vez que os republicanos têm grandes chances de manter o controle sobre o Senado.

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As eleições mostraram que os EUA se mantêm como um país dividido e altamente polarizado. Cabe recordar que, no voto popular, Trump teve mais votos que em 2016 e que os republicanos ganharam cadeiras na Câmara de Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados), diminuindo a margem da maioria democrata.

Neste contexto, parece pouco provável uma reformulação da política econômica neoliberal, que contribui para o sentimento de insatisfação da classe média, especialmente nas regiões rurais e cidades menores, e fomenta a polarização política. Assim, Biden terá um hercúleo trabalho pela frente em sua autoproclamada tarefa de restaurar a “alma da América” e “reconstruir a espinha dorsal do país – a classe média”, sendo que a volta da extrema direita ao poder no futuro não fica descartada, e os movimentos reacionários mantêm sua capacidade de influência, tanto nacional, quanto globalmente.

Sintetizando, ao se pensar sobre os impactos das eleições norte-americanas para a América Latina é preciso não cair nos extremos de que tudo continuará igual, ou de que haverá mudanças de fundo. Do ponto de vista da Política Externa, há um retorno da priorização de agendas como clima e democracia, continuidade nas pressões sobre a Venezuela e na contestação às entradas chinesas. No que se refere à dimensão transnacional, a eleição mostra as debilidades eleitorais do movimento global de extrema direita que, em um momento, havia-se portado como se fosse imbatível.

Lívia Peres Milani é doutora em Relações Internacionais pelo PPG-RI “San Tiago Dantas” (UNESP/UNICAMP/PUC-SP), pesquisadora do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). : [email protected]; Twitter: @Livia_LPM.

** Recebido em 19 nov. 2020. Revisão e edição de Tatiana Teixeira. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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1 comentário

  1. O império se portará sempre como império. Acho que já chega dessas análises idiotas que pensam que um governo norte americano democrata seria melhor para a América Latina ou para qualquer outra região do mundo, do que um governo norte americano republicano. Nós estamos falando da mais eficiente máquina política de matar pessoas, que existe no mundo. A América Latina continuará a ser tratada pelos EUA como sempre foi: Como um quintal e um esgoto, de propriedade sua.

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