Para que serve uma empresa pública?, por Marco Antonio Rocha

Por Marco Antonio Rocha

Do Brasil Debate

O fato histórico é que as grandes empresas públicas são talvez as estruturas de maior relevância no planejamento, gestão e execução das políticas industriais dos países desenvolvidos durante a criação e consolidação de importante setores da terceira revolução industrial 

Um fato pouco estudado na reestruturação dos sistemas industriais nacionais no período que se seguiu a Segunda Guerra Mundial foi o papel das grandes empresas públicas como elementos centrais na execução da política de reconstituição da indústria europeia.

Ainda que esse elemento fosse combatido pelos oficiais americanos que supervisionaram o período inicial da execução do plano, as empresas públicas e as estatizações se proliferam no Pós-Guerra e, nas décadas seguintes, empresas como a Ente Nazzionale de Idrocarburi, Enterprise de Recherche et d’Activitês Pétrolières, Deutsche Erdoel AG (DEA) e a ÖsterreichischeMineralölverwaltung (ÖMV), entre outras, passaram a ter um papel ativo na organização dos sistemas de empresa fornecedoras da indústria do petróleo e a constituir a base de capacitação de um conjunto nacional de pequenas e médias empresas europeias.

Mesmo que de forma reativa, isto é, motivada muito mais pelas carências estruturais da situação da maior parte dos países industrializados após a Guerra Mundial do que por convicções políticas, o fato é que as grandes empresas públicas se tornaram os elementos centrais na defesa e na criação de competitividade de uma parte significativa dos sistemas industriais nacionais na segunda metade do século 20.

Estas empresas não só procuravam regular a oferta interna dos insumos industriais básicos e fornecer a infraestrutura industrial, como organizavam também uma vasta cadeia de pequenas e médias empresas.

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Suas decisões estratégicas definiam assim eixos de política industrial através de suas decisões de compra, capacitação de fornecedores, investimentos em parcerias para desenvolvimento tecnológico, et cætera.

Desse modo, o fato histórico é que as grandes empresas públicas foram talvez as estruturas de maior relevância no planejamento, gestão e execução das políticas industriais dos países desenvolvidos durante a criação e consolidação de importante setores da chamada terceira revolução industrial.

Mesmo que a onda posterior de privatizações tenha desmontado alguns desses sistemas industriais, até agora a proposta liberal não conseguiu produzir estruturas institucionalmente equivalentes que tenham se demonstrado tão eficazes na execução da ideia de política industrial construída no Pós-Guerra quanto as empresas públicas – com maior visão estratégica de mais longo prazo e menos sujeitas a capturas do que as agências reguladoras.

Justamente por estarem inseridas diretamente na concorrência intercapitalista, as grandes empresas públicas têm uma maior capacidade de alterar o equilíbrio de forças, favorecendo a inserção competitiva das empresas nacionais. Portanto, o que se deve esperar de uma empresa pública?

A Petrobrás iniciou nos anos 2000 a constituição de um plano estratégico baseado na missão de conquista do Pré-Sal, que envolvia não só alcançar grandes metas de produção em águas profundas, como, através do Prominp, ampliar e criar setores industriais tecnologicamente dinâmicos e com grandes possibilidades de inserção de empresas nacionais.

Em especial, um conjunto amplo de médias e pequenas empresas fornecedoras nos processos de EPC e envolvidas na política de conteúdo local.

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Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas (1) em um conjunto de grandes empresas do setor de máquinas e equipamentos ligadas à cadeia produtiva petroleira forneceu um bom retrato dos efeitos da Petrobrás sobre o sistema industrial brasileiro: das empresas entrevistadas, cerca de 80% revelaram que sua inserção como fornecedora da Petrobrás significou a introdução de novos produtos e serviços; cerca de 70% das empresas afirmaram que a relação com a Petrobrás também significou o aumento das vendas para outros clientes, a contratação de novos funcionários e a modernização de processos produtivos.

Aproximadamente metade das empresas declararam que ampliaram seus gastos em P&D em razão dos contratos com a Petrobrás, e ainda cerca de 20% das empresas iniciaram processos de internacionalização a partir da atuação como fornecedora da Petrobrás.

Vale também ressaltar que os principais impactos se revelaram justamente nos setores de bens de capital, cuja dinamização tem importantes efeitos de encadeamento e em fornecer ganhos de produtividade para o restante do sistema industrial.

A relação entre Petrobrás e fornecedores ainda é permeada por empresas de serviço industrial, como engenharia de projeto e detalhamento, permitindo a inserção não só de empresas industriais, como o desenvolvimento de atividades de serviço com alto conteúdo tecnológico.

De modo geral, o sistema de empresas públicas foi ao longo do século 20 o principal fator de consolidação de sistemas nacionais de pequenas e médias empresas com competitividade internacional.

A contradição entre grandes empresas e pequenas e média é, na maioria dos casos, apenas aparente; via de regra, países com grandes empresas nacionais – sobretudo públicas – possuem sistemas robustos de pequenas e médias empresas.

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Isso porque as estratégias de crescimento das grandes empresas estatais serviram ao longo do desenvolvimento capitalista de suporte à expansão das atividades das pequenas e médias empresas nos casos de maior êxito.

No caso da Petrobrás, os levantamentos realizados nas empresas vinculadas ao Prominp demonstram efeitos significativos na ampliação da produção, capacitação tecnológica e geração de empregos.

Assim como seus pares, a Petrobrás vem se tornando um ponto de suporte para o sistema de pequenas e médias empresas brasileiras, que, vale lembrar, respondem por cerca de 60% do emprego nas regiões metropolitanas e por cerca de 25% do PIB, e são geralmente o elo mais fraco da indústria nacional.

Notas

(1)SARTI, F.; HIRATUKA, C. & ROCHA, M.A. Desenvolvimento tecnológico e competitivo dos fornecedores da Petrobrás no setor de máquinas e equipamentos: oportunidades e desafios. In: NEGRI, J. A. (org.). Poder de Compra da Petrobrás: Impactos econômicos nos seus fornecedores. Brasília: Ipea, vol. 2, 2011.

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5 comentários

  1. No após guerra paises com

    No após guerra paises com maior consistência histórica aproveitaram suas habilidades para colocar suas economias funcionando com o melhor resultado possivel. Nesta época estatais de petroleo proliferaram mesmo em paises liberais . A iniciativa privada não  resistiria  competir com una oligarquia enraizada como as sete irmãs. Pela. Mesma razão aqui surgiu a Petrobras, certamente a recepitividade das europeias foi melhor e sua evolução  facilitada . Malgrado a  crítica midiatica, a Petrobras continua sendo a produtora da quase totalidade de nosso petróleo e hidrocarbonetos . Sem ela provavelmente nossa economia nunca teria superado de nossos irmãos latinos . Hoje com a descoberta do pré-sal somos detentores de reservas das mais importantes do momento. A  Petrobras continua como maior motor de pesqisa e desenvolvimento com apoio a nossas atividades industriais e academicas, que nos colocam na vanguarda da produção submarina

  2. [  O fato histórico é que as

    [  O fato histórico é que as grandes empresas públicas são talvez as estruturas de maior relevância no planejamento, gestão e execução das políticas industriais dos países desenvolvidos durante a criação e consolidação de importante setores da terceira revolução industrial   ]   empresa publcia nunca foi criada nada mais como um antro para roubalheira e nunca ajudou em nada além disso.  De fato, se fosse para fazer alguma coisa séria, seria feito por iniciativa privada

  3. Vamos reestatizar a Vale

    Em virtude do desastre ambiental de Mariana, deveríamos reestatizar a Vale.

    Cobrar R$ 250 milhões de multa a uma empresa subsidiária é muito pouco, é um insulto.

    Esse desastre ocorreu porque a empresa foi gananciosa demais, como sempre ocorre no universo privado.

    E a tragédia de Mariana serve de aviso para o que ocorreria se a Petrobrás e o pré-sal fossem privatizados: exploração super-predatória até o eventual grande vazamento de petróleo que causaria um desastre ecológico nas praias de toda a região sudeste do Brasil.

    A reestatização da Vale deveria ser feita a preços ínfimos, não somente como punição pela tragédia de Mariana, como também por causa do valor baixíssimo com que a Vale foi privatizada no governo FHC.

  4. Vamos reestatizar a Vale

    Em virtude do desastre ambiental de Mariana, deveríamos reestatizar a Vale.

    Cobrar R$ 250 milhões de multa a uma empresa subsidiária é muito pouco, é um insulto.

    Esse desastre ocorreu porque a empresa foi gananciosa demais, como sempre ocorre no universo privado.

    E a tragédia de Mariana serve de aviso para o que ocorreria se a Petrobrás e o pré-sal fossem privatizados: exploração super-predatória até o eventual grande vazamento de petróleo que causaria um desastre ecológico nas praias de toda a região sudeste do Brasil.

    A reestatização da Vale deveria ser feita a preços ínfimos, não somente como punição pela tragédia de Mariana, como também por causa do valor baixíssimo com que a Vale foi privatizada no governo FHC.

  5. Seria bom se o Brasil voltasse a reinvestir

    O site do Viomundo trouxe o caso dos estragos causados pela mineradora em MG ( http://www.viomundo.com.br/denuncias/caos-em-governador-valadares-demonstra-que-plano-de-emergencia-era-para-ingles-ver-e-que-estado-brasileiro-foi-submetido-ao-interesse-das-mineradoras.html ).

    É triste constatar que todas as empresas que no passado foram Estatais ( Vale, Cosipa, Sabesp, Petrobrás ) hoje estão privatizadas ou semi-privatizadas, e o resultado de tudo isso é que o Lucro sai para o Acionista estrangeiro, e a Conta e o Passivo ( sucateamento de equipamentos, negligência com fatores de segurança, prioridade em produção extrativa à de semi-elaborados e manufaturados ).

    Dom Pedro, Mauá, Vargas , apesar de controversos, eram nacionalistas e industrialistas. Todos foram sucedidos por Elites “Liberais” que basicamente e de maneira recorrente voltavam a posicionar o Brasil como Colônia de Exploração.

    O que vemos hoje, só para um exemplo, no setor de indústria de base de metalurgia, a Siderurgia privatizada está em rítmo de desligamento ( ex. Usiminas/ex-Cosipa de Cubatão ) e a de Alumínio, de 6 empresas hoje somente 2 sobraram e ainda estão em franco desligamento ), entretanto, as atividades de Mineração destes mesmos setores continuam em franca expansão.

    O que não se divulga nestes Governos Lula/Dilma é a construção de uma infraestrutura forte ( Belomonte, parques eólicos, transportes públicos, Educação, mais médicos … ) e principalmente no N/NE e o reflexo deste desenvolvimento não reflete no Sudeste/Sul que sofre com o desemprego nas indústrias, fruto do sucateamento das antigas estatais de manufatura.

    Vejo que estamos numa fase nacionalista e que se nada for feito ( no sentido de conscientizar a população ) certamente teremos um novo Golpe efetivado para mais uma vez sermos Colônia de Exploração por mais uns 60-70 anos.

    Se os Colonizadores voltarem com força, então teremos “60 anos” de desenvolvimento de uma pequena elite, com infraestrutura pronta e mão de obra qualificada a preço ínfimo. Esse é o espírito da Coxinha.

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