Pátria minha, por Vinicius de Moraes

Nesses tempos em que o oportunismo se alastra, que a falta de escrúpulos se torna dominante, em que os valores nacionais se diluem em práticas criminosas, em um processo diuturno de desmoralização, vergonha, mais do que nunca é fundamental reconquistar o conceito de pátria. Não a prática do ódio, estimulando passeatas furiosas, seres ululantes, mas a pátria amada, amiga, conciliador.

É esse o sentido do poema “Pátria Minha”, de Vinicius de Moraes que o Luiz Mattos colocar em um comentário no post que falava da miséria moral nacional.

É hora de tirar essa bandeira das mãos dos milicianos, dos oportunistas, dos cultivadores do ódio e da intolerância.

Por Luiz Mattos

comentário no post Empresa de eventos de Deltan poderia ser cliente da fundação de R$ 2,5 bi, por Luis Nassif

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

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Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

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Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Morais.

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3 comentários

  1. Sobre Vinícius, Toquinho, patriotismo e piadas.
    Vendo hoje um comentário na TV247, alguém criticou as posições políticas e comentários do Toquinho dizendo que ele, apesar da convivência, não aprendeu nada com o Vinícius.
    Associando esse post ao comentarista da TV247 veio-me a lembrança de uma velha piada que dizia que ” Vinicius de Moraes morreu cedo porque tropeçou no Toquinho.”

  2. Qual a certeza da impunidade dessa turma da lava jato? Eles viram desde o início da força tarefa diversas omissões das instituições (TRF 4, STJ, CNJ, CNMP, PGR, STF) sobre seus abusos. Pensaram, “quem tem a Globo tem tudo”. Doravante, os reis estão nus, abusos com clareza solar de que na verdade são crimes. As nossas instituições estão agora num exame de espirometria. Vamos medir a sua capacidade pulmonar depois do sopro do Intercept.

  3. A melhor maneira de evitar a subutilização da nossa bandeira é a oposição também utilizá-la nos comícios e nas manifestações.

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