Os três partidos e a sucessão presidencial, por Carlos Henrique R de Siqueira

Hoje temos um sem número de crenças, ideologias e religiões políticas das mais variadas vertentes, mas a maioria delas não propõe mais um futuro melhor

Os três partidos e a sucessão presidencial

Quais são as três forças políticas que disputam a sucessão em 2022? E quais são suas chances?

por Carlos Henrique R de Siqueira*

O cenário ideológico no Brasil e no exterior lembra em certa medida aquele dos anos de 1960. Naquele momento, houve uma grande proliferação de movimentos sociais reivindicando direitos, como o movimento negro, o movimento pelos direitos civis, o movimento feminista, o anti-colonialismo, movimentos anti-imperialistas, movimentos pacifistas e outros. A diferença entre o nosso tempo e a efervescência dos anos 60 talvez seja que aqueles movimentos eram progressistas, reivindicavam um mundo mais inclusivo, e sinalizavam a esperança de um futuro melhor.
 
Hoje, ao contrário, temos um sem número de crenças, ideologias e religiões políticas das mais variadas vertentes, mas a maioria delas não propõe mais um futuro melhor, mas apenas uma espécie de retorno nostálgico a um passado idealizado. No atual cenário ideológico temos os movimentos políticos que pregam uma espécie de retorno a uma suposta era dourada do Estado de Bem-Estar Social do pós-guerra, até o Make America Great Again, postulando um espécie retorno à época de supremacia racial dos brancos norte-americanos. Sem falar, claro, nas propostas neoliberais e suas mais radicais vertentes, como o anarco-capitalismo, que prega nada mais nadam menos que uma sociedade patriarcal e monárquica neo-feudal. Dentre as propostas de retorno ao passado, não podemos deixar de lado também a ilusão de parte da esquerda de um retorno ao passado Lulista de crescimento econômico, distribuição de renda e baixo conflito social.
 
Uma das características das eleições presidenciais no Brasil é que ele força convergências, e não apenas as partidárias, mas as ideológicas também. Por mais divergentes que as ideologias sejam, todos somos obrigados a escolher um partido, um candidato, um programa. É durante as eleições presidenciais, no momento em que o discurso tem que virar ato, é que vemos indivíduos e grupos divergentes convergindo em torno de uma ideia de governo. E convergem com atos de fala, com justificativas discursivas, o que deixa um material muito expressivo para entender a lógica ideológica desses diferentes grupos. Um dos casos curioso que exemplifica à perfeição os alinhamentos políticos heterodoxos é o dos líderes, eleitores e candidatos de um partido social-democrata que fez campanha para um candidato da extrema-direita.
 
Por conta disso, apesar das diferentes e antagônicas tendências ideológicas que podemos ver no cenário político brasileiro atual, de paleoconservadores, anarcocapitalistas até neostalinistas e socialistas verdes, toda essa diversidade muito provavelmente terá que convergir nas eleições de 2022 em torno de três forças políticas dominantes. Denominarei essas forças de partidos, e evitarei personificá-las, embora saibamos muito bem quem as representa.
 
O primeiro partido é o que denominarei de Partido Verde-Amarelo, ou seja, a extrema-direita, que conta inclusive com apoio de parte da direita liberal-conservadora. Esse apoio funcionou muito bem para ambos, e continua funcionando agora quando novas alianças estão sendo construídas para a sustentação do atual governo. O que as une são as propostas de um neoliberalismo autoritário e violento, e o combate incondicional às forças de esquerda.
 
O segundo partido é o que chamarei de Partido Amarelo (sugestão cromática inspirada na campanha da Folha de São Paulo, uma porta-voz desse partido). Ele representa a direita tradicional liberal-conservadora (me recuso a chama-la de “direita democrática” por conta de seu histórico reconhecido de apoio a intervenções, golpes e a políticos e políticas da extrema-direita). É o partido da Lava-Jato, o partido da mídia e o partido da manutenção da ordem da desigualdade. Embora, é preciso dizer, já não tenha mais exclusividade sobre a classe média autoritária. O Partido Amarelo tem pontos de conexão com o Partido Verde-Amarelo, e em alguns pontos se confunde com ele. Alguns de seus representantes, inclusive, já tiveram participação no governo do Partido Verde-Amarelo, ou trabalharam ativamente pela sua eleição.
Por fim, temos o Partido Rosa, a centro-esquerda de vermelho desbotado, e bastante rachada, como sempre. Nesse partido incluo PT, PDT, PSB, PSol e outras forças. Ao longo dos anos, adequando-se a lógica da concorrência eleitoral, o Partido Rosa chegou ao poder quando abandonou as pautas realmente transformadoras. Instalado no poder, usou os mecanismos tradicionais de construção da base parlamentar para aprovar projetos e conduzir seu plano de governo. Hoje é um partido absolutamente integrado ao sistema político, sem qualquer programa radical, mas que enfrenta grande dificuldade retomar os níveis de adesão do passado recente por conta diversos motivos. Primeiro, por conta de seus próprios erros, dentre eles o de ter usado os mecanismos tradicionais de bsuca de apoio parlamentar; segundo, pelo sucesso do grande acordo nacional que o alijou do poder, contanto com articulações em todos os poderes e na mídia, com ativa participação do Partido Verde-Amarelo e do Partido Amarelo; e em terceiro lugar, por conta da ascensão do Partido Verde-Amarelo que ocupou o lugar do força política que promete mudanças substantivas.
Se esses são os três partidos que disputam o poder hoje, quais são suas chances nas eleições presidenciais de 2022? Se o padrão histórico se mantiver, embora nada garanta isso, o presidente em exercício chega ao segundo turno e ganha as eleições. Mas os padrões históricos já não garantem mais nada nesse ambiente volátil da política atual. No entanto, podemos especular com alguma segurança, especialmente diante das recentes transformações do governo federal, que o Partido Verde-Amarelo muito provavelmente já está no segundo turno de 2022. Só cometendo erros atrozes ele ficaria de fora, o que também não é impossível. Mas a primeira hipótese parece mais razoável hoje.
Sendo assim, alguns importantes dilemas que se apresentam para 2022 diante do cenário atual.
1) As chances do Partido Amarelo são inversamente proporcionais à popularidade do Partido Verde-Amarelo. Quanto mais enfraquecido estiver o Partido Verde-Amarelo na época da eleição, mais chances o Partido Amarelo tem chegar ao segundo turno. Com o Partido Verde-Amarelo fraco, mas com força suficiente para chegar ao 2º Turno, ele pode levar junto o Partido Amarelo. Com o Partido Verde-Amarelo forte, o Partido Amarelo perde eleitores e terá muito menos chances de chegar ao 2º Turno. Portanto, o paradoxo aqui é que o partido da extrema-direita, o mesmo que o Partido Amarelo ajudou a eleger nas eleições de 2018, precisa perder força para a direita liberal-conservadora ter alguma chance de chegar ao 2º Turno.
2) O Partido Rosa, por sua vez, só chegará ao 2º Turno sob uma tripla condição: a) de que o Partido Verde-Amarelo esteja forte, e nessa situação concentre os votos que poderiam levar o Partido Amarelo ao 2º Turno; b) o Partido Rosa precisa de uma mínima unificação para evitar a dispersão de votos que poderá tirá-lo do 2º Turno; e c) o PT precisa abrir mão da cabeça da chapa para desmobilizar parte da rejeição, o suficiente para a tarefa de chegar ao 2º turno.
O paradoxo aqui duplo: 1) o Partido Rosa precisa do Partido Verde-Amarelo fortalecido para eliminar o Partido Amarelo; 2) o Partido Rosa tem pouca chance de chegar ao poder com o PT na cabeça da chapa, mas ao mesmo tempo não tem chance alguma sem incluir o PT.
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*Carlos Henrique R. de Siqueira é mestre em História e Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília. Atualmente é professor no Instituto de Ensino Superior de Brasília.

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