Por que acredito no que acredito?, por Gustavo Gollo

Uma breve reflexão sobre crenças e dogmas

Por que acredito no que acredito?, por Gustavo Gollo

Quando crianças, nossas mães, familiares, e todas as pessoas próximas vão nos entregando, aos poucos, um enorme conjunto de informações com as quais vamos criando nossa própria visão de mundo.

Desse modo, aprendemos nosso próprio nome e o das coisas que nos rodeiam, assim como a estruturação de nossa língua materna. Também vamos recebendo um vasto conjunto de informações sobre fatos variados, e conexões entre eles, ao mesmo tempo em que vemos, ouvimos, cheiramos e vamos experimentando as redondezas. Aprendemos a contar, a somar, a amarrar sapatos, entre uma enorme diversidade de modos de agir e de adquirir conhecimento. Aprendemos histórias.

De todas essas maneiras, as crianças vão moldando sua visão de mundo à semelhança da visão de mundo daqueles que as rodeiam, e, assim, vão se socializando e adquirindo os mesmos hábitos e costumes dos que se encontram ao redor.

Tais conhecimentos são assimilados passivamente pelas crianças, que em tal fase ainda não têm a capacidade de crítica.

Com o passar do tempo, no entanto, as crianças vão adquirindo a capacidade de raciocinar, de conectar os conhecimentos adquiridos formando redes, e de entrelaçá-los uns a outros. Essa ferramenta mental, o raciocínio, permite o entrelaçamento de numerosas informações adquiridas esparsamente, construindo assim algo que pode ser descrito como um tecido mental, formado pelo entrelaçamento de crenças.

Essas redes são tecidas com o auxílio de palavras especiais, os conectivos lógicos, como “e”, “ou”, e expressões como “se, então”, que permitem ligar ideias a outras ideias, formando blocos complexos. São elas que propiciam o exercício da racionalidade, e a inferência de informações que não se apresentam diretamente aos sentidos, mas que delas podem ser deduzidas.

Tais conexões propiciam também a possibilidade de crítica dos conhecimentos, e eventuais confrontações de dogmas previamente aceitos, mas incompatíveis entre si.

2 tipos de conhecimentos

Séculos atrás, os filósofos distinguiram entre dois tipos de conhecimentos, analíticos e sintéticos, as verdades de fato e as verdades de razão, segundo outra nomenclatura. A distinção se justifica em decorrência do modo como se descobre ou se confere a veracidade de uma dada afirmação. Por exemplo, para nos convencermos de que “os quadriláteros têm 4 lados”, basta compreendermos as palavras ali escritas, trata-se, portanto, de uma verdade de razão. Já as verdades de fato, são adquiridas por inspeção do mundo: sei que meu computador está sobre a mesa porque estou vendo isso. Muitas de nossas crenças se originam assim, de nossos próprios sentidos, embora saibamos que os sentidos podem nos enganar. Note que a maneira como se justificam as crenças de um e de outro tipos são completamente distintas.

Esse tipo básico de distinção talvez pareça apenas uma espécie de pedantismo, mas evita que cometamos erros muito grosseiros mas comuns, como buscar justificações empíricas, factuais, para afirmações analíticas.

Entre outras coisas, os filósofos estudam o próprio conhecimento, e as maneiras como podemos adquiri-lo. Raramente, outros fazem o mesmo, de modo que raramente atentam para o tipo de coisa que os leva a acreditar no que acreditam. Esse tipo de cegueira abre as portas aos dogmatismos, a fixação de crenças injustificadas.

Dogmatismo e cegueira

Na maioria das vezes, o dogmatismo decorre simplesmente de algo muito próximo a uma cegueira, ignorância, ou incapacidade de raciocínio.

Uma característica das cegueiras, é que elas geram a incapacidade de autoreconhecimento. Um cego pode ser facilmente identificado em meio a outras pessoas, outro cego não identificará esse fato tão prontamente, e só concluirá sobre a própria cegueira ao ser informado sobre ela. Pessoas cegas de um olho, podem levar anos para descobrir tal fato, somos cegos para nossas próprias cegueiras.

A cegueira dos olhos, no entanto, apresenta-se aliada a certa modéstia, de maneira que ao ser informado de sua cegueira, o cego se conscientiza dela, tomando precauções para superá-la, entre outros modos, fazendo uso de informações advindas dos que enxergam.

O dogmatismo, ao contrário, é um tipo de cegueira que nega a si mesmo. O dogmático não se reconhece cego e, usualmente, imputa a cegueira aos que dele discordam.

Dogma e razão

Originalmente, os dogmas eram proposições absurdas impostas pelos papas, ou autoridades análogas. A infalibilidade papal, por exemplo, o dogma de que o papa é infalível, permite que o sumo pontífice imponha outros tantos dogmas. A proclamação de um determinado dogma tinha como propósito encerrar toda discussão posterior sobre o assunto. Note que “ter fé” significa acreditar no absurdo. Os religiosos não necessitam nem dogmas, nem fé, para reconhecer que 2 + 2 = 4; a declaração de dogmas, assim como a fé, é exigida apenas para conclusões disparatadas.

Em vista disso, naturalmente, a palavra “dogma” ganhou conotação pejorativa e agora é usada para designar crenças irracionais. A racionalidade se contrapõe frontalmente ao dogmatismo, de modo que os cientistas, supostamente arautos da razão, deveriam ter impedido que dogmas grassassem em solo científico, ideal brutalmente distante.

O dogmatismo nas ciências

Entre os físicos, por exemplo, a mecânica quântica, vem sendo aceita há quase um século, e repassada de professor para aluno, através das gerações, com um mínimo de questionamento sobre seus fundamentos, e sem nenhum remorso quanto a isso. É comum entre os físicos acreditar que a mecânica quântica – como os dogmas religiosos mais disparatados –, não pode ser compreendida, sendo possível apenas que nos acostumemos com ela. Embora, nas últimas décadas, essa disposição esteja mudando, com o reconhecimento da necessidade de compreensão da teoria, a resignação com que os físicos abdicaram, durante várias décadas, de compreender seu mais potente instrumento de investigação do mundo, revela um dogmatismo estarrecedor.

Note que não estou criticando a teoria quântica, mas o modo dogmático como ela foi repassada de geração a geração, sem nenhuma necessidade de compreensão de seus fundamentos, à maneira exata com que os dogmas são impostos.

Entre os biólogos o flagelo é ainda pior.

Na década de 70, Richard Dawkins apresentou a biologia de uma forma muito mais estruturada do que outras, até então, em seu livro, o “O gênio egoísta”. Desde então, muitos biólogos vêm atentando para a conexão entre os conhecimentos engendrada por ele. A visão dos especialistas – uma maldição que dominou profundamente a biologia do século passado –, fazia o mundo biológico parecer um conjunto de retalhos desconexos, como se cada especialista analisasse, em seus detalhes mais ínfimos, cada peculiaridade de cada folha de uma árvore, mas dando uma atenção muito distante, e apenas esporádica, aos ramos que estruturam a árvore. Obtinha-se, assim, uma visão ultradetalhada das mais mínimas peculiaridades de cada folha, de suas filigranas mais sutis, mas desconexa, e sem nenhuma atenção ao conjunto, à maneira como os detalhes se encaixam, uns nos outros.

Essa estrutura, a coluna dorsal de toda a biologia, o conhecimento que conecta e dá sentido a tudo o que é apresentado pelos especialistas, é chamada “teoria da evolução”; poderia ser chamada, meramente, “biologia”. A comparação da teoria com o tronco e os ramos de uma árvore, constitui metáfora ainda mais ilustrativa

Tendo sido Dawkins o paladino de tal saga, tendo sido ele o notável estruturador da biologia contemporânea, expurgando dela a visão desconjuntada do especialista, não foi surpreendente vê-lo prosseguir em sua batalha contra o dogmatismo, essa forma de ignorância impositiva.

(Note que “ignorar” significa apenas desconhecer, fato natural que antecede qualquer conhecimento, constatação que deveria ter impedido que a palavra adquirisse conotação pejorativa. O dogmatismo, no entanto, constitui um modo de imposição da ignorância, que transforma o desconhecimento numa espécie de ignorância ativa, fato que justifica sua repulsa.)

Poucos anos atrás, tendo em vista o esclarecimento das generalidades que sustentam nossas crenças, Dawkins escreveu um livro chamado “A magia da realidade”, no qual explica o modo como acreditamos que as coisas funcionam.

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Embora o livro tenha sido escrito com um propósito esclarecedor e, nessa medida, pareça antidogmático, seu subtítulo dá fortes pistas de que descambará para uma espécie de “dogmatismo antidogmático”: “como sabemos o que é realmente verdade” (how we know what’s really true).

Dawkins é um grande autor. Considero “O gene egoísta” o livro mais importante da segunda metade do século passado. Alguns dos outros livros dele também são maravilhosos. Destaco “The extended phenotype”, nunca traduzido para o português, e de cunho mais técnico, recomendo entusiasticamente, também, “O maior espetáculo da terra”, e seu herético “Deus, um delírio”. Alguns livros dele, no entanto, são dispensáveis. “A magia da realidade” é um desses, o que, normalmente, teria me levado a calar sobre ele – considero perda de tempo tratar do que é dispensável. O erro de Dawkins, no entanto, deve ser compreendido, se pretendemos expurgar o dogmatismo.

Nesse livro, Dawkins nos oferece resumos das explicações atuais para questões muito gerais sobre a matéria ao nosso redor, sobre os átomos, os planetas, as estrelas, galáxias, resume também umas explicações sobre o surgimento dos animais e dos seres vivos em geral. Em suma, oferece-nos visões ortodoxas para questões gerais que perpassam nosso dia a dia. O propósito primordial do autor é contrapor explicações racionais, como as apresentadas por ele, a explicações mágicas e místicas de todos os matizes.

Surpreendentemente, ou talvez, nem tanto, Dawkins incorre no mesmo dogmatismo cujo propósito do livro é criticar, como mostrarei.

De volta a Popper, Hume e Sócrates

Em 1934, Karl Popper retomou a crítica de David Hume que mostrava que a indução empírica não justificava qualquer conhecimento. Embora o feito consistisse apenas na retomada de uma ideia, uma coragem intelectual bastante rara foi necessária para transpor e contextualizar uma crítica já esquecida e direcioná-la a um objeto, então, acima de qualquer suspeita: a ciência do século XX.

Creio que para compreender a ciência seja necessário compreender a primeira parte d’A lógica da investigação científica”, de Popper, são poucas páginas. Penso que os que não compreendem essas páginas não compreendem o que seja a ciência – para um cientista isso é drástico.

A conclusão mais contundente dessas páginas é que o ideal de conhecimento definitivo, provado, se revelou uma fantasia inalcançável, um conto de fadas. Estamos fadados às suposições conjecturais, não nos é dado o acesso às certezas. Eis-nos de volta à conclusão de Sócrates: só sei que nada sei.

Não tentarei, aqui, detalhar as razões aduzidas pelos autores citados acima, referirei apenas o fato de que ambos afirmam, simplesmente, não haver fundamento para a crença na demonstração científica e na obtenção de verdades científicas indubitáveis. Todo o conhecimento empírico – o conhecimento sobre o nosso mundo –, permanece sempre conjectural, não existindo maneira de torná-lo absoluto, provado, irrefutável.

Assim, quando Dawkins proclama saber o que é realmente a verdade sobre qualquer questão empírica, age da mesma maneira dogmática que os religiosos e místicos de todos os matizes, criticados por ele.

Relativismo

A alegação de Popper, ou minha versão dela, exposta acima, pode parecer sugerir que estejamos fadados às suposições conjecturais, não nos sendo dado o acesso às certezas, parece me jogar irreversivelmente para uma posição relativista na qual todas as explicações, sejam elas místicas ou científicas, possuiriam o mesmo status, tornando a aceitação de qualquer uma delas arbitrária, e sujeita apenas a humores, simpatias ou qualquer outro tipo de escolha, qualquer delas igualmente injustificada.

O relativismo costuma ser defendido de uma maneira que me parece desonesta, utilizado apenas em vista das conveniências de quem dele se utiliza. O relativista costuma ser uma pessoa comum, que defende ideias comuns, com argumentos usuais, não se mostrando relativista nas questões do dia a dia. Quando despojado de argumentos, no entanto, quando se vê incapaz de defender uma ideia qualquer que ele acredita deva ser defendida, o relativista, então, saca da manga seu coringa, com o qual coloca em igualdade todas as convicções, mesmo aquelas para as quais não há defesa. Para o relativista, então, todas as crenças situam-se em igualdade, podendo-se acreditar em qualquer uma delas, ao sabor apenas do arbítrio. Desse modo, crenças místicas são, para o relativista, tão defensáveis quanto as crenças científicas, consistindo a ciência em algo completamente análogo a qualquer credo místico.

Paul Feyerabend me parece ter sido um bom relativista, mais honesto que outros, tendo sido compelido, em vista disso, a transpor seu relativismo além das raias do absurdo.

Segundo Feyerabend, Imre Lakatos, outro epistemólogo, teria resumido do seguinte modo sua última crítica a ele (a formulação é minha): sua posição é desonesta, se não o fosse, não haveria razão para que, estando no décimo andar de um edifício, por exemplo, resolva sempre descer de elevador, e não pela janela, como conviria, por vezes a um relativista, dado não haver razão para não fazê-lo.

Feyerabend teria respondido a Lakatos dizendo que não pulava da janela “pela mesma razão” que um gato não o faz, e independentemente das crenças epistemológicas de ambos, dele e do gato.

A resposta me parece engenhosa, mas suscita a generalização imediata: porque ao entrar em uma sala escura, um relativista, como qualquer pessoa, busca o interruptor para acender a luz? Por que, simplesmente, não ordena à lâmpada para que ela se acenda, ou não realiza outra qualquer sandice do gênero? Ou, mais geralmente: por que em circunstâncias usuais o relativista tenta agir racionalmente?

O relativista não acredita no que diz, ou não agiria normalmente, como agem os que creem na razão.

Por que não sou relativista?

Porque ligo interruptores e não ordeno às lâmpadas que se acendam.

Mas, se não acredito em verdades científicas indubitáveis, por que aciono interruptores?

Ciência e tecnologia

Creio que o século XIX tenha sido a era de ouro da ciência. O século XX foi o da tecnologia, o que coincide com a ascensão dos Estados Unidos. Até uns 100 anos atrás, os engenheiros responsáveis pela criação de tecnologia eram referidos como inventores, depois passaram a ser chamados cientistas, o que, a meu ver, confunde as coisas. Os americanos sempre deram enorme importância à tecnologia, pouca à ciência. Tecnologia gera lucro, ciência, não – só indiretamente. Acredito que eu tenha sido o primeiro a chamar atenção para fatos tão óbvios.

Uma das diferenças entre ciência e tecnologia reside em certa assimetria lógica. Boa ciência, como salientou Popper, deve ser refutável, mas não pode ser provada. Boa tecnologia, ao contrário, deve ser provada, sendo irrelevante que seus fundamentos sejam refutados.

A refutabilidade da ciência corresponde a seu conteúdo informativo. Sentenças, ou teorias, irrefutáveis não informam nada sobre o mundo. Eis 2 exemplos:

1 Ou choverá, ou não choverá, amanhã!

Essa previsão climática é verdadeira, irrefutável. Qualquer que seja o estado das coisas que aconteça amanhã comprovará a predição. E, no entanto, ela não informa nada sobre o que ocorrerá; concordamos com ela, mas ficamos sem saber se choverá, ou não.

2 Existe uma evocação que pronunciada à meia-noite, em um cemitério, faz surgir uma criatura bizarra.

A sentença acima é irrefutável. Suponha que uns defensores dessa insanidade vão testá-la hoje, e nada acontece. Eles podem concluir que a evocação pronunciada não foi a correta, tivesse sido, e a criatura teria aparecido. Na noite seguinte, então, eles retornam ao cemitério com o mesmo propósito, e nada acontece. Mesmo que retornem, noite após noite, durante séculos, para evocar a tal criatura, sem obter resultado, poderão atribuir as sucessivas falhas a erros na evocação, acreditando que, tivessem eles pronunciado a frase corretamente, e a bizarra criatura teria se erguido das trevas.

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Teorias irrefutáveis não têm relevância para a ciência; boa ciência deve ser constituída por teorias refutáveis.

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Para propósitos tecnológicos, no entanto, os preceitos científicos se invertem, e a refutabilidade é irrelevante, enquanto a prova é fundamental. Queremos aparelhos que funcionem a contento, independentemente do conhecimento que justifique tal funcionamento.

Quando efetuamos uma operação para ligar um aparelho qualquer, esperamos que ele funcione, embora isso nem sempre seja o caso.

Quando comutamos um interruptor com o propósito de acender a luz, mas a lâmpada não acende, supomos que a lâmpada esteja queimada, e a trocamos. Caso continue não acendendo, após a troca, supomos que a fiação esteja com problemas. Tecnologias falham, mas as falhas não invalidam seu funcionamento. Nem usuários, nem engenheiros têm maiores preocupações com a teoria que justifica o acendimento das lâmpadas, ambos esperam que elas funcionem, e se contentam com tal fato. Falhas eventuais no funcionamento dos aparelhos também não são vistas, em geral, como falhas da teoria, mas como falhas do aparelho. Para um engenheiro, tanto quanto para o usuário, a teoria que justifica o funcionamento do aparelho é irrelevante, desde que ele funcione a contento.

Teorias podem ser usadas como lanternas para iluminar a elaboração de novas tecnologias. Sem teorias, os engenheiros trabalham às cegas, tateando, sem compreender o que estão fazendo. Durante um longo tempo, a tecnologia de desenvolvimento das máquinas a vapor impulsionou a revolução industrial guiada pela suposição de que o calor consistia em um fluido, o calórico, teoria, hoje, sem sustentação. Note que se pode provar o funcionamento a contento das máquinas a vapor, mesmo das que foram engendradas sob a pressuposição da existência do calórico. Ou seja, pode-se provar que a tecnologia funciona, mesmo quando inspirada por teoria completamente desacreditada. A prova de que uma dada tecnologia funciona, no entanto, não se estende aos fundamentos dos conhecimentos que a justificam. Tudo indica que as máquinas a vapor funcionavam corretamente mas em decorrência de outros fundamentos, não dos alegados pelos engenheiros da época. Boas teorias facilitam tremendamente a construção de tecnologias, mas mesmo teorias ruins servem como guias para tal propósito.

Penso que a mecânica quântica, assim como parte considerável da ciência desenvolvida desde o século XX, privilegia a obtenção de tecnologia em detrimento do conhecimento – tenha em mente que tecnologia propicia patentes e lucros, ciência, não. Presume-se, em geral, não haver antagonismo entre tais propósitos, e que a obtenção de novos conhecimentos impulsiona a de novas tecnologias. Ao analisarmos o caráter instrumental de boa parte da ciência desenvolvida nesse período, constata-se a supremacia do lucro no direcionamento de suas metas. Tal constatação, aliás, não deveria surpreender, em um mundo pautado, todo ele, pela veneração ao dinheiro. Surpreende, no entanto, que se negue, ou desconsidere, constatação tão evidente.

Ao lado da mecânica quântica, uma teoria eminentemente instrumental, pautada por metas tecnológicas, cujas interpretações foram sempre relegadas a planos menores, a biologia do século XX foi direcionada para metas tecnológicas, desde os primeiros vislumbres da mais mínima possibilidade de obtenção de lucros, quando as biotecnologias genéticas eram um sonho muito distante – ou pesadelo, conforme o ponto de vista. Desde então, a única teoria biológica geral existente, o sustentáculo de todo o conhecimento biológico, a teoria da evolução, de Darwin, foi relegada a plano secundário. Por muitas décadas, o grande livro de Darwin, o texto biológico mais relevante já escrito, permaneceu quase como objeto de museu, guardado em bibliotecas como relíquia do passado.

“Sobre a origem das espécies” continua a ser o mais importante livro de biologia já escrito, continua atual, devendo ser lido por todas as pessoas com interesse no conhecimento. Nunca poderia deixar de ter sido leitura obrigatória entre os biólogos; creio, no entanto, que nunca foi. Durante muitas décadas, a quase totalidade dos biólogos presumiu, sem qualquer curiosidade contrária, estar ultrapassado, erro grosseiro. Darwin permanece atual, e suas ideias continuarão vivas quado o legado dos cientistas de hoje já tiver sido esquecido.

Sobre a relevância das provas para a tecnologia, e sua irrelevância para a ciências

Suponha que uma dada teoria propicie a confecção de um aparelho de comunicação cuja metade dos dados enviados seja recebida erroneamente, quero dizer, em metade das vezes a tecnologia acerta, na outra metade ela erra. Apresentada assim, parece uma péssima tecnologia, mas se suficientemente rápida e barata, ela pode ser bem satisfatória, bastando que se envie cada mensagem muitas vezes de modo a permitir a filtragem e correção de todos os erros através da comparação das mensagens recebidas. Utilizada dessa forma prolixa, a tecnologia funcionará perfeitamente, provando seu funcionamento além de qualquer dúvida. Desse modo, pode-se dizer que tal uso provaria a perfeição da tecnologia.

Note que a ilustração acima presume que em metade das comunicações a teoria utilizada para explicar o funcionamento aparelho teria falhado, garantindo que o conhecimento teórico que sustenta a tecnologia é bastante precário. Sabemos que uma única falha na teoria é suficiente para demonstrar sua falsidade; uma teoria que falhe em metade das vezes deve estar bem distante do desejável. Teorias errôneas, no entanto, podem funcionar como mnemônicos, incorrendo em erros graves de compreensão do mundo, mas facilitando a confecção de bons aparelhos.

A constatação acima talvez nos induza a propugnar uma reformulação satírica do dito socrático: só sei que nada sei, mas desconfio de uma porção de coisas!

Por que acredito no que acredito?

Pessoas dogmáticas defendem seus pontos de vista como se ostentassem bandeiras, defendem um lado, arbitrariamente, como poderiam estar defendendo o outro. Muitos defensores da ciência agem desse mesmo modo, defendendo sua ciência como torcedores de futebol, um paradoxo.

Mas, haverá alternativa? Uma vez que nem as verdades científicas são passíveis de demonstração, não estamos fadados ao puro arbítrio? O que me impede de me agrupar com uma torcida contrária à dos cientistas e proclamar ideias contrárias às deles?

Leitor, essas perguntas, e outras análogas são cruciais. Quais os fundamentos de meu conhecimento?

A gravidade da pergunta é acentuada quando dirigida a um cientista. Poderá um cientista acreditar no que acredita apenas porque seus professores lhe disseram que era assim?

Será possível defender racionalmente algum ponto de vista?

Por que acredito naquilo em que acredito?

Comecemos pelas verdades de razão. Por que acredito, por exemplo que 2+2=4 ?

Uns tentarão justificar essa crença empiricamente, reunindo, por exemplo, 2 dedos a outros 2 dedos e contando-os. A solução não é convincente, se fosse valeria para a resposta de algo como 545766722903 + 6560099982764. O leitor terá que fazer a conta para descobrir o resultado. Mas, se eventualmente alguém alegar ter reunido tais quantidades de grãos de feijão e encontrado resultado diferente do obtido através da soma, o leitor não acreditará: de um modo, ou outro, ele sabe que a questão não é empírica.

Questões desse tipo são resolvidas pelo significado das palavras, e não por inspeção do mundo.

Por que devemos acreditar que 2+2=4, e em outras conclusões do mesmo gênero?

Antes de apresentar uma resposta, recapitulemos que nosso sistema de contagem: 1, 2, 3, 4… corresponde à definição dos símbolos ali presentes, de modo que o significado de cada símbolo que surge na sequência significa “o símbolo anterior acrescido de 1”.

Sabendo-se que 2 significa “1 + 1”, (porque 2 significa seu anterior (1) acrescido de 1, temos que 2+2 significa 2+(1+1).

Mas a contagem nos mostra que “2+1” dá o significado de “3” e que “3+1” apresenta o significado de 4.

Advirto o leitor de que a demonstração acima está meio capenguinha. Mesmo assim, considerei-a aceitável para mostrar algo extremamente pretensioso: o espírito de toda a matemática!

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Tenho certeza de que alguns conhecedores da matemática renegarão essa minha cândida tentativa de apresentar, em umas poucas linhas destinadas ao público geral, o espírito de toda a matemática. Creio, por outro lado, que os que têm pouco conhecimento matemático poderão captar e se deleitar com algo simultaneamente profundo e singelo.

Agora, se eu mentir para o leitor dizendo que quando adicionei a quantidade de um saco contendo 1.000.000.000 de grãos feijão a outro saco contendo a mesma quantidade de grãos e obtive 2.000.000.001 grãos, conhecendo o espírito que rege toda a matemática, o leitor terá não só a convicção de que eu errei minha contagem – mesmo sem tê-la acompanhado –, mas saberá que: se 1.000.000.000 de grãos feijão foram adicionados a igual quantidade, o resultado tem que ter sido idêntico ao obtido através da soma algébrica dos números. (É curioso observar que o desconhecimento da demonstração do resultado das somas revela que sua aceitação tenha sido dogmática, ou seja, baseada em algum tipo de autoridade, não na razão).

Os matemáticos têm se esforçado para que todos os resultados da matemática sejam desse mesmo tipo. Assim, mesmo os mais complexos resultados matemáticos, decorrem de raciocínios análogos ao esboçado acima, efetuados sobre outros raciocínios análogos, que se baseiam, todos eles, em banalidades tão cândidas quanto o nosso sistema de contagem.

Vem-me à mente, ao escrever o parágrafo acima, que a tarefa dos matemáticos pode ser descrita como a de mostrar que todas as complexidades existentes correspondem, em última análise, às mesmas banalidades corriqueiras, às mesmas formas elementares, do mesmo modo como as mais complexas tramas são tricotadas com o mesmo conjunto de pontos elementares.

Teorias

A palavra “teoria” costuma ser usada muito corriqueiramente. Apesar disso, creio, as pessoas em geral não têm a mínima ideia do que possa ser tal coisa.

A comparação das tramas matemáticas com o tricô pode ilustrar e esclarecer o papel das teorias utilizadas pelos físicos para iluminar seu conhecimento.

Utilizando-se a lógica e a matemática, pode-se construir um tecido, uma rede de conexões, como uma trama de tricô. A extensão da rede não precisa ter limites, dependendo apenas da habilidade e criatividade dos matemáticos. Atando-se uma rede assim construída, utilizando-se afirmações do tipo “se … , então …”, constroem-se conexões entre sentenças previamente desconexas. Dessa maneira, a teoria conecta, liga conhecimentos, entrelaçando-os em enormes redes.

Agora, conectando-se uma rede teórica a um ponto absolutamente trivial, compartilhado e aceito por todos, pode-se chegar a conclusões anteriormente desconhecidas. Assim, partindo-se de uma crença muito óbvia, simples e indubitável, pode-se chegar, através das conexões tecidas na trama de sentenças do tipo “se isso, então aquilo”, a conclusões inauditas, surpreendentes. Desse modo, a rede lógico-matemática que resulta da teoria tem o poder de conectar sentenças e conclusões das quais, anteriormente, não se suspeitava de qualquer ligação, enquanto a convicção que temos em um determinado fato vai sendo estendida a outros fatos através de sentenças do tipo “se isso, então aquilo”. Decorre daí toda a magia dos cientistas e da tecnologia contemporânea. Esse é o principal instrumento de extração de informações e conhecimentos utilizado hoje.

Acredito que minha versão da teoria da evolução seja a mais clara e concisa existente hoje, e constitua um bom exemplo do que seja uma teoria: ei-la:

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/teoria-da-evolucao-por-gustavo-gollo

Meu texto elucida o que aconteceria em um mundo qualquer, caso surgisse nele um replicador. Como replicadores, por definição, se replicam, com o tempo essa criatura acabaria gerando uma infinidade de réplicas. Sujeitas à seleção natural, tais réplicas se diversificariam gerando uma variedade de novos replicadores. A teoria descreve os desenvolvimentos que ocorreriam em um mundo fictício, e corresponde a verdades de razão.

Quando aplicamos a teoria a nosso mundo, supondo o surgimento de um replicador original, muitas eras atrás, obtemos uma explicação para a vida em nosso planeta. A suposição do surgimento de um replicador transforma a teoria formal em uma teoria empírica.

Desafio o leitor a tentar refutar os argumentos e conclusões propostos em meu texto sobre a evolução, a tentar mostrar que as coisas não sejam daquele modo. Fazendo isso, o leitor estará jogando o jogo da ciência. Os cientistas estão sempre tentando refutar antigas ideias e substituí-las por outras melhores. Se o leitor conseguir conseguir refutar minha teoria, sugiro que prossiga e construa sua própria, descrevendo seus próprios mundos. Um dos lemas desse jogo é: Há sempre uma teoria melhor que as existentes, e eu vou tentar construí-la! Só insisto que a tentativa de refutação da teoria transcorra racionalmente, ou resultará em algo absurdo.

Caso o leitor compreenda o texto e não consiga refutar as conexões racionais nele propostas, terá compreendido os fundamentos da evolução e a aceitará de uma maneira racional. Boas teorias se baseiam, sempre, em fundamentos muito simples cuja aceitação, eventualmente, nos compele racionalmente a aceitar conclusões surpreendentes.

Uma conclusão e um remédio amargo

Creio ter conseguido mostrar duas alternativas racionais aos dogmas, esse modo infantil de aquisição e sustentação de conhecimentos, muito útil em nossos estados iniciais de aprendizado, mas aceitável apenas em tais condições.

O primeiro modo consiste em determinar a convicção de fatos tão banais que não sejam postos em questão por quem quer que se depare com eles. Uma lâmpada que acende ou apaga, em um aparelho de medida, pode fazer esse papel.

O segundo modo consiste na “tecelagem” de redes de sentenças conectadas umas às outras de tal modo que, se aceito uma, devo aceitar a seguinte. Posso construir, assim, imensas redes teóricas que se espalham por um mundo ideal – um mundo de ideias –, construindo e conectando, desse modo, as verdades de razão.

Conectando-se tais redes ao aparelho cuja lâmpada acende, e apaga, estabelece-se a conexão entre as redes teóricas e o nosso mundo: se a lâmpada acende, então… e segue-se a sucessão de conexões lógicas que compõem a imensa rede teórica. (Lembrando que, como ressaltou Popper, uma única refutação é suficiente para demolir toda a convicção na teoria).

O remédio amargo consiste em sugerir ao leitor que esquadrinhe suas próprias crenças e tente justificá-las. Caso não consiga, rotule-as como dogmas, enfatizando, com isso, tratarem-se de crenças análogas às admitidas pelas crianças.

Amaríssimo, suponho, será o remédio aplicado aos cientistas, que perceberão, conforme a intensidade desse sabor, que a maioria de suas crenças se resume a dogmas tão injustificados – para eles –, quanto os dos religiosos (e desde já peço clemência por isso, não me odeiem por ter exposto o mal cuja cura eu proponho).

O remédio é fortemente indicado aos jovens cientistas. Saboreiem-no com a alegria de quem esteja descobrindo um novo sabor e não o temam. Sim, somos profundamente ignorantes – a prerrogativa não é exclusivamente sua –, sejamos humildes.

Atente, jovem cientista, que boa parte daquilo que te foi ensinado foi imposto dogmaticamente, e engolido do mesmo modo. Um sabor amargo lhe subirá à boca ao reconhecer tal fato. O remédio, no entanto, instila sabedoria, e é bem instrutivo. Precisará de coragem, mas convirá reconhecer e colocar em questão todos os seus dogmas, todos os seus prezados conhecimentos que você não tem a mínima ideia de como possam ser justificados. Tentar justificá-los talvez o torne um cientista. Não se tornará um de outro modo. O jogo da ciência não aceita dogmas.

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# epistemologia, #filosofia, #filosofia da ciência, #ciência

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3 comentários

  1. e aí vem as damares e sua

    e aí vem as damares e sua turma e joGA 

    A DÚVIDA CARTESIANA NA LATA DO LIXO…

  2. Pouquissimas pessoas sabem ou

    Pouquissimas pessoas sabem ou se lembram que apos o sucesso estrondoso de “The Selfish Gene” Dorkins lancou seu segundo livro (de uma grande futura serie) chamado “The Selfish Dork”.

    Quase terminou com a propria carreira!

    A planejada serie nao aconteceu…

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