Por que os negros brasileiros votaram em um racista?, por Frederico Rochaferreira

A resposta pode estar nas urnas eletrônicas, as “caixinhas mágicas”, onde o eleitor vota mas não sabe o destino final do seu voto.

Por que os negros brasileiros votaram em um racista?

por Frederico Rochaferreira

Poucos dias antes do segundo turno das eleições que faria de Jair Bolsonaro o 38° presidente do Brasil, o jornal alemão Süddeutsche Zeitung [1], fez a seguinte pergunta: “Por que os negros (brasileiros) escolhem um racista?”.

Haddad [2], que reuniu em torno de si a esperança do Partido dos Trabalhadores de voltar democraticamente ao Poder, depois do golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff [3] e uma lawfare que levou o ex-Presidente Lula à prisão, [4] reunia também a esperança de milhões de brasileiros negros e pobres.

Mas o candidato de extrema-direita que nunca escondeu seu discurso racista, misógino e homofóbico, surpreendeu no primeiro turno das eleições com 49.276.990 votos, enquanto Haddad, obtinha 31.342.005.[5] O resultado desse primeiro turno era um mau prognóstico para a esquerda e se confirmaria no segundo turno das eleições, quando Jair Bolsonaro obteve 57.796.986 votos (55,13%) contra 47.038.963 votos, (44,87%) de Fernando Haddad,[6] sendo que Bolsonaro, venceu em quatro Estados onde o Partido dos Trabalhadores não perdia uma eleição desde 2002 (Amazonas, Amapá, Minas Gerais e Rio de Janeiro). [7]

Tudo na vitória de Bolsonaro surpreendia, seja o número total de votos, seja a vitória nos Estados onde o Partido dos Trabalhadores e o ex-presidente Lula tinham ampla maioria, seja pelos votos de negros e pobres, seus inimigos naturais, [8] lembrando que 56% da população brasileira é negra, o que corresponde a 108,9 milhões, de um total de 209,2 milhões de habitantes do país [9] e os negros são 75% entre os mais pobres,[10] por isso, a surpresa de brasileiros e da imprensa internacional com o resultado e os dados das eleições presidenciais que levaram o ex-capitão, candidato dos militares ao Poder no Brasil. [11]

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O questionamento do jornal alemão Süddeutsche Zeitung é uma pergunta direta à cientista política Mariana Llanos, que justifica o voto de negros e pobres ao candidato de extrema-direita, ao sentimento de medo dessas populações, que dividem o cotidiano de suas vidas com a criminalidade nas favelas. Mariana vê na promessa de endurecimento contra o crime, do candidato Bolsonaro, essa virada de intenção de votos.

Mas a resposta pode estar além da violência nas favelas, onde a população morre em grande medida, não por conta da marginalidade local, mas por conta de ações desastradas das forças policiais [12].

A resposta pode estar nas urnas eletrônicas, as “caixinhas mágicas”, onde o eleitor vota mas não sabe o destino final do seu voto.

Em 2012, um jovem hacker brasileiro revelou diante de um auditório perplexo, na Sociedade de Engenheiros e Arquitetos do Rio de Janeiro, como fraudou as eleições municipais daquele ano no Estado, interceptando dados alimentadores do sistema de totalização, sem que a fraude fosse jamais detectada.[13]

Em todo o mundo, especialistas em segurança eletrônica vem alertando para a vulnerabilidade das urnas eletrônicas, porque é falha e de fácil manipulação, independente de qualquer “certificação” que possa ter recebido. [14,15,16,17]

Para Avishai Wool, da Universidade de Tel Aviv, as urnas eletrônicas pela facilidade de fraude, “representa um perigo para a democracia”.[18]

Em 2006, a Irlanda abortou o projeto das urnas eletrônicas porque os eleitores não aprovaram a ideia de votarem sem receber o comprovante físico do voto e foi além, tornando o voto eletrônico inconstitucional,[19] França [20] e Holanda [21] também desistiram da utilização das urnas eletrônicas depois de ouvir especialistas.

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No Brasil, o Congresso decidiu em 2015, que as eleições de 2018 continuariam sendo realizadas com urnas eletrônicas, mas com o voto impresso,[22] que seria conferido pelo eleitor e depositado em urna lacrada, mas, faltando cinco meses para as eleições, o Supremo Tribunal decidiu que não haveria voto impresso, [23] preferindo não mexer na vulnerabilidade das urnas eletrônicas, por isso, não é seguro dizer que Bolsonaro venceu as eleições com os votos de negros e pobres ou que negros e pobres votaram em Bolsonaro, é mais seguro dizer que as urnas eletrônicas deram a “vitória” a Jair Bolsonaro.

É sempre bom ter em mente que, se nos países desenvolvidos o problema maior para a não utilização das urnas eletrônicas é a possibilidade de erro, no Brasil, o problema maior, é a possibilidade de fraude.

Referências:

  1. https://www.sueddeutsche.de/politik/interview-am-morgen-wahl-in-brasilien-warum-schwarze-einen-rassisten-waehlen-1.4163726

  2. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/07/jair-bolsonaro-e-fernando-haddad-decidirao-eleicao-para-presidente-no-segundo-turno.ghtm

  3. https://www.dw.com/pt-br/uma-injusti%C3%A7a-hist%C3%B3rica-o-impeachment-de-dilma-rousseff-na-imprensa-alem%C3%A3/a-19517970

  4. https://www.theguardian.com/world/2018/jun/08/brazils-ex-president-lula-imprisoned-to-keep-him-out-of-the-election-letters

  5. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/07/jair-bolsonaro-e-fernando-haddad-decidirao-eleicao-para-presidente-no-segundo-turno.ghtml

  6. http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/com-100-das-urnas-apuradas-bolsonaro-teve-577- milhoes-de-votos

  7. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/10/29/bolsonaro-vence-em-4-estados-que-eram-redutos-do-pt-desde-2002.ghtml

  8. https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/09/opinion/1539102091_173002.html

  9. https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/

  10. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/11/13/percentual-de-negros-entre-10-mais-pobre-e-triplo-do-que-entre-mais-ricos.htm

  11. https://www.brasildefato.com.br/2018/10/13/presenca-militar-se-intensifica-na-campanha-bolsonaro/

  12. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/08/20/policias-mataram-881-pessoas-em-6-meses-no-rj-nenhuma-em-area-de-milicia.htm

  13. http://folhacentrosul.com.br/comunidade/3169/hacker-de-19-anos-mostrou-como-fez-para-fraudar-eleicoes-no-rio-de-janeiro

  14. http://avirubin.com/vote.pdf

  15. http://www.haaretz.com/print-edition/news/researchers-at-tau-claim-computerized-voting-system-unsafe-1.284209:

  16. https://citp.princeton.edu/research/voting/

  17. https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00085071/document

  18. http://www.haaretz.com/print-edition/news/researchers-at-tau-claim-computerized-voting-system-unsafe-1.284209:

  19. http://www.newsweek.com/europe-rejects-digital-voting-machines-80085

  20. https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00085071/document

  21. http://wijvertrouwenstemcomputersniet.nl/images/9/91/Es3b-en.pdf

  22. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/12/28/eleicoes-terao-voto-impresso-a-partir-de-2018

  23. https://g1.globo.com/politica/noticia/relator-no-stf-admite-impressao-de-votos-mas-diz-que-implantacao-pelo-tse-pode-ser-gradual.ghtml

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8 comentários

  1. Duas razões bem simples.

    A primeira é que imbecilidade não têm cor, credo ou classe social.

    A segunda é que em um país como o Brasil, eleições SEMPRE são fraudadas em algum grau. O playboy da cocaína ficou enfurecido com o resultado das eleições porque tinham garantido para ele que a manipulação iria funcionar (o que só não aconteceu porque a consciência de um técnico ficou pesada).

  2. Negros, pobres, e negros pobres estavam defendendo esse governo nas redes sociais por todo 2019.
    Com dois deles, funcionários pobres, um da padaria e outro do jornaleiro, e cheguei a brigar pessoalmente, pelo apoio deles ao Boçal.
    Não dá pra esconder.

  3. Se foram as urnas eletrônicas que deram a vitória a Jair Bolsonaro, por que ele continua a questioná-las, reafirmando a necessidade do voto impresso?

    • Por que é o que a claque quer ouvir. Vocifera quando ataca e se aproveita das falhas do sistema, comendo pelas bordas!

  4. Fantástico o raciocínio do autor. Como ele acha que Bolsonaro é racista, não lhe passa pela cabeça que outras pessoas, de qualquer cor, tenham outra opinião.

    Quanto às urnas eletrônicas, sempre existirão dúvidas enquanto o voto não for também impresso e o resultado rápido que o sistema oferece não puder ser conferido fisicamente depois. Mas isso vale para todos os lados do espectro político e, sejamos justos, Bolsonaro foi um dos que mais se bateu até hoje pela impressão do voto. Vamos cobrar isso de quem tem resistido ferrenhamente à ideia.

  5. Há diversas maneiras de fraudar uma eleição antes de fraudar as urnas:
    1. Prender o candidato com maior probabilidade de vitória.
    2. Permitir as campanhas de propaganda financiadas por empresas privadas.
    3. Obter o apoio de uma imprensa falida, corrupta e oligopolizada.

    A fraude das urnas também possui várias formas:
    1. Inserir códigos maliciosos nas urnas (vírus).
    2. Interferir nos sistemas de transmissão e contagem de votos (como mencionado).
    3. Inserir votos dos eleitores ausentes por meio do teclado de abertura do voto com a ajuda de mesários e fiscais corruptos.

    Você faria depósitos num banco que não fornece recibo?

  6. SÍNDROME DE ESTOCOLMO
    Sou negro, portanto ninguém pode dizer que sou racista, porque estou atestando aqui o resultado de convivência diária com parentes, amigos e outras pessoas, na vida hodierna.
    A maioria dos negros sofrem da Síndrome de Estocolmo ou, no popular, “gosta de apanhar” igual mulher de malandro.
    Não são todos, mas, infelizmente, a maioria é assim.
    É a falta de auto-estima, brio e/ou falta de respeito por si próprio.
    Por quase 500 anos os negros foram humilhados, desqualificados, tratados como animais (escravidão).
    Mesmo alcançado a liberdade em 1888, a desqualificação perdura até os dias atuais.
    Com efeito, fazer genuflexão ao senhor branco dominante é uma forma de tentar ser aceito na sociedade de formato euro-americano, com gente loira de olhos azuis, ainda que na América do Sul.
    É triste, mas é fato.

  7. Não há dificuldade nenhuma em responder: simplesmente a maioria do eleitorado não é negra. A ficção de que 56% da população brasileira seria negra não é um fato natural, mas uma construção ideológica, ao classificar como negro qualquer indivíduo que tenha a tez mais ou menos escura, mesmo que não tenha nenhuma ancestralidade africana. Neste epíteto “negro” de sentido ideológico não vai uma identidade racial, mas uma escolha por pertencimento a um grupo auto considerado “oprimido pelo branco”, coisa que não faz sentido para a maioria do povo.

    A cientista política Mariana Llanos deu a explicação óbvia: a população pobre votou em Bolsonaro porque ele foi o único que prometeu algum endurecimento contra os bandidos, demanda esta que tem sido sistematicamente ignorada pelo PT. Por estarem convencidos de que representam os anseios da população pobre, e perplexos por verificarem o contrário no resultado dos pleitos eleitorais, os petistas se refugiaram em uma miríade de teorias conspiratórias, como essa de apontar a fragilidade da urna eletrônica. Fica difícil explicar porque justamente Bolsonaro é contra a urna eletrônica…

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