Os vícios de apresentações Power Point, por Marcelo Leite

 
Jornal GGN – “O pior vício é usar slides demais. Contei 84 na apresentação do procurador que pode ser encontrada na rede. Perfeita manifestação concreta da máxima segundo a qual o segredo de aborrecer é dizer –no caso, mostrar– tudo”, analisou Marcelo Leite, da Folha, sobre a apresentação de Power Point de Deltan Dallagnol, procurador da República, na denúncia contra Lula.
 
Segundo ele, é “regra básica” das apresentações “não empregar mais que uma lâmina para cada minuto disponível para a exposição”, em um contexto em que “a praga das apresentações em lâminas viceja como nunca nos meios acadêmicos, onde também impera essa forma de projeção luminosa para conteúdos obscuros”.
 
Nesse contexto, o “pecado capital” seria “abusar de figuras geométricas – retângulos, círculos, setas e quetais”. “Na denúncia de Lula, elas abundaram”, completou.
 
Por Marcelo Leite
 

Difícil dizer o que é mais penoso de acompanhar: o depoimento de Dilma Rousseff no Senado, a sessão de posse da ministra Cármen Lúcia no STF (Supremo Tribunal Federal) ou a entrevista coletiva do procurador da República Deltan Dallagnol ao denunciar Lula na Lava Jato.

Dallagnol, para mal de seus pecados, foi o último a sequestrar a atenção do público por mais tempo do que seria necessário. Só não a perdeu por causa da relevância óbvia do que tinha a expor.

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Nada que se compare, em comprimento e aporrinhação, com as arengas nos plenários do Senado e do STF, é verdade. Em compensação, o procurador se fez acompanhar de uma apresentação Powerpoint.

Essa é a única razão, cabe logo esclarecer, para ocupar com assunto tão enfadonho um espaço reservado às maravilhas da ciência. Ocorre que a praga das apresentações em lâminas viceja como nunca nos meios acadêmicos, onde também impera essa forma de projeção luminosa para conteúdos obscuros.

O pior vício é usar slides demais. Contei 84 na apresentação do procurador que pode ser encontrada na rede. Perfeita manifestação concreta da máxima segundo a qual o segredo de aborrecer é dizer –no caso, mostrar– tudo.

Uma regra básica das apresentações eficazes manda não empregar mais que uma lâmina para cada minuto disponível para a exposição. Só que a maioria dos oradores brasileiros acha que o tempo é um recurso plástico, que deve se adaptar ao volume disforme do que terá sido dito quando o discurso terminar. O pecado capital, contudo, é abusar de figuras geométricas –retângulos, círculos, setas e quetais. Na denúncia de Lula, elas abundaram.

Ficou mais uma vez evidente que seu papel real é aplicar uma demão de verniz cartesiano sobre argumentos desconexos. Ou, pelo menos, sem o nexo causal pressuposto quando se trata de provas jurídicas.

Considere-se o famigerado slide com 14 “evidências” contra Lula. Dispostas em bolinhas ao redor do nome do ex-presidente, com uma saraivada de setas a espetá-lo, elas deveriam corroborar as acusações contra o alvo central da Lava Jato. Nada disso.

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Uma delas servirá para exemplificar a nebulosidade dominante na exposição. Continha um único vocábulo: “expressividade”. No slide que se dedica a explicar o item, porém, o enigma não se desfaz.

O primeiro retângulo, azul, afirma em letras maiúsculas que “a expressividade do esquema só é compatível com o seu comando por Lula, triplamente beneficiado por ele”.

O segundo retângulo, em cinza, complementa: “A expressividade da PROPINOCRACIA; dos líderes partidários, dos ministros e funcionários públicos envolvidos; das empresas, grandes doadoras, envolvidas; dos valores que só na PETROBRAS chegaram a 6,2 bilhões; e da ramificação do esquema em diversos órgãos não permitem outra conclusão”.

Quem concorda de antemão com a força-tarefa da Lava Jato terá achado claríssimo, apesar da pontuação e da concordância. Mas Marcel Proust já advertiu que “cada um chama de claras as ideias que estão no mesmo grau de confusão que as suas próprias”.

Ciência e justiça servem para desfazer dúvidas com objetividade. Sem Powerpoint, por favor. 

 

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3 comentários

  1. Para que serviu a Lava jato?

    Gilmar ganhou: empresas voltarão a doar

    Depois da anistia aos ladrões

    O amigo navegante acompanhou a marcha irreversível do perdão ao Caixa Dois, o que significa que só os petistas ficarão presos na Lava Jato (ainda falta o Lula, cuja cabeça será devidamente cortada, para a ceia do Natal).

    Perdoados os ladrões, ladrões voltarão a financiar as campanhas eleitorais, como pretende oGilmar (PSDB-MT):

    Deputados articulam volta da doação de empresas a campanhas eleitorais

    A articulação do Congresso prevê a retomada da discussão e a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que diz respeito à volta do financiamento empresarial de campanhas ainda esse ano.

    Quando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) votaram contra a doação de empresas para campanhas, em setembro de 2015, um dos principais fatores foi o favorecimento da corrupção, visto que 40% de toda a arrecadação do PMDB, PT e PSDB entre 2007 e 2013, de acordo com Estadão Dados, teriam vindo de empreiteiras investigadas pela Operação Lava-Jato.

    A proposta traz algumas particularidades e tem a pretensão de financiamento misto. A PEC sugere a doação de pessoas físicas e empresas. Entretanto, as companhias só poderiam doar para o partido e este seria responsável por distribuir entre as campanhas de seus candidatos. A doação direta para candidatos específicos seria permitida, como já é, apenas em casos de financiamento de pessoas físicas.

    Um dos líderes do governo e da articulação pelo retorno da doação de pessoa jurídica, o deputado André Moura (PSC-SE) é investigado em inquérito que busca apurar a ação do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na edição de medidas provisórias de acordo com interesses de empreiteiras.

    Além disso, Moura é três vezes réu no STF, já foi condenado em 2ª instância por improbidade administrativa ao utilizar dinheiro público para despesas pessoais com comida e bebidas alcoólicas enquanto era prefeito de Pirambu, cidade do leste de Sergipe.

    Em 2007, Juarez Batista Santos, que sucedeu Moura na prefeitura de Pirambu, acusou o deputado de tentativa de homicídio. Em junho de 2007, um vigia da residência de Juarez foi atingido por um tiro, de raspão, durante um suposto assalto. O então prefeito disse que desconfiava de Moura, mas, sem provas, o caso segue para arquivamento.

     

  2. 84 slides pra defender um crime sem prova

    Os sujeitos investigam o Lula há dois anos, e tudo que conseguiram até agora foi parir 84 slides de um crime que não existe…

    Ministro um curso pra servidores públicos federais, que tem 27 horas de duração, 6 horas por dia. O curso inteiro usa 96 slides de power point…

  3. TTIP TISA TPP

    Caro Nassif!

    Muitos falam no golpe e privatizações. Não vi nenhuma fala sequer sobre um provável fim desta campanha, os tratados TTIP TISA e TPP.

    Isto é assustador. O TTIP é a entrega de todos os serviços e comércio de um país ao mercado internacional e com severas penas a quem não cumprir.

    Estão inclusos os serviços de energia, transporte, água, postais, bancários, seguros, saúde telecomunicações e comércio extraindo toda e qualquer autodeterminação dos paises signatários sobre estes itens. Assim, as regras propostas proíbem os governos de, direta ou indiretamente, nacionalizar ou desapropriar.

    Alguém lembrou do filme Rollerball de 1975?

    A ganância sem limites.

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