Politização e doutrinamento: uma relação de poder, por Luc Matheron

Politização e doutrinamento: uma relação de poder

por Luc Matheron

Recentemente, vieram à tona comentários de certos ativistas nas redes sociais se reivindicando de esquerda. Despertou minha atenção e curiosidade o embasamento político de alguns deles.

Apesar do distanciamento histórico que nos fornece algumas chaves de leitura sobre os eventos do passado, temos por aí grupos que, num saudosismo surpreendente, insistem em cultivar a luta de classes na leitura marxista e a revolução do proletariado como se ainda fosse uma expectativa razoável. Já na década de 1970, o Castoriadis, filósofo e psicanalista grego, comunista desde a juventude, se questionou sobre o marxismo cujo destino havia de ter se tornado “a ideologia atuante de burocracias totalitárias(i).

Pergunto-me: qual é essa ânsia de falsa revolta e real difamação para com a chamada “pequena burguesia” por alguns comentaristas, inegáveis formadores de opinião e ícones de uma pequena burguesia, justamente, cativa do discurso pseudo revolucionário?

A ditadura do proletariado nada mais é que outro nome para democracia. Reza a Constituição Federal que o povo é soberano, o que, em si, já confere à maioria o poder decisório. No entanto, percebemos que não é bem assim na prática e o que vemos na realidade é uma elite minoritária unida e mobilizada frente a um proletariado majoritário, mas fragmentado, disperso em pequenos grupos e incapaz de união. Paradoxalmente, os negros que constituem a maioria da população brasileira ainda são classificados dentre as minorias.

O mega milionário Warren Buffet declarou certa vez: “Existe uma guerra de classes, claro, mas é minha classe, a classe rica, que está em guerra, e estamos ganhando.”(ii) É o que podemos observar hoje com esse número absolutamente inconcebível de que 1% da população mundial possui a mesma riqueza que os 99% restantes. Ao lado desses poderosos está a “Elite do Atraso”, tão bem descrita por Jessé Souza, que apoia, de algum modo, esse sistema. É essa “Nova classe” (denominação do sociólogo Christopher Lasch) que promove a escola sem partido e sem reflexão, congela os investimentos em educação e repassa ao setor privado a tarefa de ensinar aos que terão a possibilidade de pagar, como afirmou em 2016 o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP).

A fragmentação social

Em nossa sociedade capitalista e consumista, assistimos a uma homogeneização política e cultural a medida que avança a globalização. Paralelamente, os laços sociais tendem a desaparecer, desmoronando com isso a solidariedade e a capacidade de união em torno de problemas comuns. A relação de indiferença dos indivíduos para com a degradação do meio ambiente é um claro sinal disso, da mesma forma que a luta de classes se torna uma luta egoísta atrás da sobrevivência individual.

Mas essa homogeneidade é só aparente e, ao contrário, a sociedade está cada vez mais desigual, configurando-se em dois blocos: um, minoritário, que concentra a riqueza material, e outro, imensamente majoritário, que luta para sobreviver, entregue a sua insignificância. Nessa sociedade, somente um pequeno grupo monopoliza os privilégios do dinheiro, da educação e do poder.

Educação

Como já o havia visto Darcy Ribeiro, a educação é a chave fundamental para equilibrar a sociedade. Sucateado durante a ditadura militar, o sistema de ensino brasileiro não se reergueu com a redemocratização. Ao contrário, o Estado foi se descarregando dessa função fundamental para a iniciativa privada. Logo, a educação se tornou negócio, objetivando o lucro, ao invés de um projeto de nação.

Porém, em se tratando de educação, a meta não pode ser acanhada, nem mercantilizada. Neste aspecto, vale conhecer a política educacional que revolucionou a Finlândia em poucas décadas, graças a sua aposta determinada na educação. Uma reportagem da Cláudia Wallin*, Lições da Finlândia, vale a pena ser assistida no seu canal do YouTube.

Além da igualdade de chance de todos os alunos pelo fato de todos eles cursarem em escolas públicas gratuitas e de qualidade, o modelo de ensino privilegia o raciocínio lógico. O raciocínio lógico e crítico está à base da construção de uma reflexão fundamentada sobre todo e qualquer assunto que se venha a considerar.

Infelizmente, apesar dos esforços louváveis para democratizar a educação superior nesses últimos anos, não se conseguiu, em nível municipal, e até estadual, conscientizar os responsáveis a darem prioridade à educação e os alunos permanecem sem merenda, sem transportes decentes, sem material… enfim, sem escola pública de qualidade.

Politização e doutrinamento

Falando recentemente sobre a entrevista de um presidenciável na Globo, Luis Nassif notou o despreparo dos entrevistadores, cujo nível de análise, de questionamento e de retórica não condizia com o papel que, supostamente, ali estavam desempenhando e comentou: “É muita superficialidade. O maior problema do Brasil é esse subdesenvolvimento monumental na formação da opinião pública.”

E está aí o divisor de águas entre politização e doutrinamento. Ao passo que uma educação que favoreça o espírito crítico dá autonomia aos indivíduos pela capacidade de análise, a “Elite do Atraso” aposta na privatização do ensino, na escola sem partido e no individualismo desenfreado, enaltecendo certo “filósofo” que cultiva o ódio ao comunismo, a caça às bruxas e o cristianismo medieval. Um discurso de ódio e uma falta de olhar crítico tão patentes que se veem situações tão esdrúxulas quanto um presidenciável debatendo invencionices em rede nacional.

Por outro lado, radicaliza-se o discurso gasto da luta de classes e a ditadura do proletariado que não leva a qualquer mudança na sociedade, a não ser a construir, cada vez mais alto, o muro da incompreensão e da incomunicabilidade. Além de não construir harmonia, acirra um espírito de revanchismo em que não vejo nenhuma aspiração democrática. Um totalitarismo de esquerda nada mais é que totalitarismo, e já o vimos.

Para politizar não precisa de discurso político; este é uma consequência da politização. O que precisa é uma escola de qualidade que vai promover a igualdade de chances pela igualdade de ensino e o aprendizado da valorização do que é outro, distinto, diferente, seja em termos de pensamento, de ideologia ou de gênero, e assim assentar novas relações de poder. Pois todos nós participamos da mesma humanidade e precisamos dessa harmonia diante dos desafios gigantescos que nossa sociedade local, nacional e planetária há de enfrentar.

Como recompor essas sociabilidades e solidariedades que parecem necessárias para construir uma sociedade “livre, igualitária e decente”, como a sonhava George Orwell? Deixo aqui essa pergunta para um início de reflexão.

 (i) Marxisme et théorie révolutionnaire (1975), p. 50 (tradução nossa)

(ii) “there’s class warfare, all right, but it’s my class, the rich class, that’s making war, and we’re winning” (Warren Buffet).

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