Perspectivas para o horizonte, por Rodrigo Medeiros

América Latina vive clima de convulsão social, com grandes e complexos desafios. Aprofundar reformas de caráter neoliberal não parece um caminho sensato a ser seguido

Pedro Ugarte/AFP

Após o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, no dia dois de janeiro, é possível dizer que as recentes perspectivas otimistas ventiladas pelo apoio organizado ao modelo neoliberal aprofundado que se pretende efetivar no Brasil serão brevemente revistas para baixo. Esse processo de revisão anual de expectativas de desempenho econômico para baixo tem ocorrido desde o processo de impeachment, em 2016. Não surpreenderia, portanto, que ele se mantivesse neste ano.

Do ponto de vista dos efeitos regionais do atentado que matou o general iraniano, pode-se dizer que provavelmente ocorrerá a elevação das pressões inflacionárias na América Latina. Na medida em que o Brasil, por sua vez, acompanhe os aumentos dos preços do barril de petróleo no mercado mundial, tal fato poderá impactar negativamente na economia pelas vias da elevação dos custos de produção de bens e serviços, dificultando reduções expressivas no elevado desemprego e na precarização laboral ainda em curso. O Banco Central elevaria a taxa básica de juros para conter pressões inflacionárias, inclusive de repasses cambiais.

Em um recente artigo publicado no site Project Syndicate, no dia três de janeiro, o professor José Antonio Ocampo, da Universidade de Columbia (EUA), afirma que “os problemas econômicos da América Latina começaram muito antes da atual onda de instabilidade regional. A América Latina alcançou um crescimento mais rápido – uma taxa média anual de 5,5% – nos 30 anos que antecederam a década perdida de 1980, quando a industrialização liderada pelo Estado estava na ordem do dia, do que nos 30 anos que se seguiram”. Segundo Ocampo, “a ortodoxia econômica adotada há três décadas ridicularizou a abordagem liderada pelo Estado e instou os países latino-americanos a empreender reformas de mercado, que, até o momento, não cumpriram sua promessa”.

A desarticulação de suas políticas industriais após as crises das dívidas externas, os efeitos da “doença holandesa” do superciclo dos preços das commodities após 2003 e a crescente concorrência global da China levaram à desindustrialização prematura da região. Essa desindustrialização prematura, por sua vez, afetou o potencial de crescimento regional. Essa desindustrialização prematura faz com que seja mais difícil para a região escapar da “armadilha de renda média”, um ambiente no qual convivem desigualdades sociais extremas e riscos à democracia. De acordo com Ocampo, “embora a demanda chinesa por exportações de commodities da América Latina tenha crescido na última década, ela ainda é insuficiente para compensar as perdas nas manufaturas”.

Como recomendação central, José Antonio Ocampo, ex-ministro das Finanças da Colômbia, sugere que os governos da região promovam um processo de reindustrialização, buscando inclusive uma maior integração econômica regional, apoiando o comércio intrarregional de bens manufaturados, e investindo em ciência e tecnologia. As sociedades na América Latina, que vivem um clima de convulsão social, enfrentam grandes e complexos desafios. Nesse sentido, aprofundar reformas de caráter neoliberal não parece um caminho sensato a ser seguido.

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