Para que não se esqueça: no dia de hoje, aconteceu o Chafurdo de Natal

Foi exatamente num Natal, que a Guerrilha do Araguaia sofreu um de seus mais duros golpes no episódio que ficou registrado pelas Forças Armada

No final dos anos 60, inúmeros jovens, moços e moças, viviam angustiados/as com a situação do Brasil, que seguia subjugado por uma ditadura sangrenta. O que mais os/as desesperava era que esse poder então vigente sabia muito bem manter a maioria da população em uma situação de ignorância e, consequentemente, de conforto com o autoritarismo e suas violações. Para isso, tinha o amplo apoio dos órgãos de mídia, das escolas “sem partido” e das autoridades igualmente isentas.

Já sabemos a que se presta a isenção em tempos de barbárie: impunidade, desigualdade e violência sem fim contra vulneráveis. É o que esses/as jovens queriam combater.

Guilherme Gomes Lund

A carta de Guilherme Gomes Lund, dirigida aos seus pais, que abre o Capítulo 14, do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (disponível em http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/) reflete perfeitamente o pensamento desses/as jovens na época. Guilherme resolveu agir e foi se juntar a quase uma centena de pessoas que partiram para a região do Araguaia. O objetivo era se engajar numa guerrilha engendrada distante das cidades, mas próxima a uma população historicamente sofrida e que já tentava resistir às várias formas de exploração violenta.

“Queridos pais,
[…] é preciso que se encare seriamente a questão de nossa vida e a que dedicá-la. […]
Pela própria situação do país, cada vez se torna mais difícil para os jovens se manterem nesse estado de coisas. Não há perspectiva para a maioria dentro do atual status, muito menos para mim, que não consigo ser inconsciente ou alienado a tudo que se passa em volta. […]
Gosto e considero muito vocês, mas temo que não compreendam a grandeza do caminho que vou tomar. Temo que não entendam a nobreza dos meus ideais. […]”

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Independentemente das razões políticas para a escolha do local, é incontestável o fato de que esses/as jovens (professores/as, enfermeiros/as, etc.), nascidos/as tão longe, todos/as apelidados/as naquela região de “paulistas”, foram muito corajosos/as em abandonar suas famílias e se dedicaram efetivamente a melhorar as condições de vida de gente muito desamparada. E, de fato, ganharam a confiança da população.

As Forças Armadas vieram a saber da Guerrilha do Araguaia quando ela já estava implantada há quase 03 (três) anos e subdividida em destacamentos, mas vale assinalar que, mesmo nesse ápice de funcionamento, a guerrilha não teve mais que 70 (setenta) pessoas em atividade. Ainda assim, o Exército dedicou a ela várias operações compostas por mais de 5.000 (cinco mil) militares no total. Esses milhares de soldados sitiaram toda a região, torturaram indiscriminadamente centenas de pessoas da comunidade local, aprisionaram chefes de família, queimaram suas plantações e fizeram as mulheres de escravas sexuais. Até mesmo as comunidades indígenas foram atacadas na busca pelos/as “paulistas”.

As primeiras investidas foram feitas por meio do Batalhão de Infantaria de Selva em Marabá e da Operação Carajás, em 1970. Em 1971 e 1972, houve as operações Mesopotâmia (1971) e Papagaio (1972), todas com pouco “sucesso” na localização de integrantes da guerrilha, principalmente em razão da falta de experiência dos soldados para sobreviver nas matas. A partir de 1973, com essa experiência mais desenvolvida e após o aniquilamento do apoio local à guerrilha, chegou-se às definitivas e terríveis operações Sucuri e Marajoara. Quase todos os integrantes da guerrilha foram exterminados/as, mas nenhum corpo foi entregue a duas famílias. Muitos anos depois. apenas dois corpos foram localizados. Os demais encontram-se desaparecidos.

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E foi exatamente num Natal, que a guerrilha sofreu um de seus mais duros golpes no episódio que ficou registrado pelas Forças Armadas como Chafurdo de Natal. Os agentes da repressão chegaram, na manhã de 25 de dezembro de 1973, à área onde se concentrava a Comissão Militar da guerrilha, algo como uma coordenação-geral, e ali surpreenderam em torno de 15 (quinze) pessoas, entre elas o seu histórico comandante Maurício Grabois, o “Velho Mário”, que já estava cego na ocasião. Nosso rapaz de nobres ideais, citado no início do texto, Guilherme Gomes Lund, estudante de arquitetura, então com 26 (vinte e seis) anos de idade, estava no local montando guarda. Foram todos executados.

Várias famílias das vítimas do Araguaia processaram o estado brasileiro pedindo judicialmente a responsabilização dos assassinos e respostas sobre o destino dos corpos desses/jovens caçados/as e executados/as. O nome que constou à frente nessa ação judicial foi a da família de Guilherme, os Gomes Lund. Tendo em vista que o estado brasileiro, por todos os seus presidentes e presidenta da República do pós-ditadura, jamais adotaram ou apoiaram medidas efetivas de Justiça de Transição (responsabilização dos culpados, abertura de arquivos e entrega de restos mortais), o caso chegou à Corte Interamericana de Direitos Humanos e ficou conhecido como Caso Gomes Lund X Brasil. Por causa desse processo, o Brasil foi condenado na esfera internacional, em 2010, a realizar tais medidas. Porém, o país seguiu descumprindo seus deveres nessa área, inclusive com o beneplácito do Supremo Tribunal Federal até os dias de hoje.

Guilherme e tantos/as jovens morreram e ainda morrem – mesmo no dia de Natal – graças a esse descompromisso dos poderes da República com a Justiça de Transição e consequentemente com a democracia. É por isso que comecei o texto apenas com “para que não se esqueça…”, sem complementar a frase com o termo conhecido “para que não se repita”. É que a barbárie de ontem continua sendo praticada e tolerada. E continua sendo angustiante ver o quanto a maioria da população segue, como escrevi no início, em uma situação de ignorância e, consequentemente, de conforto com o autoritarismo e suas violações.

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– Guilherme Gomes Lund?
– Presente!

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3 comentários

  1. Viva os Guilhermes Gomes Lund de todos os tempos, os que não se conformaram com a barbárie e lutaram contra ela.

  2. A guerrilha estava lá para matar ou morrer. Morreram muito mais soldados e policiais do que guerrilheiros – estes, tinham ideais, ideias, inteligência e apoio popular, coisas que faltaram inteiramente ao outro lado. Deixaram uma semente que sobrevive, como bem sabe quem conhece a região. Mas a referência aos presidentes e “presidenta” que se seguiram é mau-caratismo. Primeiro, porque individualiza a pessoa de Dilma Rousseff, a “presidenta”. Segundo, porque não tivemos uma justiça de transição, os militares fizeram uma retirada organizada e deixaram seus sucessores, que foram Sarney, Collor, Itamar e FHC (2 mandatos), antes de chegarmos ao PT. Digam que Genoíno se aproveitou desses cadáveres, e eu concordo; mas não queiram transformar em coisa mais importante da guerrilha o esforço para encontrar os mortos, não é esse o seu valor para a compreensão do que fazer na atualidade.

    • Foram 5.000 soldados contra 70 guerrilheiros, de modo que, segundo a sua sensibilidade histórica, ao menos 4.900 soldados deram a vida nessa guerrilha?
      É, foi uma covardia dos guerrilheiros.

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