Por que populistas de direita são tão fortes no leste da Alemanha

Três estados da antiga Alemanha Oriental vão às urnas e podem dar vitórias históricas à AfD, partido que abriga políticos com ideias racistas e extremistas. O que explica essa inclinação populista na região?

"Neutralidade e unidade trazem liberdade à Alemanha": manifestantes em Leipzig em janeiro de 1990

Por Marina Strauß

Na DW Brasil

Sem o movimento por direitos civis da antiga República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha seria bem diferente hoje em dia. Há 30 anos, dezenas de milhares de ativistas contribuíram para a queda do Muro de Berlim e para a reunificação de um país que esteve dividido por décadas. Cidadãos da antiga Alemanha Oriental foram às ruas por mais liberdade e direitos humanos. Agora, às vésperas de eleições em três estados do leste, os slogans dessa época foram apropriados por outro grupo.

Populistas de direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) fazem campanha com frases populares da revolução pacífica que resultou no fim da RDA, como “O leste levanta” ou “Torne-se defensor dos direitos civis”. Alemães vão às urnas para eleições parlamentares regionais nos estados da Saxônia e de Brandemburgo neste domingo (01/09), e na Turíngia no final de outubro.

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Os slogans escolhidos pela AfD fazem referência aos anos pós-reunificação, que para muitos cidadãos da antiga Alemanha comunista foram marcados por frustação, decepção e promessas não cumpridas.

Em seu site, a AfD compara a atual Alemanha com a antiga RDA. “Quem hoje pensa diferente é tão oprimido quanto se era pela Stasi”, diz o texto. O serviço secreto da Alemanha Oriental espionou opositores, intimidou dissidentes e violou massivamente os direitos civis.

“É como estar na RDA novamente”, disse Björn Höcke, líder da ala de extrema direita do partido, que nunca viveu no leste durante o período comunista. Höcke comanda a AfD na Turíngia e vem da Alemanha Ocidental. Mesmo assim, acha que pode dizer que “não fizemos a revolução pacífica para isso, queridos amigos”.

Apesar de a Alemanha ser um Estado democrático de direito, essas declarações alcançam algumas pessoas. Nos três estados do leste alemão, pesquisas indicam que os populistas de direita podem conquistar a maioria dos votos nas eleições regionais, mesmo com políticos da legenda expondo abertamente ideias de extrema direita e fazendo frequentemente comentários racistas.

Segundo pesquisa Emnid divulgada em meados de agosto, 24% dos eleitores do leste alemão votariam na AfD em pleitos nacionais. Nos antigos estados da Alemanha Ocidental, esse apoio cai para 12%.

Sentimento de decepção

“Muitas pessoas da antiga RDA estão desapontadas, se sentem incompreendidas e invisíveis para a maioria da sociedade no oeste”, afirma a socióloga Judith Enders. Isso se deve ao fato de que os alemães do leste correspondem a apenas 17% da população do país. Mais importante é, no entanto, sua falta de representação na sociedade alemã como um todo, acrescenta a especialista.

Alemães do leste ocupam apenas 1,7% de todos os cargos de alto escalão na economia, política e administração do país. Depois da reunificação, a elite socialista da RDA foi substituída por alemães ocidentais. Segundo Enders, esse modelo de elite continua se reproduzindo até hoje, depois de 30 anos.

A socióloga, que nasceu e cresceu no leste, fundou uma iniciativa para mudar a forma de pensar sobre o termo “leste”, transformando-o num conceito mais autoconfiante e ofensivo. Mas nem todos antigos cidadãos da RDA conseguem isso. “Alguns se afastam”, conta Enders. Após 30 anos da reunificação, muitos ainda sentem como uma ofensa coletiva.

De acordo com estatísticas, alemães do leste ganham relativamente menos do que os ocidentais. Além disso, desde a queda do Muro, centenas de milhares, principalmente jovens, deixaram os estados da antiga RDA. Os que permaneceram enfrentaram o colapso da economia da Alemanha Oriental e elevadas taxas de desemprego. Em média, a taxa de desemprego no leste é de 6,6% atualmente, enquanto no oeste é de 4,7%.

Cerca de 40 mil pessoas participam de protesto por mais solidariedade em Dresden

Cerca de 40 mil pessoas participam de protesto por mais solidariedade em Dresden

Contudo, as consequências da reunificação não explicam sozinhas o sucesso eleitoral dos populistas de direita. Um estudo da Universidade de Leipzig mostrou que, no leste, quase um em cada dois entrevistados tem certas reservas contra estrangeiros e minorias. Em toda a Alemanha, essa posição é compartilhada por uma em cada três pessoas.

Nos últimos anos, frequentemente o “leste” estampou jornais com manchetes negativas, seja pelo movimento xenófobo Pegida (sigla em alemão para “Patriotas europeus contra a islamização do Ocidente”), por ataques a imigrantes ou pela onda de atos violentos da extrema direita em Chemnitz.

Contra a ideia do leste como refúgio da direita

Muitos cidadãos da RDA se opõem à percepção do leste como um refúgio da direita. As iniciativas “Quando, se não agora” e “Partida para o leste” lutam contra o racismo e também buscam debater como os alemães do leste foram percebidos durante e depois da RDA. Sob o lema “Verão da solidariedade”, foram organizados nos antigos estados orientais concertos, leituras e painéis de discussão.

Em 24 de agosto, as duas iniciativas promoveram em Dresden a passeata #Unteilbar (Indivisível), por mais solidariedade e menos exclusão. “Nós exigimos uma clara delimitação frente ao racismo”, afirmou a porta-voz do coletivo #Unteilbar, Ana-Cara Methmann.

Ela mora em Leipzig, na Saxônia, cidade onde o Partido Verde conquistou em maio a maioria nas eleições europeias, com 20,2%. A AfD recebeu 15,5%, o pior resultado do estado.

A Alemanha não está dividida apenas entre leste e oeste, mas também entre cidade e campo.

Muitas vezes são questões práticas que causam a ruptura no cotidiano das pessoas. Um ônibus que passa apenas duas vezes por dia, uma estação de trem que fica a 20 quilômetros. Methmann, que dá palestras em toda a Saxônia sobre discriminação, por exemplo, vivenciou essa situação. Segundo ela, os conservadores da CDU, que governam o estado há décadas, contribuíram para o avanço da AfD na região.

“As verbas para trabalho com os jovens foram reduzidas e muitos centros para jovens, fechados”, afirma a porta-voz do #Unteilbar. Para ela, o melhor meio para conter o avanço da extrema direita é criando oportunidades para pessoas participarem ativamente da vida social e fortalecendo tanto indivíduos quanto iniciativas democráticas.

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2 comentários

  1. A Alemanha é um país sui generis. Por contado nazismo, existe um trauma constante nessa sociedade. A AFD, Alternativa para a Alemanha, sofre uma perseguição pela esquerda socialista alemã indevida. Se há alguém que é contra o nazismo é justamente a AFD. Tanto é que há um grupo de judeus laicos e rabinos dentro da AFD. Por isso essa questão é somente uma luta de poder partidário. A base da AFD é a luta contra a imigração, especificamente a imigração islâmica. Para que se compreenda isso, basta alguns cristão ir na Arábia Saudita e tentar pregar publicamente o evangelho cristão (ou qualquer outra doutrina que não o Islã) e entenderá qual é o nazismo que a AFD se insurge contra. “Nazismo” esse que desde o séc XI tenta invadir a europa e dominar pelas armas esse continente e transformar em cidadãos de segunda categoria quem não se converter ao islâ como, por exemplo, através do pagamento da jizia. Vejam a situação dos cristão coptas no Egito hoje. O 11 de setembro não é nada mais que uma revanche da derrota islâmica ao cerco de Viena, que tinha como objetivo franquear o núcleo da europa ao islamismo. Mas a esquerda alemã é histérica e não consegue enxergar o óbvio. E o faz porque essa narrativa é útil à manutenção da CDU (o partido “Democrata Cristão” de Merkel, que de cristão não tem nada) e do SPD (os Sociais-Democratas) no poder. Então essa conversa de que a AFD é populista e de direita é uma grande mentira, e o GGN não deveria embarcar no discurso fácil que a DW, que é uma midia chapa branca da CDU, propaga.

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