Pandemia à brasileira: Será que o “jeitinho brasileiro” será capaz de enfrentar a Covid-19?, por Fernanda Almeida

O Sistema Único de Saúde – SUS, patrimônio da sociedade brasileira, completará 32 anos de existência e não há dúvida de que ele enfrenta seu maior desafio.

(Fernando Frazão/Agência Brasil)

Pandemia à brasileira: Será que o “jeitinho brasileiro” será capaz de enfrentar a Covid-19?

por Fernanda Almeida

“Fique em Casa!” Essa frase circulou em todo o globo. Quarentena, distanciamento e isolamento social passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano. O isolamento foi orientado como medida mais eficaz para mitigar o crescimento exponencial da pandemia de Covid-19 causada pelo vírus SARS-CoV-2 ou Novo Coronavírus. A partir do dia 17 de março de 2020, governadores e prefeitos brasileiros começaram a decretar as medidas regulando formas e prazos de isolamento e distanciamento social. As mudanças, de modo concreto e simbólico, afetaram o cotidiano de maneira épica. Do ponto de vista estrutural a pandemia colocou em xeque o modo de produção e reprodução da vida social baseadas na superexploração do trabalho e da natureza. Ao mesmo tempo, do ponto de vista individual, os sujeitos convivem com impactos objetivos e subjetivos que tais mudanças impõem, ou seja, perdas materiais (redução salarial, desemprego e fome) e sentimento de angústia, insegurança e medo.

Passados um pouco mais de 100 dias desde o início das medidas de isolamento social, os brasileiros dão sinal de fadiga e esgotamento, o fortalecimento das redes públicas de atenção psicossocial são mais que necessárias. Paralelamente, a Organização Mundial de Saúde – OMS declara que a previsão de vacinas para imunização levará no mínimo mais um ano.[1] Sendo otimista, é possível pensar em produção e distribuição mundial de vacinas daqui a pelo menos 1 ano e meio. Como já foi amplamente divulgado, o processo para elaboração de vacinas não é algo simples que se faça de modo rápido, com prazos certos. O trabalho exige investimento em ciência e tecnologia ⎯ o que inclui pesquisadores altamente preparados ⎯, algo incompatível com os ataques ideológicos, políticos e administrativos do Governo Federal contra a Universidade brasileira.

Enquanto isso, a única e mais eficaz medida de contenção é o distanciamento e isolamento sociais. Como temos visto, embora a Covid-19 tenha uma taxa de letalidade relativamente baixa (ainda assim nada desprezível), a doença deixa um rastro de destruição e desafia os sistemas de saúde em todo o mundo, pois a letalidade está relacionada não só ao grau de agressividade do vírus, mas também às condições de atendimento da rede de saúde, características epidemiológicas particulares de cada país e, ainda, com as determinações do processo saúde-doença de cada território. Esta correlação de causas torna ainda mais complexo o enfrentamento da epidemia num país como o Brasil, de modo que a Covid-19 à brasileira evidencia determinações ideopolíticas, econômicas e socioculturais que vão dando um tom farsesco às políticas de saúde pública adotadas por alguns prefeitos, govenadores e, principalmente, pelo Governo Federal.

Com tudo, e a partir da vivência cotidiana ao longo desses mais de cem dias vamos percebendo que a consigna “fique em casa!” adotado no Brasil tem múltiplas camadas e sentidos, revelando ambivalências e as contradições da sociedade brasileira. Evidentemente para que a maioria das pessoas pudesse ficar de fato isoladas seria necessário haver condições materiais que assegurassem sua subsistência no lar, pressuposto incompatível com o desenvolvimento econômico e social brasileiro ao longo dos séculos, caracterizado em todas as épocas pela profunda desigualdade e extensa miséria. O imperativo “fique em casa!”, mundialmente reconhecido como único modo de contenção da Covid-19, é impensável nas circunstâncias do capitalismo periférico nacional, onde parte significativa da produção de bens e serviços não pode ser realizada em home office, ou seja num país como o Brasil, com níveis de desigualdade social estruturante, sem uma política pública de proteção e garantia social consistente a desaceleração da produção gerará uma catástrofe com resultados prático imediatos.[2]

A realidade demonstra que crise sanitária mundial evidencia a insustentabilidade do modo de vida constituído pela racionalidade neoliberal, que se impõe como sociabilidade e imprime o mal-estar do nosso tempo. Os sintomas sociais desse processo são vivenciados cotidianamente: a profunda e estruturante desigualdade social, as condições de vida e trabalho precários e a radicalização do ódio ideológico que nutriu a chegada ao poder do presidente Bolsonaro conflitam com a necessidade imperiosa de atitudes fundamentalmente éticas, coletivas, altruístas, solidárias e radicalmente humanitárias para enfrentar a verdadeira guerra contra a pandemia do Covid-19 e, também, contra os efeitos dos desdobramentos das disputas políticas e econômicas.

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O distanciamento e isolamento social como estratégias para prevenir o contágio vêm sendo vivenciados de maneiras distintas nos territórios[3]. A pandemia no Brasil explicita o sintoma social mais evidente da sociedade brasileira: os conflitos de classes sociais, com suas distinções de raça e gênero, parecem acentuar o abismo existente entre dois mundos absolutamente distintos. A situação do trabalho doméstico, por exemplo, aparece como uma caricatura da relação das elites com o povo trabalhador. A realidade das empregadas domésticas, dispensadas sem qualquer garantia ou, ainda, obrigadas a comparecer ao trabalho expondo-se a si e às suas famílias aos riscos de contágio, doença e morte, é a imagem mais fiel da face escravocrata da sociedade brasileira.

Simultaneamente às odiosas práticas arcaicas perpetradas na “vida privada”, o Governo Bolsonaro opera diuturnamente pela destruição dos mecanismos de proteção de direitos institucionalizados pelo Estado brasileiro. A política de morte (genocídio da população pobre e periférica), uma velha conhecida nossa, é reatualizada ou, como afirma o  filósofo e pensador camaronês Achille Mbembe,  o exercício do poder e da soberania estatal reside justamente no fato de arbitrar quem merece viver ou morrer, a necropolítica, conceito que bem traduz a realidade econômica, política, social e cultural do Brasil contemporâneo e que, em tempos de pandemia, ganha contornos ainda mais nefastos.

Antes de aportar em terras brasileiras, o Novo Coronavirus havia deixado um rastro de destruição na Ásia e em toda a Europa, avançando ferozmente pelos Estados Unidos, que assegura, por ora, o trágico 1º lugar em número de vítimas fatais da Covid-19: 130.101 óbitos. No Brasil, passados um pouco mais de 100 dias desde a 1ª morte causada pelo coronavírus, os óbitos atingiram, em 02/07/2020, o montante de 60.713. Neste mesmo dia, o Ministério da Saúde confirmou mais de 1.057 mortes. O número de contaminados no Brasil já soma 1.448.753 pessoas. Paralelamente, os institutos de pesquisa e os cientistas de todo país falam da existência de subnotificação, ou seja, o número de mortos e de infectados pode ser ainda maior. Em todo o planeta, os casos contaminação ultrapassam 10 milhões de pessoas, com mais 514 mil óbitos registrados.

Frente aos fatos que são absolutamente incontestáveis: a previsibilidade de novas mortes, a relativização da vida, a estatística matemática que contabiliza potenciais vítimas, a contagem de cadáveres humanos, porém, a reação do Governo do Brasil e dos brasileiros é um caso que merece reflexão.  A compreensão dessa emaranhada conjuntura desafia as ciências humanas e sociais, e ainda, conclama a atuação e construção de estratégias por parte das lideranças políticas humanistas e democráticas.

A imprensa “arrependida” de suas escolhas assiste escandalizada as declarações, deliberações e aberrações anunciadas no planalto central. Os pronunciamentos de Bolsonaro exprimem sua personalidade perversa. A frieza com que ele busca negar, falsificar e naturalizar a realidade é assombrosa.  No entanto, a negação de fatos por ele é uma estratégia ideológica que tem raízes no irracionalismo, não se trata de uma simples ausência de racionalidade – muitos simplificam a realidade crendo que Bolsonaro seria um louco (vamos ter mais respeito aos loucos!). Em realidade, essa insensibilidade ao sofrimento é um dos aspectos da ideologia fascista, capilarizada no tecido social pelas pessoas identificadas com os valores de seu “mito”, os quais, à toda evidência, não surgem e se consolidam da noite para o dia, como já havíamos anunciado aqui.[4]

Após mais de 100 dias desde o anúncio da primeira morte por Covid-19 está claro e evidente que o presidente “joga no time” do coronavírus. Seu modo torpe de agir reatualiza o que há de pior na cultura colonial e escravagista brasileira. Bolsonaro parece representar um tipo de “homem médio brasileiro” que adota a estratégia discursiva do “vira-latismo” que assumiu para si o vergonhoso “jeitinho brasileiro”.  Ele acredita que vencerá o coronavírus com arremedos de políticas pública, o “jeitinho”. Ou, na pior das hipóteses, com a desonestidade que é peculiar ao “jeitinho”, enganará parte da sociedade.

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Em 22 de junho, quando o Brasil chegava aos 50 mil mortos, Bolsonaro declarou que “talvez tenha havido um pouco de exagero” na forma como a OMS  e outras autoridades lidaram com a pandemia do novo coronavírus”.[5] Em apelo aos governadores e prefeitos e pedia a abertura imediata do comércio. Lamentavelmente, parte da população parece incorporar acriticamente a naturalização da pandemia. Aqui não me refiro à horda fascista fiel a Bolsonaro. Também não me refiro aos sujeitos superexplorados que por única e exclusiva falta de alternativas (objetiva e subjetiva) acabam expondo a si e aos outros à contaminação. Refiro-me àqueles que acreditam que basta um pouco de sorte e fé para se imunizarem. Esse é um fenômeno transversal às classes sociais – ainda que seja particularizado em cada uma delas –, tornando-se necessário buscar as determinações daquilo que é comum e, ao mesmo tempo, distinguir fatores econômicos e culturais quando se apresentam de forma preponderante. Dito de outra maneira, do Alto de Pinheiros até a Brasilândia existem pessoas que poderiam, mais ou menos se proteger, porém não seguem as orientações das autoridades sanitárias. O que dizer, por exemplo, da parcela significativa de pessoas que se apresentam usando máscaras no queixo ou penduradas nas orelhas?

Essa realidade não deixa de ser um mecanismo de negação – quem sabe uma busca de defender-se do insuportável do real – ou, ainda, poderá representar a forma mais sedimentada do individualismo na consolidação da sociabilidade neoliberal, distinguindo-se da perversidade da negação bolsonarista, ainda que ambas as manifestações sejam absolutamente egoísticas e antiéticas.

O cotidiano está inundado de informações: fala-se das mortes, da precariedade de estrutura pública no atendimento à saúde, do sofrimento causado pela dificuldade de respirar… Não se fala em outro assunto, mas as pessoas, por estarem mergulhadas na ideologia ou por defesa do seu psiquismo, parecem buscar na alienação cotidiana um conforto para a dor ou para assentar sua prática radicalmente individualista. Não se trata de um julgamento moral dos atos e sentimentos ambivalentes e contraditórios de cada um diante da pandemia, mas de tentar compreender as vicissitudes pelas quais passamos.

Após um longo tempo, o isolamento parece trazer muita fadiga e esgotamento, o imperativo do distanciamento social exige muita abstração e saúde mental. A ausência da medição do contato pelo corpo traz angústia e sofrimento. Por isso muitos se arriscam. Vimos durante esses mais de três meses de isolamento, praças, praias, parques e, mais recentemente, ruas de comércio e até mesmo os shoppings centers com aglomerações de pessoas.

Ainda que se possa afirmar que a responsabilidade por essa exposição arriscada seja individual, suas repercussões são coletivas. E mais, é preciso compreendê-las no âmbito das disputas discursivas e das informações propositalmente desencontradas, assim como da politização do tratamento – o episódio cloroquina merece um capítulo à parte. As pessoas já não sabem em quem acreditar. “Fica em casa!”, mas o comércio está aberto.  “Fica em casa!”, mas os restaurantes funcionam. “Fica em casa!”, mas a indústria de fake news segue trabalhando intensamente consolidando mentiras e empurrando parte da sociedade para o abismo.

Na queda de braço com mercado, prefeitos e governadores estão cedendo à pressão. Os tucanos Bruno Covas e João Doria, que vinham se opondo à abertura do comércio e seguindo protocolos da OMS, estão pouco a pouco sucumbindo às imposições empresariais. O ex-bolsonarista João Dória se notabilizou, no primeiro momento, no enfrentamento ao presidente quanto a necessidade de isolamento radical.  O célere governador foi obrigado mudar o slogan “Acelera São Paulo”, tendo que ceder e, ele mesmo, pedir calma e tranquilidade diante da expansão da doença viral. Porém, Dória não aguentou a pressão! No final de maio, apresentou um plano confuso que funciona com estratégias antagônicas e heterogêneas que pode ser explicado mais ou menos assim: “Fique em casa!”, mas se quiser pode sair desde que seja para consumir. Com isso, ele desconsidera a complexidade das condições de vida dos trabalhadores da região metropolitana. Seu plano para acalentar os interesses empresariais é uma “roleta russa” para milhares de pessoas da maior região metropolitana do continente sul-americano. Em pouco tempo São Paulo poderá se tornar o epicentro da pandemia.[6] Bruno Covas, segue a mesma toada: anunciou o fechamento do hospital de campanha do Pacaembu numa atitude talvez mundialmente inédita: fechar um hospital de campanha em plena expansão do aumento de casos e número de óbitos[7]. Assim, fala-se em abertura e flexibilização (com ares de volta à “vida “normal”) sem que, no entanto, tenhamos real controle da epidemia, que nunca foi controlada no Brasil, onde faltam testes em massa, onde o isolamento nunca atingiu a amplitude necessária e as condições brutamente desiguais sempre militaram em favor do coronavírus. O crescimento da curva segue, lamentavelmente, a todo vapor.

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O Sistema Único de Saúde – SUS, patrimônio da sociedade brasileira, completará 32 anos de existência e não há dúvida de que ele enfrenta seu maior desafio. Alvo de disputa desde sua implantação, o sucateamento do SUS tem sido acelerado nos últimos anos. 2016 foi um importante ponto de inflexão nesse período assombroso. A aprovação da PEC do fim do mundo pela Emenda Constitucional n° 95 inviabilizou a concretização dos princípios fundamentais do SUS: universalidade, integralidade e equidade, num momento em que parte significativa da sociedade tem como única opção a rede de saúde pública.

Mas não nos enganemos. As rachaduras que abalam a estrutura do SUS estão evidenciadas desde sua origem. Sua materialidade está exposta na disputa entre o projeto democrático que funda a Reforma Sanitária em contraposição ao Projeto Privatista que busca mercantilizar o atendimento à saúde. Forças opostas convivem lado a lado em disputa pelo Fundo Público desde a criação do SUS. Como mencionado, as profundas repercussões da crise sanitária, econômica e social pela qual passamos, em escala mundial, trará significados pungentes para todos nós. Espero que a humanidade avance globalmente no sentido da compreensão e da garantia da saúde como um direito público e universal, a exemplo do Sistema Único de Saúde, concebido no âmbito da redemocratização brasileira. No entanto, neste exato momento, tenho mais desejos que esperança.

O impacto dessa crise afetará os sujeitos e as instituições. Quanto mais a gente suporta? Conseguiremos seguir isolados por um ano? Renunciaremos ao nosso modo de vida pautado no consumo exacerbado e construiremos formas mais comunitárias, sustentáveis e coletivas de vida? Será que teremos coragem de olhar para as feridas abertas na sociedade brasileira, a exemplo do racismo estrutural, e abdicaremos dos lugares de privilégio em prol da construção de um país mais justo e solidário?

 

__ Ei presidente o Brasil contabilizou ontem mais de 60 mil mortes pelo Novo Coronavírus, o que faremos?

__ Fiquem tranquilos, talkei? Daremos um jeitinho…   

 

Fernanda Almeida – Assistente social, coordenadora do curso de Pós-Graduação em Serviço Social e Saúde da FAPSS-SP. Atua na Rede Pública de Saúde-SUS em Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, CAPS-AD. Psicanalista em Formação, do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

[1] https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/06/vacina-contra-coronavirus-levara-no-minimo-um-ano-diz-oms.shtml

[2] https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/04/03/desaceleracao-global-por-coronavirus-sera-muito-pior-do-que-crise-financeira-diz-fmi.ghtml

[3] http://www.labcidade.fau.usp.br/circulacao-para-trabalho-inclusive-servicos-essenciais-explica-concentracao-de-casos-de-covid-19/?fbclid=IwAR09dS5riZb0KCEAnwYKGOLehF9BGKbT7oSFi-nIs50gfzgqOHnfolYUB-Q

[4] https://jornalggn.com.br/artigos/nao-se-constroi-um-mito-da-noite-para-o-dia-por-fernanda-almeida/

[5] https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/06/bolsonaro-faz-apelo-por-reabertura-e-fala-em-exagero-no-enfrentamento-da-pandemia.shtml

[6] https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-26/com-covid-19-em-ascensao-sao-paulo-coloca-em-pratica-receita-do-caos-com-abertura-de-bares-e-restaurantes.html?fbclid=IwAR0BkOw6a-4s8mAgj7A5GTjvE9s1hjdf7MWeDWYZ4Zs3EQvy0IBybmt8Hgc

[7] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/06/30/Por-que-SP-fechou-um-hospital-de-campanha-em-meio-%C3%A0-pandemia

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