Poéticas Perversas (Nós avisamos), por Márcia Denser

Cantei esta bola – da maldade absoluta do narrador – há 40 anos, Relatório Final foi escrito em 1978, e Marcelo Mirisola há 20. Bem. Nós avisamos. Previmos Jair B. na formação da Consciência Coletiva.

Poéticas Perversas (Nós avisamos)

por Márcia Denser

Cantei esta bola – da maldade absoluta do narrador – há 40 anos, Relatório Final foi escrito em 1978, e Marcelo Mirisola há 20. Bem. Nós avisamos. Previmos Jair B. na formação da Consciência Coletiva.

O que pretendo nesse texto é proceder a um exame crítico deste fenômeno estético que defino como Poéticas Perversas, presente em textos pós-modernos de autores brasileiros de Rubem Fonseca[i], Ignácio de Loyola Brandão[ii], Márcia Denser[iii], Marcelo Mirisola[iv]  e André Santanna[v]. [1]

Como escritores funcionamos como porta-vozes não só da Consciência como do Inconsciente Coletivos e, através das nossas obras manifestamos, há mais cinquenta anos, a existência e o funcionamento de um “novo status nacional e universal”, tocados que somos pela percepção das profundas correntes que moldam o Sentimento do Mundo.

De forma que, como escritores, cumprimos nossa função, embora uma triste marca da atualidade seja o desaparecimento do espírito crítico – e do próprio crítico – da cena pública em quase todas as áreas do conhecimento, do pensamento e das artes, e desaparecendo a ponte entre leitor e obra, a mensagem não chega ao seu destino.

Nesses textos, a crueldade se expressa de forma extremamente eficiente muito mais pelo trabalho de linguagem do quê pela temática, uma vez que é a linguagem que dá voz ao que estou definindo aqui como Consciência Perversa Coletiva, que levou a um novo patamar a Má Consciência Coletiva.

Eis porque, repito, nós avisamos. Já estava tudo lá.

 

A Consciência Envergonhada

A Má Consciência Coletiva, que predominou até os Anos 60, é a consciência envergonhada da injustiça e desigualdade em relação ao Outro, objeto do discurso, algo extensivo aos pobres, oprimidos, minorias de todos os níveis, consciência que coexistia com o pensamento utópico, as ideologias de esquerda e as lutas de libertação nacional. A literatura e a arte produzidas sob tais condições são definidas como modernas, uma vez que os postulados do  Modernismo, cujas obras hoje são canônicas, orientam sua criação.

Numa torção de 180 graus, em menos de vinte anos inverte-se o chamado Espírito de Época (Zeitgeist) e este se traduz pela chamada Consciência Perversa Coletiva – anti-solidária, fria, cruel, não só indiferente ao sofrimento alheio mas objetivando o mal do Outro, objeto do discurso (querendo mais é que o outro se foda), algo extensivo aos pobres, oprimidos, minorias de todos os níveis, consciência que representa o Pensamento Único Neoliberal ou Neoconservador que reduz Arte e Cultura a seu veículo ideológico. A literatura e a arte produzidas sob tais condições definem-se como pós-modernas.

Mas, ao contrário do Modernismo, “o pós-modernismo precisa ser entendido não como um estilo, mas como uma dominante cultural, uma posição política, implícita ou explícita, com respeito à natureza do capitalismo multinacional em nossos dias”.[2]

Esta Consciência Perversa Coletiva, expressa pela literatura nos exemplos apresentados, é uma das marcas da sociedade na nossa contemporaneidade.

Porque a marca da sociedade continua sendo a existência da divisão social, da divisão de classes, e esta institui a divisão cultural, donde a idéia de “cultura dominante” e “cultura dominada”.

Graças às análises da ideologia, o lugar da “cultura dominante” é bastante claro: é dali que se legitima o exercício da exploração econômica, da dominação política e da exclusão social, mas essa dominação tende a ser ocultada, e é nesse sentido que opera a cultura de massa.

 

A Cultura como Ideologia

O contraste com a década de 60 é total: há sessenta anos a guerra ideológica entre as duas potências gerou idéias para abolir a pobreza do mundo e reabrigar os excluídos do sistema. E hoje, o que temos? Um Pensamento Único e Um Favelão Estratosférico no lugar do que chamávamos mundo; Emprego e Futuro Nenhum, aliás, atualmente, o Futuro seria o lugar mais perigoso do planeta, melhor não aparecer por lá em hipótese alguma.

A terra prometida da década de 60 nunca esteve nos mapas neoliberais do futuro e o último sopro de idealismo desenvolvimentista havia sido reduzido às Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM) das Nações Unidos – mais conhecidas por Metas de Desenvolvimento Minimalista.

Voltando: nosso presente histórico foi caracterizado pela fusão de cultura e economia. A cultura (e a arte) não seria mais aquele lugar onde negamos ou nos refugiamos das duras realidades da luta pela sobrevivência, isto é, do capital, mas sua mais evidente expressão.

Por exemplo, o século XIX utilizou a beleza como arma política contra o materialismo tacanho da sociedade burguesa, dramatizando seu poder negativo para condenar o comércio e o dinheiro e gerar um desejo por transformações pessoais e sociais no coração de uma sociedade industrial horrível. A arte era um espaço para se projetar novos e melhores mundos.

E só o fato de imaginá-los tornava-os potencialmente possíveis. Por que então hoje não podemos vislumbrar na cultura tais funções políticas genuínas? Por que este vazio, este silêncio, este temor inconfessável, estas más intenções declaradas (ou não), essa atmosfera castradora e broxante no lugar da arte?

Por que arte e cultura perderam o prestígio que gozavam anteriormente? Por que apenas restaram umas tantas manifestações/ocupações/instalações, o caralho, assépticas, anódinas, estúpidas?E dá pra se fazer algo melhor, ou algo realmente bom, genuíno, poderoso, sei lá, sob o império da grana?

Para Jameson, esta é uma questão que nos permite medir a distância entre os efeitos de uma mercantilização incompleta e o comércio visto numa escala global e tecnológica, na qual os últimos esconderijos que restavam – o inconsciente e a natureza, ou a produção cultural e estética e a agricultura – foram banidos posto que assimilados pela produção de mercadorias.

Numa era anterior, a arte era uma região além da mercantilização na qual a liberdade estava disponível, até na Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer ainda haviam zonas da arte fora da cultura comercial (que para eles seria essencialmente Hollywood).

O que definiria a cultura (e a arte) atual seria a supressão de tudo que estivesse fora da cultura comercial (porque fora da cultura comercial nada existiria), a absorção de todas as formas de arte, alta e baixa, pelo processo de produção de imagens.

Nesse esquema, que coagiu “o espetáculo como forma de resistência” para transformá-lo “em forma de controle social”, a cultura é o grande negócio.

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De forma que hoje a arte já não é espaço utópico, tampouco refúgio ou contestação ou transgressão de coisa alguma. Interpenetrada pela lógica do lucro deixou de ser arte. O que é isso então? Bom, isso que chamamos cultura (ou arte, sei lá) passou a ser o veículo ideológico do Pensamento Único.

E já que se trata de ideologia (ou interpretação do real difundida pelo poderoso da vez para continuar no poder) – aliás, mais uma – não é irreversível tampouco inexorável.

E aí está a Decadência Econômica Norte-Americana, a Decadência do Império – agora definitiva e sem reversão – como um fato a comprovar nossas palavras e redefinir por si própria como ilógica e irracional a “lógica do pensamento único”.

A cultura pós-moderna global é a expressão superestrutural da era de dominação militar e econômica dos Estados Unidos sobre o resto do mundo (e sua decadência final), e nesse sentido o avesso da cultura é sangue, tortura, morte e terror.

 

O inferno são os outros

Os textos do modernismo promovem uma “aproximação simpática” com o Outro, fazendo ou legitimando o discurso do oprimido, do excluído, daquele que não tem voz – empregadas domésticas, trabalhadores rurais, jagunços ­ – deixando-os falar de seus sonhos, sentimentos, razões, esperanças, modos de vida, costumes, crenças. Esta é uma aproximação pelo lado luminoso, positivo, sobretudo porque corresponde a uma atitude e visão de mundo ideológicas representativas do Modernismo. Aqui estes não serão abordados, apenas marcados como referência, mas basta lembrar todo o Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, o próprio Drummond prosador.

Na década de 70, a crise generalizada no mundo das artes, que corresponde ao fim da busca da originalidade do primeiro modernismo, alia-se à perseguição das ideologias de esquerda, sobretudo do “nacionalismo desenvolvimentista” da Cepal, Celso Furtado à frente, – o verdadeiro alvo das perversas políticas neoliberais da Escola de Chicago, introduzidas em conluio com as elites locais a fim de promover,da forma mais violenta possível, o segundo saque, uma espécie de segunda colonização do Cone Sul, através da desregulamentação e abertura de suas economias, da introdução das políticas de livre-mercado que implicam na destruição do Estado e consequentemente  da Alma Nacional, da qual os escritores, cujo instrumento é a língua-mãe, são os porta-vozes desde tempos imemoriais, seja para o bem, seja para o mal.

Por essa época surgem os primeiros grandes textos pós-modernos cuja característica mais significativa é que essa abordagem do Outro se inverte, torna-se uma “aproximação negativa”.

Ao assumir o discurso do Outro, o escritor representa-o pelo lado obscuro, a sombra, a imagem em preto e branco do pobre/oprimido/marginalizado/excluído, que é ignorante, mesquinho, cruel, insensível, grosseiro, burro, canalha, sem contemplação para com os elementos da classe dominante (a qual pertence o escritor), ou seja, para com aqueles que o excluem e mantém sua condição miserável, a exemplo dos marginais em Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca (reportando-me ao subtítulo, o sartreano “o inferno são os outros”, é bom lembrar que a acumulação de leituras de Zé Rubem, na época da produção desta obra, coexistia com a produção dos existencialistas tendo Jean-Paul Sartre como ideólogo e paradigma maior):

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(cena durante o assalto)

Seu Maurício quer fazer o favor de chegar perto da parede?

Ele encostou na parede.

Encostado não, uns dois metros de distância, mais um pouquinho para cá, muito obrigado.

Atirei bem no meio do peito, o impacto jogou o cara contra a parede, mas ele foi escorregando lentamente, ficou sentado no chão, no peito tinha um buraco onde cabia um panetone.

Viu? Não grudou na parede porra nenhuma.

Tem que ser numa porta, parede não dá, disse Zequinha.

Você aí, levante-se, disse para um magrinho de cabelos compridos.

Por favor, o sujeito disse bem baixinho.

Fica de costas contra a porta. Vê como esse vai grudar, Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado.

Eu não disse? Zequinha esfregou o ombro dolorido, esse canhão é foda.

(Rubem Fonseca,Feliz Ano Novo)

No inverso do discurso utópico de Rosa ou Drummond, onde o mundo ganha sentido e beleza, esperança e prazer transcendentes, no texto de Rubem Fonseca todas as coisas são esvaziadas de beleza, sentido, esperança e prazer, revelando um mundo sem sentido, sem propósito e sem conteúdo – uma morte do mundo da essência, na qual resta apenas a funcionalidade impessoal da morte.

A “aproximação negativa” do Outro é índice do esmaecimento dos afetos na cultura pós-moderna. Feliz Ano Novo é a história de um crime (ou vários) contada do ponto de vista dos criminosos – daqueles que não escrevem a História. Agressor ou agredido, o cotidiano é marcado pelas tensões geradas a partir das relações de poder.

A partir do final de 80, com o colapso da União Soviética e das guerras de “libertação nacional”, a dissolução do nacional-desenvolvimentismo (no Brasil), a difusão do neoliberalismo combinado Thatcher- Reagan, a mentalidade yuppie que sufoca os hippies, o discurso do oprimido subsiste unicamente na “aproximação negativa”, desiludida, pessimista, aliás o discurso progressista perde definitivamente o  caráter até mesmo “antipático”, na medida em que deixa também de ser “progressista”.

A Consciência Perversa

(O inferno somos nós)

Sinal dos tempos é a representação da total ausência de solidariedade. Na produção literária ao invés do Sujeito ou Narrador Onisciente do Modernismo, temos os Diversos Sujeitos Inconscientes do Pós-Modernismo, ou almas parciais, ou várias posições descentradas do sujeito, num pós-paganismo que, sem Inconsciente e sem Natureza (Jameson), isto é, sem Deuses, gira em falso mas não esgota sua rotação.

Analisando obras de quatro escritores – João Ubaldo Ribeiro, Márcia Denser, Rubem Fonseca e Sérgio Santanna – a professora e crítica Luíza Lobo assinala que os autores pós-modernos mantêm um traço em comum: a perversidade. Ela observa que surge no Brasil, após os anos 80, uma literatura claustrofóbica, sem horizontes para além da telinha da tevê, marcada pelo crime, sexo e violência, por conflitos mesquinhos e sem grandeza, devido à ausência de um projeto social coletivo e solidário, ao  individualismo oco, à crise da subjetividade pelo fato de se viver no caos social e sem perspectivas.

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A sexualidade exacerbada concentra a emoção que de outra forma mergulharia o personagem no tédio do universo cotidiano consumista, que leva à morte, como diz Baudrillard em L’échange symbolique et la mort, daí a morte do sujeito-cidadão, a morte do sujeito consciente do seu destino, a morte da literatura apolínea, a morte do humanismo.

No meu conto Relatório Final (1978), a narradora abandona definitivamente o discurso do Outro para assumir, em primeira pessoa, o discurso da Consciência Perversa Coletiva duma sociedade urbana impiedosa, indiferente ao Outro, seja ele quem for, pois a autora já não fala mais pelo Sujeito Individual mas a partir ( torcendo um pouco o pensamento jamesoniano) dum Espírito Objetivo Coletivo e Degradado:

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Bebemos dois chopes, mas eu ainda estava excitada e ele também por causa da história da mulher e não sei quem lembrou: e se a gente fosse dar uma ali no meio da praça da igreja? Fomos.

Este é o relatório dos acontecimentos do dia 30 de dezembro. Às 23h45, precisamente, porque eu olhei para a torre da igreja que tem no meio da praça, enquanto estava de bruços com a saia levantada apoiando as mãos no capim fedendo merda velha e ele por trás mole e mole e com nojo e de ver aquilo tudo sem dizer nada explicando estar machucado e eu lembro que estava louca e isso era bom mas não queria sujar as mãos na terra e queria que aquela coisa entrasse dura e rija e forte e explodisse aqui dentro e me deixasse mais louca mas ele estava mole, ele não prestava para nada, ele era um frouxo, daí eu subi as meias, a calcinha, a cinta e catei a bolsa pendurada numa argola de ferro da igreja e falei, piscando para as luzes porque minhas lentes de contato já começam a arder nessas horas, você é um frouxo. E fomos embora.

Ele me ajudou a pular o murinho, quieto e moreno, e falou outra vez que estava machucado mas eu sabia que era nojo, que ele era um cara cheio de preconceitos e coisas assim na cabeça, negócio de mãe e pai lá no interior e noiva e tudo isso que eu já falei e já estávamos, quer dizer, eu estava na Consolação louca para ir embora e então ele perguntou se eu ia de ônibus e eu disse não, vou pegar um táxi e ele disse acho que vou para Osasco e eu pensei como Osasco? E então veio um táxi, eu fiz sinal, abri a porta e te olhei: você era só um estranho e disse tchau.

Dentro do táxi fui embora imaginando você morto lá em Osasco enquanto eu moro nos Jardins e amanhã vai ter uma puta festa.

( Márcia Denser, Relatório Final)

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O discurso definitivamente se “perverte”, porque a carga de transgressões é tão espessa que ofusca essa última leitura.  Para começar, a narradora é mulher que inverte a condição de  mulher-como-objeto para mulher-como-sujeito, subvertendo o papel do homem que ela usa como objeto, a quem despreza como culturalmente inferior, com quem transa a pretexto dum pileque e da perda do auto-controle, a quem desqualifica enquanto sujeito massificado e até mesmo como objeto de prazer: “você é um frouxo”.

No último parágrafo, quando o conflito se coloca na oposição rico/pobre, através da questão dele morar em Osasco, na periferia, e ela no centro nobre do Morumbi, a autora desaparece, permitindo que a personagem/ narradora avance e termine o conto com requintes de perversidade, expondo o nervo da Consciência Perversa que liquida a história no nível mesmo da linguagem, bem como qualquer ilusão a respeito do gênero humano.

Tanto na minha obra como na de Mirisola não há conflito autor/personagem, pois a personalidade esquizofrênica é dada como condição de normalidade do cotidiano high tech estilhaçado, onde o(s) personagem (s) é o autor que se “objetiva” no espaço onde ambos só sobrevivem se estiverem “armados” (com armas de fogo, pistolas, revólveres, metralhadoras, automóveis, cartões de crédito, celulares, computadores, “cash”) revestidos com o brilhante tecido dos elementos da cultura e da economia de mercado como “armaduras”, soterrados por resplandecentes couraças metálicas (inclusive as abstrações da teoria lacaniana).

Armaduras que, usadas full-time, transformam-se no seu verdadeiro corpo fantasmático/frio/insensível. Assim a grandeza do escritor se torna a negação diária da sua humanidade, a sua desumanidade triunfante, a consumação da perversidade que agora é a medida da genialidade.

Repito: cantei esta bola – da maldade absoluta do narrador – há 40 anos e Mirisola há 20. Nós avisamos. Previmos Jair B. na formação da Consciência Coletiva.

Naturalmente o humor em Mirisola é ironia, deboche, sarcasmo, um pouco ainda por conta da esculhambação carnavalizada, que nivela sagrado e obsceno, ambos aliás já suficientemente mixados e degradados desde a mídia:

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Atmosfera de missa do galo, culto ecumênico (Museu do Telefone?…).Sei lá. Uns malucos comungavam com pierrôs e colombinas de látex, virabrequins e vibradores de todos os feitios e espécies. Sexy Shop. Então fui xavecar a vendedora (Sotaque de rabino Henry Sobel): – Para que serve este MÃO?. Ela explicou os fundamentos do fist-fucking (…). A vendedora me ensinou que era pra puxar uma cordinha. Eu tava imaginando o Tony Ramos a fazer uma sacanagem dessas, mas ela interrompeu-me com a história do terço bizantino. Que era pra lubrificar “à base de água benta”. Ah, sim. A gente reza pro padre Marcelo, pensa no Tony Ramos (ou vice-versa) e enfia as tais bolinhas na bunda, uma a uma, lenta ou rapidamente. Beleza. As Contas Chinesas têm assistência técnica 24 horas,’ no caso do cliente apaixonar-se por si mesmo ou perder a cordinha lá dentro’. Mandei embrulhar pra presente. Aproveitei o saldão da Semana Santa e comprei uma ovelha inflável em três vezes sem juros e sem arrependimentos. Sacrificá-la, portanto, ficava por conta do limite do meu cheque especial, apenas isso. Quanto à MÃO do rabino, a vendedora – depois da minha insistência e de eu ter lhe confiado meu plano de fazer uma suruba junto com o padre Marcelo, Tony Ramos e a ovelhinha – me disse que era para enfia-los,a MÃO e o rabino e quem eu quisesse, tudo no meu cu e que eu passasse muito bem, ‘volte sempre e obrigada’. A igreja, pensei, além do departamento infantil, tem vendedores melhor preparados.

(Marcelo Mirisola, Sex Shop)

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O discurso perverso se serve da clareza lógico/analógica, articulando-se com requintes do léxico, literalmente argumentando em favor do mal, do erro, da maldade, do preconceito, do “politicamente incorreto” e  convence.

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Envolvido pelo deboche, pela ironia, o leitor se torna cúmplice do autor, ainda que conscientemente sinta repulsa, mas este sentimento de repulsa equivale ao que Freud chama de processo de denegação: a negação de um prazer rejeitado por ser inaceitável pelo consciente.

Este processo perverso de envolvimento do leitor, transformando-o em cúmplice de pensamentos, palavras e atos condenáveis, se consuma com sucesso porque ativa a má consciência coletiva ou consciência perversa de cada um, levando o leitor a tomar consciência, ainda que dolorosa, de que o mal que está lá fora é o mesmo que o espreita do interior.

 

Morte do sujeito e fragmentação

Ignácio de Loyola Brandão comparece com Um Tiro Certeiro, texto inédito em livro solo, publicado somente em Contos Cruéis, segundo seu organizador Rinaldo de Fernandes ( São Paulo, Geração Editorial, 2006 ) – sua prosa fragmentada é consagrada e pioneira desde o romance Zero, marco nas letras brasileiras pós-contemporâneas, além da onipresença do sujeito sem nome, inexistente – a encarnar com total eficiência a Consciência Perversa:

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Assim foi:

Cortou o pescoço de um jogador de futebol com a linha da pipa contendo cerol.

Jogou num poço o representante de uma oficina de companhia de seguros muito ranzinza.

Fez o mecânico duma oficina tomar um litro de gasolina e ficou vendo o homem cagar os intestinos.

Amarrou uma pedra no saco do jornaleiro.

Cortou as pernas dum sujeito que ganhou na Mega-sena. Agora ele pode comprar uma cadeira de rodas motorizada, pode ter uma perna artificial comandada pela informática, pode entrar preferencialmente em avião, em banco. Fiz um serviço para ele, refletiu.

Matou primeiro pelas letras do alfabeto. Começando pelo A até chegar Z. Faltou uma mulher com Y: você é Yvone com Y ou I? E a pessoa dizia que era com I, ele se irritava. Então decidiu: vai com I mesmo.

Passou um ano, ele cometeu todos os assassinatos possíveis, de todas as formas, com todos os instrumentos, matou de todos os modos, jeitos. Mas nada o satisfazia (…)

Para matar era preciso coragem. Para morrer era preciso ser herói. Ele era um herói, haveriam de invejá-lo pela valentia. Um tiro no peito resolveria. Como Getúlio, estavam em agosto, só se falava em Getúlio Vargas e no tiro no peito. Teria de comprar um revólver.Teria de arranjar um dinheiro. Roubando? Como se rouba?

Era preciso estudar.            (Ignácio de Loyola Brandão, Um Tiro Certeiro)

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O discurso do Outro surge agora já no registro do “sujeito esquizofrênico”, evidenciando a crise de historicidade, a exemplo do monólogo do motorista de táxi, personagem de André Sant’Anna em Rush, que evidencia não só ignorância a respeito de fatos da história recente, bem como uma incapacidade no sentido de estabelecer relações de causa e efeito.

Precisamente como os bolsonaristas do Jair: aqueles 20% da chamada escória ou ralé, a porção eliminável – que não presta para nada – da população brasileira.

Segundo Lacan, a esquizofrenia é a ruptura na cadeia de significantes, isto é, quando o sujeito perde a capacidade de entender suas pretensões e retensões em um complexo temporal e organizar passado e futuro como uma experiência coerente.

Assim o taxista de Rush, em seu discurso, revela uma apreensão da história recente que é falha, fragmentária, obtusa, desconectada de qualquer nexo e cujo sentido ele vai produzindo a esmo, de modo arbitrário:

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E os pleibói!? A lá aquele lá. Ó só. No tempo da ditadura ele ia ver só. Ia pra cadeia e ia tomar um monte de porrada. Fica fumando maconha e sai pra rua pra atrapalhar o trânsito. No tempo da ditadura, ele pegavam o filhinho de papai, punha pra tomar choque e o escambau. Se o pleibói estivesse maconhado ia direto pro hospício. Por isso é que no tempo da ditadura não tinha esse negócio das droga não. Só nos Estados Unidos. Agora, não. Mulher no trânsito é um pobrema, mas no tempo da ditadura não davam carteira pra qualquer um não.

( André Sant’Anna, Rush)

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Em André Sant’Anna, Rubem Fonseca, Mirisola e Denser observamos que este não é o discurso do Outro, mas o discurso representado do Outro, isto é, submetido à mediação literária num altíssimo grau de sofisticação e representação revestida duma devastadora carga de crítica social.

Realmente, não há crise de representação na Literatura. A crise é real e está na realidade onipresente que deforma as subjetividades até o inextrincável, das quais a literatura é espelho fiel, sua alma e sua palma. E suas antenas, como demonstrei.

Mas tudo isso seria ficção, apenas ficção, se em outubro de 2018 Jair Bolsonaro não tivesse sido eleito e transformado tudo isso na mais cruel realidade.

Nós avisamos.

 

Notas Bibliográficas

[1] Talvez por ser o pioneiro, escrito no ínício de 70, só o conto de Rubem Fonseca tem marginais – assaltantes, estupradores,assassinos – como personagens. Nos demais, estes são pessoas comuns – como tu e eu, contudo, cada um a seu modo, fenomenológicamente, encarnam elementos da Consciência Perversa. No futuro, serão os minions de Jair Bolsonaro, presentes na vida e nas redes.

[2] JAMESON, Frederic. Pós-Modernismo, A lógica cultural do capitalismo tardio. pg.29: S.Paulo,

Ática, 1997.

 

[i] FONSECA,Rubem.  Feliz Ano Novo. coletânea de contos, 2ªedição. S.Paulo, Companhia das Letras,1989.

[ii]FERNANDES,Rinaldo de. Contos Cruéis. coletânea de contos: S.Paulo, Geração Editorial,2006.

[iii]DENSER,Márcia. Diana Caçadora/Tango Fantasma, reedição: S.Paulo, Ateliê Editorial, 2003.

[iv] In PS-SP, revista de literatura. São Paulo, Ateliê Editorial, 2002.

[v]In SP-PS, revista literária. São Paulo, Ateliê Editorial, 2002.

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