Petrobras 2017: o ano em que a verdade é aceita como evidente por si própria

Por Felipe Coutinho

“Caiu a ficha! ”. Nos telefones públicos, orelhões, quando se
completava a ligação a ficha caia. A expressão quer dizer que esse é o
momento em que se passa entender alguma questão. Esse é o fato
marcante para a Petrobrás em 2017. A verdade passou a ser aceita por si
própria, sem ser ridicularizada ou rejeitada com violência. A maioria dos
petroleiros e dos brasileiros percebeu a “Construção da Ignorância sobre a
Petrobrás”. A partir de agora é evidente que a Petrobrás não está (e nunca
esteve) quebrada, que não precisa vender seus ativos para reduzir a dívida,
que a privatização prejudica o fluxo de caixa e compromete o futuro que já
se torna presente. (Coutinho, A construção da ignorancia sobre a Petrobrás,
2017) (AEPET, Existe alternativa para reduzir a dívida da Petrobrás sem
vender seus ativos, 2017)

“Toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é
ridicularizada. No segundo, é rejeitada com violência. No
terceiro, é aceita como evidente por si própria. ”
Arthur Schopenhauer

Agora está na cara “O mito da Petrobrás quebrada”, é óbvio que
houve uma propaganda de choque e terror, a serviço das multinacionais do
petróleo e dos agentes do sistema financeiro que as controlam. Estão
desmascarados os executivos que giram através de portas giratórias entre
a administração pública e corporações privadas. Eles são os modernos
feitores e capitães do mato, a serviço do novo ciclo colonial da exportação
de petróleo cru, que só podem debater em ambientes controlados do cartel
midiático. Interventores e porta vozes do capital internacionalse entendem
bem. Antes desfilavam seus egos como os salvadores da pátria, agora se
escondem e só oferecem entrevistas para microfones amigos. (Oliveira &
Coutinho, O Mito da “Petrobras quebrada”, 2017) (AEPET, Editorial: Portas
giratórias, 2017)

Alguns leitores cuidadosos podem agora se perguntar, será? Será que
realmente a maioria dos petroleiros percebeu? Será que os brasileiros
tomaram consciência do que se passa com a Petrobrás e o petróleo
brasileiro?

Penso que sim, vamos as evidências.

Com relação a percepção dos petroleiros podemos recorrer a
pesquisa de ambiência realizada pela Petrobrás. A última pesquisa foi feita
em janeiro/17. Pedro Parente e seus executivos, confiantes, incluíram duas
perguntas inéditas:

“71 – O Plano deNegócios e Gestão 2017-2021 está na direção certa.

Resultado: 37% favoráveis

72 – Confio nas decisões tomadas pela Direção Superior diante
dos desafios da companhia.

Resultado: 31% favoráveis” (Petrobras, 2017)

O percentual de respondentes foi muito baixo, apenas 64% do total.
Apenas 31% dos 64% que responderam, em janeiro de 2017,
confiavam nas decisões tomadas pela “Direção Superior”. Ou seja, menos
de 20%, um em cada cinco, responderam favoravelmente e confiantes nas
decisões do presidente, conselheiros e diretores da Petrobrás. Veja bem, a
pesquisa foi realizada em janeiro de 2017. Ao longo do ano, a confiança
certamente piorou diante do resultado das privatizações da malha de
gasodutos (NTS), do campo de Carcará etc. (AEPET, NTS: crônica de um
prejuízo anunciado, 2017) (AEPET, Voto AGO-AGE da Petrobras em
15/12/2017, 2017)

Em dezembro de 2017, a “Direção Superior” anunciou que não
haverá pesquisa de ambiência em janeiro de 2018. Para um bom
entendedor… essa decisão basta, para afirmar que a verdade sobre a
Petrobrás foi revelada e já é auto evidente para os petroleiros em 2017.

E os brasileiros? Será que perceberam que o impeachment foi um
golpe para “estancar a sangria da lava jato… com o Supremo, com tudo”?

Como dito pelo senador Jucá. Notaram que tomaram o poder para
aumentar a exploração dos trabalhadores e penalizar aposentados e
estudantes, com as reformas trabalhistas e da previdência, em benefício de
megaempresários e banqueiros? Entenderam que serviu para o capital
internacional se apropriar dos ativos da Petrobrás e do petróleo brasileiro?
Não dispomos de pesquisas recentes que tratam de todas as
questões. No entanto, podemos recorrer a pesquisa do Ibope, realizada em
novembro/17, para aferir a percepção dos brasileiros. Perguntados se o
impeachment significou melhora ou piora em relação ao governo Dilma,
apenas 6% responderam que foi uma “melhora”, contra 52% que afirmaram
que foi uma “piora”. (Rosário, 2017)

A banda do Titanic não para

Enquanto a maioria dos petroleiros e dos brasileiros toma
consciência, Temer e Parente perseguem seus objetivos.

A meta de redução do endividamento da Petrobrás é temerária. Não
é um indicador estratégico recomendável para uma empresa com potencial
de crescimento, como é o caso da Petrobrás. O indicador e a meta são
arbitrários, assim como a antecipação do seu alcance de 2020 para 2018. A
redução da alavancagem é desnecessária, mas poderia ser alcançada sem
vender ativos até 2021. (Oliveira & Coutinho, A principal meta da Petrobras,
na gestão Parente, é temerária, 2017)

Insistir na atual estratégia de focar na produção de petróleo cru e
privatizar os ativos que aumentam seu valor é confrontar a realidade. Mais
sensato é mudar a estratégia, agregar valor ao petróleo, interromper a
venda de ativos e preservar a atuação corporativa integrada, o que garante
a geração de resultados diante da variação dos preços do petróleo. Enfim,
é preciso entender a realidade, mudar o plano estratégico e parar de
enfrentar desnecessários desafios auto impostos. Ao invés de errar no
planejamento, culpar a realidade e insistir no erro esperando que a
realidade mude, é melhor compreender a realidade e mudar o rumo
estratégico. (Oliveira & Coutinho, A realidade desafia a estratégia atual da
Petrobras, 2017)

Desde que Temer ascendeu ao poder, o governo assumiu a agenda
das multinacionais do petróleo e de seus controladores. Trata-se da agenda
do sistema financeiro internacional e dos países estrangeiros que
controlam as multinacionais, privadas e estatais.

Mas o que exatamente desejam as multinacionais e seus
controladores? Querem a propriedade do petróleo brasileiro, ao menor
custo possível, com total liberdade para exportá-lo. Querem acesso
privilegiado ao mercado brasileiro. Querem comprar os ativos da Petrobrás
a preço de banana. Querem garantir a segurança energética dos seus
países, no caso das estatais. Querem maximizar o lucro no curto prazo, no
caso das privadas. (Coutinho, Temer assume agenda das multinacionais do
petróleo e desgraça o Brasil, 2017)

A Petrobrás adotou nova política de preços dos combustíveis, em
outubro de 2016. Desde então, foram praticados preços mais altos que
viabilizaram a importação por concorrentes. A estatal perdeu mercado e a
ociosidade de suas refinarias chegou a um quarto da capacidade instalada.
A exportação de petróleo cru disparou, enquanto a importação de
derivados bateu recordes. A importação de diesel se multiplicou por 1,8
desde 2015, dos EUA por 3,6. O diesel importado dos EUA que em 2015
respondia por 41% do total, em 2017 deve chegar a 82% do total importado
pelo Brasil. (AEPET, Política de preços de Temer e Parente é “America First!
”, 2017)

Soberania e desenvolvimento

O petróleo é uma mercadoria especial, na medida em que não tem
substitutos em equivalente qualidade e quantidade. Sua elevada densidade
energética e a riqueza de sua composição, em orgânicos dificilmente
encontrados na natureza, conferem vantagem econômica e militar àqueles
que o possuem. (Coutinho, A energia é o meio e a Petrobras é a chave para
o desenvolvimento soberano do Brasil, 2017)

Não há substituto para o petróleo barato de se produzir, mas ele
acabou e a humanidade vive as consequências econômicas e sociais deste
fato. Informações da indústria mundial, o investimento em Exploração e
Produção (E&P) e a produção agregada desde 1985 evidenciam o aumento
do custo médio de se encontrar e produzir cada barril adicional de petróleo,
com severas consequências para a indústria e a sociedade. (Coutinho, O fim
do petróleo barato e do mundo que conhecemos, 2017)

O desenvolvimento do Brasil depende da utilização dos nossos
recursos naturais em benefício da maioria dos brasileiros. Temos que
superar a sina colonial e condenar as elites que servem aos interesses
estrangeiros, em prejuízo da maioria. Os antigos senhores de engenho e
seus feitores, são hoje os 0,01%, os rentistas, os executivos vassalos das
corporações multinacionais e, no topo da cadeia parasitária, os banqueiros.
(Coutinho, A energia e o desenvolvimento soberano em 10 lições, 2017)
A tomada de consciência é condição necessária, porém insuficiente,
para que a maioria dos brasileiros se unam e se organizem para tomar a
direção da História e assim promover as mudanças desejadas e urgentes.
* Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

http://www.aepet.org.br/

https://felipecoutinho21.wordpress.com/

Referências

AEPET. (2017). Editorial: Portas giratórias. Fonte:
http://www.aepet.org.br/w3/index.php/artigos/noticias-em-destaque/item/948-
editorial-portas-giratorias
AEPET. (2017). Existe alternativa para reduzir a dívida da Petrobrás sem vender seus ativos.
Fonte: http://www.aepet.org.br/noticias/pagina/13836/Existe-alternativa-parareduzir-a-dvida-da-Petrobrs-sem-vender-seus-ativos
AEPET. (2017). NTS: crônica de um prejuízo anunciado. Fonte:
http://www.aepet.org.br/w3/index.php/artigos/item/720-nts-cronica-de-um-prejuizoanunciado
AEPET. (2017). Política de preços de Temer e Parente é “America First! ”. Fonte:
https://felipecoutinho21.wordpress.com/2017/12/15/politica-de-precos-de-temer-eparente-e-america-first/
AEPET. (2017). Voto AGO-AGE da Petrobras em 15/12/2017. Fonte:
http://www.aepet.org.br/w3/index.php/2017-03-29-20-29-03/votos-daaepet/item/1151-desinvestimento-ja-causa-perdas-de-r-200-bilhoes-a-petrobras
Coutinho, F. (2017). A construção da ignorancia sobre a Petrobrás. Fonte:
https://felipecoutinho21.files.wordpress.com/2017/02/a-construcao-da-ignoranciasobre-a-petrobras_por-felipe-fev17.pdf
Coutinho, F. (2017). A energia e o desenvolvimento soberano em 10 lições. Fonte:
http://www.aepet.org.br/w3/index.php/artigos/noticias-em-destaque/item/641-aenergia-e-o-desenvolvimento-soberano-em-10-licoes
Coutinho, F. (2017). A energia é o meio e a Petrobras é a chave para o desenvolvimento
soberano do Brasil. Fonte: Blog Ocupar a Petrobras:
https://felipecoutinho21.files.wordpress.com/2017/07/a-energia-c3a9-o-meio-e-apetrobras-a-chave_rev0.pdf
Coutinho, F. (2017). O fim do petróleo barato e do mundo que conhecemos. Fonte:
https://felipecoutinho21.files.wordpress.com/2017/09/o-fim-do-petrc3b3leo-baratoe-o-novo-mundo.pdf
Coutinho, F. (2017). Temer assume agenda das multinacionais do petróleo e desgraça o Brasil.
Fonte: https://felipecoutinho21.wordpress.com/2017/11/02/temer-assume-agendadas-multinacionais-do-petroleo-e-desgraca-o-brasil/
Oliveira, C., & Coutinho, F. (2017). A principal meta da Petrobras, na gestão Parente, é
temerária. Fonte: Blog Ocupar a Petrobras:
https://felipecoutinho21.files.wordpress.com/2017/06/a-principal-meta-da-petrobrase-temeraria_revfinal.pdf
Oliveira, C., & Coutinho, F. (2017). A realidade desafia a estratégia atual da Petrobras. Fonte:
https://felipecoutinho21.wordpress.com/2017/07/23/a-realidade-desafia-aestrategia-atual-da-petrobras/
Oliveira, C., & Coutinho, F. (2017). O Mito da “Petrobras quebrada”. Fonte: Blog Ocupar a
Petrobras: https://felipecoutinho21.files.wordpress.com/2017/05/o-mito-dapetrobras-quebrada_revfinal.pdf
Petrobras. (2017). Pesquisa de ambiência de janeiro de 2017.
Rosário, M. d. (2017). Pesquisa Ibope confirma que impeachment foi golpe. Fonte:
https://www.ocafezinho.com/2017/11/15/pesquisa-ibope-confirma-queimpeachment-foi-golpe/

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