Os Sequestrados de Altona “made in Brazil”, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Na peça de Sartre a empresa captura os personagens e os utiliza segundo seus próprios desígnios. No nosso caso, todas as instituições brasileiras foram capturadas pela empresa neoliberal transnacional.

Foto Brasil Escola - Uol

Os Sequestrados de Altona “made in Brazil”, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Última peça escrita por Sartre, Os Sequestrados de Altona foi produzida pela primeira vez em 1959. Existem várias edições dela em português. A que me chegou às mãos foi impressa em Lisboa sob encomenda da Publicações Europa-América no ano de 1963. Um resumo da peça pode ser encontrado em inglês

O que me chamou especial atenção nessa peça foi uma fala do personagem O PAI durante a conversa que ele tem com Frantz no último ato.

“O PAI – Meu pobre pequeno! Queria que dirigisses a empresa depois de mi. E é ela quem dirige. A empresa escolhe seus homens… e a mim eliminou-me. Possuo-a, sim, mas já não mando. A ti então, principezinho, recusou-te desde o primeiro instante. Que precisão tem ela de um príncipe? A empresa forma e recruta sozinha os seus gerentes. (Frantz desce os degraus lentamente, enquanto o pai vai falando.) Eu tinha-te dado todos os méritos e o meu gosto acerto pelo poder… nada disso serviu. Que pena! Para agir, tomavas os maiores riscos, e a empresa transformava em gestos todos os teus actos. O teu tormento acabou por te empurrar para o crime, e até no crime ela te anula: engorda com o teu fracasso. Nunca gostei de remorsos, Frantz: são sentimentos sem serventia. Se pudesse pensar que fosses eficaz noutro sítio e doutro modo… Mas fiz-te monarca; hoje esta palavra significa: sem préstimo para nada.” (Os Sequestrados de Altona, Jean-Paul Sartre, Publicações Europa-América, Lisboa, 1963, p. 173)

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Essa fala, que pode funcionar como uma síntese filosófica da obra, explicita a contradição que existe entre desejo, ato e resultado (O PAI), assim como aquela que há entre a liberdade de agir, o mau uso que se faz dela e o lucro que uma empresa acumula sem fazer distinção entre crime e atividade lícita (Frantz). Entre os dois personagens existe um terceiro: a empresa. Ela tem vontade própria.

A substituição da política (poder) pela economia (acumulação capitalista) é reconhecida no momento em que O PAI afirma que o vocábulo “monarca” sofreu uma ressignificação. Monarca significa “sem préstimo para nada” e não “aquele que detém um poder político ilimitado outorgado por Deus”. Aliado ao sucesso da empresa a despeito de quem a comandava, o deslocamento semântico explica porque o fracasso de Frantz é irrelevante. Ele não conseguiu nem mesmo ser um criminoso, pois a empresa anulou seu crime transformando-o em lucro.

Esse diálogo sugere que, apenas no final da peça, Sartre colocou em cena seu principal personagem. A empresa é uma divindade elusiva. Além do bem e do mal ela explora cada um segundo suas próprias necessidades. Como domina o espaço público e o privado, a empresa se o “locus invisível do poder” (E é ela quem dirige.). A vontade própria desse personagem impessoal comanda a trama e interfere na comunicação para ressignificar conceitos outrora bem estabelecidos.

Ecos desse debate podem ser vistos na política palaciana brasileira pós 2016. O neoliberalismo não precisava da democracia: Dilma Rousseff deposta. O neoliberalismo não precisava da Constituição de 1988: ela foi rasgada aos poucos pelos juízes encarregados de aplicá-la. O neoliberalismo não precisava dos brasileiros elevados à condição de consumidores por Lula: eles foram brutalmente descartados na miséria e perderam seus direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. O neoliberalismo considerava Lula um inimigo irredutível: ele foi condenado sem ter cometido qualquer crime através de um processo criminal notoriamente fraudulento em que todas as autoridades judiciárias, inclusive e principalmente os desembargadores do TRF-4 e os ministros do STJ, participaram alegremente da fraude.

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O Estado novo neoliberal pós 2016 não precisa de Jair Bolsonaro: justamente por isso ele pode ocupar a presidência enquanto for útil. No momento em que acreditar que é um “monarca”, a empresa neoliberal vai descartá-lo porque “é ela quem dirige” tudo e todos. As pessoas estão sendo envenenadas com agrotóxicos? Nenhum problema. Isso garante os lucros dos fabricantes de pesticidas. Os índios estão sendo agredidos e mortos. Nenhum problema. As terras deles podem ser economicamente exploradas pela empresa neoliberal. A letalidade policial aumentou? Excelente. Os fabricantes de caixões e as funerárias registrarão um aumento significativo dos lucros.

Na peça de Sartre a empresa captura os personagens e os utiliza segundo seus próprios desígnios. No nosso caso, todas as instituições brasileiras foram capturadas pela empresa neoliberal transnacional. No Brasil não resta mais qualquer espaço público para a política. A distribuição de justiça se tornou uma impossibilidade concreta e até mesmo o poder não pode mais ser exercido de maneira absoluta por alguém desprezível como Bolsonaro.

Hannah Arendt rejeitou um governo mundial porque, segundo ela, a despersonalização do poder criaria um problema imenso para os governados.

“O fato de nenhum indivíduo – nenhum déspota, per se – poder ser identificado nesse governo mundial não mudaria de forma alguma o seu caráter despótico. O governo burocrático, o governo anônimo do burocrata, não é menos despótico porque ‘ninguém’ o exerce. Ao contrário, é ainda mais assustador porque não se pode dirigir a palavra a esse ‘ninguém’ nem reivindicar o que quer que seja.” (A promessa da política, Difel, Rio de Janeiro, 2008, p. 149)

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O fragmento da peça de Jean-Paul Sartre sugere que O PAI, Frantz e os outros personagens são comandados pela energia da empresa. Ela não é alguém, mas pode se servir de todos justamente porque é ninguém. Sua força existe na sua natureza elusiva. O neoliberalismo também é uma divindade impessoal: a energia criminosa dela já comanda nosso país.

Todas as revoltas, rebeliões e revoluções foram contra algo ou contra alguém. Nossa revolta, rebelião e revolução será contra ninguém. Mas esse “ninguém” é diferente daquele que foi objeto das cogitações de Hannah Arendt, pois o neoliberalismo não precisa de qualquer burocracia estatal. De fato, quanto mais a destruir maior será o poder que ele conseguirá exercer sobre todos, em todos os espaços o tempo todo.

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