Por que assassinaram Marielle?, por Gustavo Gollo

Para responder a pergunta, devemos retornar ao dia do assassinato, quando a Globo iniciou a apresentação de uma série de reportagens intitulada “A franquia do crime”, na qual denunciava a existência da maior facção criminosa do país: a milícia

Por que assassinaram Marielle?, por Gustavo Gollo

Governo brasileiro e Estado do Rio continuam sofrendo pressões para, a contragosto, solucionar o assassinato de Marielle. Decorridos 19 meses da execução, tanto a polícia, quanto o Ministério Público do Rio, continuam jurando estar à procura dos assassinos, ainda que a insistência no sigilo das informações, após tão longo tempo, faça com que ambos pareçam cúmplices e não investigadores do crime.

Forte pressões recebidas dias atrás, contudo, instigaram a polícia a encenar uma farsa, prendendo várias pessoas ligadas ao acusado pelo crime, por, supostamente, ter dado fim a armas – no plural. O teatro teve como finalidade fingir que as investigações do crime ainda prosseguem.

Eu havia escrito os parágrafos acima quando soube das informações divulgadas pela Globo que revelaram não só a intimidade entre o presidente da república e os acusados pelo assassinato, como sugerem sua participação no crime, ao proporcionar o encontro dos assassinos quando se preparavam para a execução.

A alusão reavivou o interesse no assassinato de Marielle, sem solução até agora, um crime muito falado, mas pouco compreendido.

Nas vésperas de completar um ano do assassinato, polícia e Ministério Público do Rio prenderam 2 acusados pela execução e apresentaram uma história que, pretendiam eles, esclareceria os fatos. A história – ilustrada por imagens falsificadas que impossibilitariam a condenação dos acusados, se apresentadas em um tribunal, consistia em afirmar que, imerso em ódio pela vítima e por tudo o que ela representava, um dos acusados teria decidido matá-la, pedindo ajuda para um amigo que dirigiu o carro que se emparelhou ao da vítima, transformando-a em alvo para o atirador posicionado no banco traseiro esquerdo do carro. Presos os 2 acusados, polícia e MP pretendiam dar por encerrada a solução do caso.

O magro resultado apresentado pela polícia e MP omitia a participação de um segundo veículo no crime, utilizado para fechar e obrigar o carro de Marielle a parar, encostado ao meio-fio esquerdo da via, tornando-a alvo fixo para o atirador. Tanto a descrição dos métodos usualmente empregados pelo Escritório do Crime – nome dado ao bando dos executores –, quanto a presença de um terceiro ocupante no banco do carona do carro dos assassinos – inferida através do reflexo de seu celular no vidro do outro carro –, foram esquecidas pelos investigadores.

O que é o Escritório do Crime?, por Gustavo Gollo

Omissão ainda mais embaraçosa foi a dos mandantes do crime, enquanto a ausência de uma motivação plausível para a execução também se revelou fortemente incômoda. Tal lacuna impediu que o caso fosse dado por encerrado.

Penso que a descoberta dos mandantes da execução exija o conhecimento de sua motivação.

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Por que assassinaram Marielle?

Para responder a pergunta, devemos retornar ao dia do assassinato, quando a Globo iniciou a apresentação de uma série de reportagens intitulada “A franquia do crime”, na qual denunciava a existência da maior facção criminosa do país: a milícia, uma gigantesca facção do crime organizado com ramificações fortíssimas na polícia, no judiciário, no MP, nos meios de comunicação e em todas as instâncias de poder. A constatação de que tanto o presidente da república, quanto o governador do RJ se alinham com a milícia demonstram o imenso poder dessa facção criminosa.

As reportagens da Globo sobre a franquia do crime revelavam a existência de uma estrutura muito similar à das franquias, capaz de propiciar amplo apoio policial, jurídico e dos meios de comunicação a bandos armados alinhados a certa err… ideologia e certas práticas. Milicianos professam, por exemplo, que bandido bom é bandido morto, pressupondo que “bandido” signifique delinquente oriundo de classe social baixa. Tal interpretação exclui do escopo da palavra “bandido”, por exemplo, os assassinos dos “bandidos”, assim como delinquentes oriundos de classes sociais elevadas.

A série da Globo, de qualquer modo, concentrava-se no aumento do monstro, no crescimento descomunal que as milícias vinham experimentando e que as estava tornando incontroláveis.

No dia da estreia da série, 4 policiais milicianos foram presos. No início da noite, Marielle foi executada.

A execução de Marielle consistiu em uma demonstração de poder por parte dos milicianos e na mensagem: – Não mexam conosco, ou nós matamos.

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Anos antes, tentativa similar de controlar as milícias, resultante na prisão de vários policiais milicianos, foi respondida por eles extrema brutalidade, quando policiais milicianos indignados com a ação executaram 29 pessoas em localidades pobres, em protesto contra as prisões, no episódio macabro que ficou conhecido como “a chacina da baixada”, a maior chacina na história do RJ.

O assassinato de uma vereadora parecia propiciar uma mensagem mais precisa, eficiente e “aceitável” que a repetição de uma matança generalizada, como efetuado anteriormente. A mensagem parece ter sido compreendida de imediato pelos primeiros policiais a chegar ao local do crime, que trataram de dispensar as testemunhas que se prontificaram a relatar o ocorrido.

Sob essa interpretação, a execução de Marielle foi uma resposta à tentativa de cerceamento das milícias.

As milícias, em um sentido estrito, são compostas por bandos de policiais, ex-policiais e outras pessoas com treinamento policial dispostas a confrontar quem quer que se lhes oponha, e a impor sua vontade sobre elas, especialmente se mapeadas como oriundas de classes baixas. Tanto o colorido da pele, quanto o endereço da pessoa discriminam drasticamente, aos olhos dos milicianos, o tratamento oferecido às pessoas em geral. A hierarquização da sociedade consiste em uma das incumbências a que se propõem os milicianos.

Em um sentido mais geral, pode-se considerar miliciano todo o sistema de apoio a tais bandos, em especial o oferecido por policiais, juízes, promotores e demais agentes legais. Os meios de comunicação também exercem importante papel tanto para a aceitação de tais criminosos pela população, quanto pelo judiciário, acolhendo-os com uma deferência rara. A diferença entre o tratamento respeitoso oferecido pelos meios de comunicação aos bandidos pertencentes à facção das milícias e o achincalhe proporcionado ao ex-presidente Lula é tão vergonhosa quanto ilustrativa da simpatia com que os meios de comunicação no país acolhem esses criminosos.

Fatos como esse delineiam os milicianos em sentido amplo.

A polícia do RJ está fortissimamente contaminada por milicianos, que provavelmente constituem parte majoritária dessa instituição. Judiciário e MP andam no mesmo nível de envolvimento com essa facção criminosa, ainda que não ponham a mão na massa, deixando a parte suja para milicianos considerados por eles como inferiores. Exceção à regra é dada pelo Governador do Estado, que parece se deliciar em participar de operações inomináveis.

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Assim como o governador do RJ, o Presidente da República, não costuma esconder seu envolvimento com a facção das milícias, exceto em casos como o recente, de envolvimento direto com os assassinos de Marielle, conforme exposto pela Globo. Também é possível que a contiguidade entre o gabinete de Marielle e o de um dos filhos do presidente tenham determinado a escolha do alvo que se tornaria objeto da mensagem.

O episódio revelado pela Globo sugere o envolvimento do Presidente da República com os assassinos de Marielle, fato gravíssimo que tem que ser apurado. Penso que a pior consequência possível de tal caso seja a persistência da suspeita, razão pela qual, o presidente – não tendo nenhuma relação com o caso, como afirma –, deve escancarar todas as investigações realizadas até agora pela polícia, atitude muito simples que, em caso de inocência, o eximirá por completo das acusações.

Quanto às investigações, ganharão imensamente com a quebra do sigilo ao receber o auxílio da população, como ficou evidenciado na descoberta quase imediata da inexistência de interfone no condomínio dos milicianos, consideração extremamente relevante que passou despercebida pela polícia por todo esse tempo.

As considerações acima sugerem que toda a celeuma e suspeição sobre o presidente podem ser aniquiladas com a atitude muito simples de apresentar ao público todo o resultado da longa investigação criminal sobre o caso. Também sugerem, contudo, que a manutenção do sigilo sobre a possível promiscuidade entre o presidente e os assassinos esconda algo sumamente sinistro.

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https://jornalggn.com.br/noticia/conspiracao-2-a-franquia-do-crime/

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