Perdendo seu pão, por Daniel Afonso da Silva

Perdendo seu pão

por Daniel Afonso da Silva

…“temos que definir se queremos salvar nossa pele, nossos cargos ou nosso projeto”, arguia o presidente Lula, no Congresso do PT de 2015 em Salvador.

Dois anos depois, os caminhos do “projeto”, encarnados na participação do próprio Lula no pleito de 2018, seguem incertos. Os “cargos” minguaram todos após o impeachment da presidente Dilma Rousseff e as derrotas nas eleições municipais de 2016. E o salvamento de “pele” acabou no pão de cada dia de desesperados, dos quais Antonio Palocci virou síntese.

A se fiar pelo noticiário recente, o ex-ministro dos governos petistas intenta avançar delação premiada com a promessa entregar a suposta “conexão Trípoli” nas eleições de 2002. Trípoli, capital da Líbia, espaço vital do coronel Kadafi de 1969 a 2011.

Vale lembrar que fora praxe o regime líbio, sob o coronel, alocar recursos no exterior. Estima-se que nesse período tenham sido investidos mais de 600 bilhões de dólares nos quatro cantos do mundo.

Relatórios da Lybian investiment authority informam que a maior parte, cerca de 50%, desses recursos em espécie, ouro e/ou ações irrigou as boas relações da Líbia com setores públicos e privados europeus e norte-americanos. Outra parte serviu para compra de minas, exploração hoteleira e investimentos em infra-estrutura na África e no Oriente Médio. Mas nada explícito consta sobre a América do Sul. Menos ainda sobre o Brasil.

Em contraponto, coevos do coronel reconhecem que ele apreciava “frutificar” os contatos com gracejos em dinheiro. Segundo seus relatos, era frequente que autoridades internacionais, especialmente africanas, em passagem por Trípoli, recebessem malas abarrotadas de dólares ou euros para meditarem melhor. Daí as suspeitas de financiamento líbio de campanhas eleitorais no exterior. O caso mais eloquente repousa sobre o presidente Nicolas Sarkozy (2007-2012).

No dia 16 de março de 2011, dias antes da intervenção internacional liderada pela França contra o regime líbio, Saif Al-Gaddafi, filho do coronel, afirmou, peremptoriamente, que a campanha presidencial do francês havia recebido ao menos cinco milhões de dólares da Líbia¹. E, diante de sua “traição”, seria consequente que esses valores fossem devolvidos ao povo líbio.

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Desde então que a justiça francesa investiga. O presidente Sarkozy tudo nega. E a imprensa tudo acusa – os jornalistas Fabrice Arfi e Karl Larske vêm de publicar uma formidável peça de convicção em “Avec les compliments du guide: Sarkozy-Kadhafi, l’histoire secrete” (Fayard, 2017). Mas segue mister tudo provar.

Como o estado líbio foi esmagado pela intervenção de 2011, ficou remota a possibilidade de algo ser provado nesse quesito. O que já era nebuloso ficou ininteligível.

Antonio Palocci parece apostar nessa névoa. E, com isso, ele pretende salvar sua “pele”. Entretanto, corre o risco de perder as migalhas de pão – leia-se credibilidade – que ainda lhe restam.

¹ https://www.youtube.com/watch?v=UZnbCbCcEEg
 

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3 comentários

  1. COMO DIRIA PN

    Como diria o já saudoso Paulo Nogueira, este texto ajuda a jogar escuridão onde havia sombras. O encerramento com os dois últmos parágrafos, então é de uma clareza (?) ímpar:

    “Como o estado líbio foi esmagado pela intervenção de 2011, ficou remota a possibilidade de algo ser provado nesse quesito. O que já era nebuloso ficou ininteligível.

    Antonio Palocci parece apostar nessa névoa. E, com isso, ele pretende salvar sua “pele”. Entretanto, corre o risco de perder as migalhas de pão – leia-se credibilidade – que ainda lhe restam.”

    De acordo como o novo Normal da do Direito Brasileiro – na dúvida, condene-se o réu…

     

  2. Um texto inútil
    Um texto inútil, principalmente pelo que ele próprio sugere: nada mais existe do que se chamava Líbia. Nada mais pode ser provado, portanto não há o que ser discutido e: Lula será considerado culpado. Quanto às alusões ao projeto petista, considerações de tom malicioso apenas.

  3. Não Bastam, o Circo Jurídico-Midiático e o Ciro político?

    GGN, se a Veja não conseguiu repercussão com esse lixo para atingir Lula nem mesmo junto a turma do millenium, que ‘merda frita’ é essa insinuação covarde, entrelinhas, com Sarkozy e Palocci, sobrelinhas, nesse momento e justo aqui no ‘blog do Nassif’?

    Tenham a santa paciência!

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