Oxóssi e as movimentações da caça, por Mariana Nassif

Oxóssi e as movimentações da caça, por Mariana Nassif

O primeiro contato que tive com a palavra trabalho foi ainda na adolescência quando, enrolada com meus porquês, encontrei uma terapeuta que propôs exercícios de encontro de vocação. Além de observar meus cadernos da escola, sempre caprichados, coloridos e organizados, realizei alguns testes e conversas que, enfim, deram o veredicto: comunicação.

Estava fácil: mais da metade de minha família, materna e paterna, são jornalistas. A paixão pela escrita e o uso desta vocação já acontecia como desabafo nos quase infinitos diários que desde que me recordo como gente mantenho. Poesias, contos, redações – sempre meu forte em manifestações profundas, densas e, enfim, curativas. Lá fui eu cursar jornalismo. Vale dizer que estava grávida na época do vestibular e, então, a atenção durante a faculdade foi dividida com a amamentação e desenvolvimento do que há de melhor em mim, da parte que mais gosto de exercer até hoje e muito provavelmente para sempre, que é ser mãe. O primeiro emprego logo apareceu por meio de um contato da família e lá fui eu ser assessora de imprensa, uma profissão próspera dentro do jornalismo e, por que não afirmar?, que me trouxe benefícios financeiros e felicidades por um certo período.

Acontece que meu caminho de certa forma foi traçado num contexto de pertencimento tão forte, uma necessidade enorme e latente que me fez questionar em alguns momentos minha própria identidade de forma dolorida e que culminou numa depressão daquelas que a gente só percebe quando já está submersa. A crise profissional começou num contexto empresarial de salários atrasados, clima tenso e falta de relação com os afazeres e, dali pra frente, a urgência em exercer algo que demandasse relação entre o que a alma pedia – cuidados e prazer – com o que era necessário – dinheiro e alguma estabilidade – ficou ainda mais forte. Foi procurando minha própria cura que me deparei com as questões que me trouxeram do jornalismo para as terapias naturais e, acredito, seja esta a jornada de tantas outras pessoas que se sentem desconectadas dos afazeres diários em termos de produção.

Os aprendizados sobre as ervas e florais proporcionaram encontros alegres com pessoas prósperas, e o desenvolvimento da Banhô, a empresa que manipula e comercializa banhos de ervas em formatos e combinações possíveis para todos, independente do santo, se deu como oportunidade de restabelecer minha conexão com um propósito maior do que o fazer por e para mim. Vale dizer que, nos terreiros, os banhos de ervas são comumente utilizados para abrandar as dores da alma, tendo indicações e contra-indicações dependendo de quem rege o Ori, a cabeça, de cada pessoa. Estudar as ervas neutras, que não geram conflitos com os santos, e embalar de modo a tornar os banhos parte integrante de rotinas de bem-estar é ainda um desafio que venho vivendo, agora, mais perto da natureza – utilizando a internet como canal exclusivo de vendas e comunicação, tento me organizar para empreender num mundo onde tudo existe e as soluções são solicitadas de imediato.

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Esta busca pelo ajuste do timing em contrapartida à vida que cabe no bolso, proveniente do trabalho, ora pois, me colocou de reencontro com as escritas, estas que também compartilho aqui com vocês. Por meio das palavras, trocadas por serviços em forma de permuta de conteúdo, dou conta de algumas contas que seriam demais pro bolso neste momento, mas que se fazem suaves a ponto de crescer meu negócio e enxergar luzes cintilantes ali, no que seria o fim do túnel. Minha contadora, por exemplo, que emite as notas fiscais e que me ajuda a implementar sistemas de emissão automática no site, é paga com textos que vão enfeitar o blog de empreendedorismo materno – e eu continuo aprendendo enquanto trabalho.

Se preciso pontuar um quesito específico em relação às mudanças profissionais que venho realizando  na vida e que provavelmente possam impactar a vida de outras pessoas, este ponto se faz valente acerca deste trânsito: o aprender enquanto realizo, estímulo sem fim de envolvimento e agrado, não só pra mim, que desenvolvo características pessoais e/ou entendo que determinada ação não está dentro das minhas possibilidades, mas também para as pessoas com quem troco os resultados, estas que imprimem em meu caminhos seus propósitos individuais e com quem cresço enquanto me alimento de.

Oxóssi, o rei das matas, aquele que vai caçar caminho, é o padroeiro do trabalho, por assim dizer. Carrega consigo uma flecha que, para ser lançada em busca do que é preciso, é puxada para trás para pegar impulso. Que esta metáfora permeie nossa trilha profissional, lembrando de que os movimentos da vida, mesmo que os corporativos, vez ou outra pedem pausa, respiração e avaliação de rota – e sempre, sempre mesmo, tem enormes lacunas disponíveis, prontinhas pra serem preenchidas pela nossa real vocação, mesmo que por um momento ou dois, e que logo ali mudem e mudem de novo. 

1 comentário

  1. Depressão pode não ser um

    Depressão pode não ser um sintoma.

    As vezes é a cura.

    O que nós não percebemos pode ser uma doença tertivel.

    Sempre irônico, Sócrates estava calmo no dia em que deveria tomar cicuta.

    Ele consolou os amigos que estavam tristes ou rebeldes. Mandou os guardas removerem a esposa escandalosa da cela.

    Quando troxeram a poção fatídica ele estava tocando na flauta uma melodia nova que acabara de aprender.

    Antes de tomar a dose de cicuta, Sócrates pediu a um amigo para sacrificar um galo a Asclépio.

    Esse sacrifício era indispensável quando o doente havia obtido a cura por intervenção divina. 

    Condenado a morte, ele já considerava sua vida uma doença. Ao cumprir calma e voluntariamente a pena ele foi curado.

    A nossa cura, porém, não é fazer o mesmo que Sócrates. Nós precisamos aceitar a vida, o que as vezes parece ser ridícula, absurda e desprovida de significado. Você já está fazendo isso de maneira criativa. Boa sorte. Vida longa e próspera, como diria Spok.

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