Política Externa Brasileira e Conservadorismo, por Gabriel Queiroz Imhoff

A tradição conservadora nasceu como hesitação interna da teoria política liberal, destacando a moral, a tradição, as leis e as autoridades.

Política Externa Brasileira e Conservadorismo

por Gabriel Queiroz Imhoff

Em uma democracia solidamente estabelecida, a transição de poder é considerada não só natural, mas saudável. O proclamado conservadorismo do atual governo brasileiro significou uma drástica transição, ainda que esperada, da sua política exterior. Contudo, tal conservadorismo foge dos ditames de sua raiz conceitual, expressando-se de maneira contrária à sua letra e ao seu espírito.

A influência da política conservadora, a priori, não deveria significar a ofuscação da distinta tradição que a Casa do Rio Branco ocupa no Brasil, como a obediência aos princípios constitucionais, ao pragmatismo, ao senso de moderação e equilíbrio, tampouco eclipsar a essência da diplomacia: o diálogo. Deveras, nenhuma filosofia política empregada deveria ressonar em uma antidiplomacia.

A tradição conservadora nasceu como hesitação interna da teoria política liberal, destacando a moral, a tradição, as leis e as autoridades. Os esforços de Thomas Jefferson na arquitetura da Constituição Americana, base política do pensamento conservador, enfatizava em paralelo à democracia, a continuidade e os costumes que davam voz aos esforços das gerações anteriores. Jefferson prezava por uma forma de governo adaptada a uma sociedade especifica, evitando, portanto, governos ditados por filosofias abstratas e impalpáveis.

Outro pilar do conservadorismo é Adam Smith e seu espectador imparcial. Esse figurado espectador seria o observador ideal para decisões imparciais quanto às políticas públicas. A imparcialidade como tema de cunho moral deveria, desta forma, refletir a transição de poder como o resíduo de uma prática estabelecida, em oposição à reconstrução total de uma ordem.

A base conservadora aqui apresentada em nada se reflete na reciprocidade fictícia do enquadramento Brasil-Estados Unidos, nas aventuras intervencionistas regionais relacionadas à Venezuela, na quebra da liderança brasileira na área ambiental, tampouco no rompimento de sua vocação histórica e universalista de diálogo, criando tensões com potências europeias.

Liderado por uma alienação na sua política externa, o Brasil não supre a liderança que seu peso representa no concerto internacional e incorpora valores filosóficos abstratos e conflitantes ao que afirma representar.

 

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