Porque a Economia Brasileira não tem um Crescimento Sustentado em longo prazo: Parte III, por Fernando Nogueira da Costa

O crédito público deve priorizar a concessão de maior escala às MPME (Micro, Pequenas e Médias Empresas) de empreendedores. Além disso, o financiamento habitacional, cuja demanda para cobrir o déficit é perene, é crucial para a retomada do crescimento.

Porque a Economia Brasileira não tem um Crescimento Sustentado em longo prazo: Parte III – Abordagem do Mercado Interno

por Fernando Nogueira da Costa

A participação brasileira na exportação global é muito diminuta: 1,2%, pouco acima da parcela de 0,9% na importação global. Há uma concentração progressiva inequívoca de commodities na pauta de exportação brasileira desde o início da década passada.

A participação de sete produtos em relação ao total exportador se elevou de 25,2% no ano 2000 até 51,4% em 2011, quando ocorreu a explosão da “bolha de commodities”. Mas, desde então, tem mantido uma faixa entre a mínima de 45,4% em 2016 e a máxima de 50,2% em 2018. Neste último ano, a participação de cada um desses sete produtos no total pela ordem foi: complexo soja (17%), petróleo (10%), minério de ferro (8%), complexo carne (6%), celulose (4%), açúcar (3%), e café (2%).

É interessante destacar, sem serem commodities, Materiais de Transporte se colocou no segundo posto do ranking de todas as exportações brasileiras com 12% de participação. Outros manufaturados também se destacaram: metalúrgicos (7%), químicos (6%), equipamentos mecânicos (4%), elétricos-eletrônicos (1%).

Nesse sentido, há de reconhecer certa diversidade setorial da economia brasileira, bastante distinta de sua fase da monocultura cafeeira, quando se caracterizava como primário-exportadora. Não se pode esquecer: o Brasil tem 8,4 Km2, o quinto maior território no mundo, um PIB nominal de US$ 1,9 trilhão, uma participação de 2,5% no PIB global. Seu PIB por PPC (Paridade do Poder de Compra) é de US$ 3.248 bilhões (abaixo de China, Estados Unidos, Índia, Japão, Alemanha, Rússia, Indonésia, e acima da Inglaterra e França entre os dez maiores). Com a quinta população (210 milhões), seu PIB per capita é estimado em US$ 14,3 mil, situado em vergonhoso 108º lugar pelo ranking The World Factbook. É um país rico com predominância de habitantes pobres.

Seu grau de urbanização (86%) é muito elevado se comparado ao de outros grandes países. Por exemplo, a China tem apenas 58% de sua imensa população em cidades, mas são 804 milhões habitantes urbanos contra 181 milhões no caso brasileiro.

Por essa característica acentuadamente urbana, merece uma atualização o debate público em torno dos potenciais “motores de crescimento” da economia brasileira: serviços representavam 2/3 do valor agregado a preços básicos entre 2000 e 2005, mas nos últimos anos da série histórica da Contas Nacionais já atinge quase ¾: 73,3%. Enquanto isso, a agropecuária se mantém nos últimos dezenove anos em torno de 5% e a indústria geral caiu de 28,5% em 2005 para 21,6% em 2018, sendo a queda da indústria de transformação no mesmo período de 17,4% para 11,3%. O que fazer?

Primeiro, vale retomar uma abordagem estruturalista distinta daquela nacional-desenvolvimentista dos anos 50s quando objetivava apontar a carência de um setor industrial pujante. Agora, os economistas necessitam aprender a analisar o antes considerado Setor Terciário até mesmo em ordem de importância. Hoje, predominam as atividades de serviços, cuja definição necessita ser revista. Ela se define pela baixa produtividade no encontro de um produtor direto com um consumidor da prestação de serviço, quando é presencial e individual. Mas boa parte dos serviços passou a ser remota, digital ou virtual – e massiva, por exemplo, na educação à distância.

Para dar números à comparação de ocupações por grupamentos de atividade, retirando os setores antes considerados “produtivos” – construção (7,1%), agropecuária (9,2%), e indústria de transformação (11,4%) inclusa em indústria geral (12,7%) –, no 1º trimestre de 2019, sobravam 71% das ocupações em serviços: transporte, armazenagem e correio (5,2%), outros (5,3%), alojamento e alimentação (5,9%), serviço doméstico (6,7%), informação, comunicação, atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas (11,4%), administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde e serviços sociais (17,4%), comércio e reparação de veículos (19,1%).

Em relação a 2012, registraram quedas de seus percentuais na ocupação total: a agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (de 11,7% para 9,2%); a Indústria Geral (de 14,7% para 12,7%); informação, comunicação e outras atividades terciárias (de 13% para 11,4%); e a Construção (de 8% para 7,1%). Esta é uma tendência histórica – queda do “trabalho produtivo” – e não apenas um ciclo conjuntural.

Com a 4ª Revolução Industrial (automatização robótica das fábricas) e a inteligência artificial aplicada a todas atividades, a tendência tecnológica é de dispensa do trabalho humano. Isso não é esperado apenas em áreas exigentes de conhecimento digital sofisticado e de cuidadores de crianças, estudantes, doentes, idosos – e da segurança pública. Com o desemprego massivo e a concentração de renda e riqueza em mãos dos acionistas do trabalho robótico, a violência urbana poderá aumentar ainda mais.

No 1º trimestre de 2019, só 21,6% das pessoas sem instrução e menos de um ano de estudo estavam trabalhando. Menos da metade das pessoas até o ensino fundamental encontraram ocupações. Com ensino médio completo 64% estavam ocupadas. No grupo das pessoas com nível superior completo, o nível da ocupação chegou a 76,4%.

A distribuição da desocupação por nível de instrução mostrava 10% ser a participação de pessoas com Ensino Superior completo e 7% incompleto. Por sua vez, 44% desocupados no Brasil não completaram o Ensino Médio e 39% tinham o completado.

Ao longo da série histórica, a maior taxa de desocupação foi observada no grupo formado por pessoas sem sucesso em completar o Ensino Médio, atingindo 24,1% no 1º trimestre de 2017. Quem completou o Ensino Superior teve sua taxa de desocupação crescente a partir de 2015, mas só atingiu o máximo de 6,9% no 1º trimestre de 2019.

Com essa taxa de desemprego (6,9%), se 10,4% era a participação de graduados na população desocupada composta por 13,387 milhões de pessoas, por uma “regra de três” se pode deduzir: o total de pessoas com Educação Superior completa estimado pela PNADC era de 20.177.507. Este número era 22% da população ocupada: 91,863 milhões de pessoas. É quase o dobro do registrado no Censo de 2010, mas se justifica porque o número médio de concluintes por ano nesta década ultrapassa um milhão, tendo atingido em 2017, último ano censitário da Educação Superior, 1.199.769.

Na distribuição de 91,863 milhões pessoas ocupadas por posição na ocupação do trabalho no 1º. Trimestre de 2019, 47,9% (44 milhões) eram empregadas no setor privado, 6,6% (6,1 milhões) eram trabalhadores domésticos, 12,4% (11,4 milhões) trabalhavam no setor público, 4,8% (4,4 milhões) como empregadores, 25,9% (23,75 milhões) por conta própria, e 2,4% (2,1 milhões) como trabalhadores familiares auxiliares. Se compara os rendimentos médios reais habituais dessas pessoas ocupadas, destacam-se como maiores o de empregador com CNPJ (R$ 6.111) e o de militares e funcionários públicos estatutários (R$ 4.169).

O rendimento médio de todos os trabalhos era R$ 2.291. Quem tinha apenas ensino médio receberia essa média dos rendimentos dos trabalhadores ocupados e estava limitado à faixa de renda até 80% da pirâmide social. Metade dos trabalhadores recebiam até R$ 1.171, ou seja, somente até 17% acima do salário mínimo.

A dedução óbvia, para o social-desenvolvimentismo, é a necessidade priorizar a manutenção da política pública de massificação do Ensino Superior. Ela propiciará não só a capacitação profissional requisitada ao enfrentamento dos desafios da atual revolução tecnológica, mas também a mobilidade social adequada à ampliação do mercado interno necessário à sustentação do crescimento econômico em longo prazo.

Essa Educação Superior não deve mais só focalizar a formação de futuros assalariados, inclusive com a cultura de Sociologia e Filosofia, indispensável em ensino de excelência. Neste se forma não apenas profissionais para empresas, mas cidadãos pensantes, autônomos e completos. É necessário também complementar a formação com noções de criatividade e empreendedorismo. Vivenciamos agora um mundo de startup: um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável.

Segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), aumentou a parcela de jovens (de 18 a 24 anos) entre os empreendedores no Brasil em 2018. Ano passado, essa faixa etária representava 22,2% do total, contra 17,1% em 2013. Ampliando-se a faixa etária até os 34 anos, representam 50,5% do total de empreendedores no país.

Aumentou também a quantidade de pessoas empreendedoras por oportunidade de negócio: 61,8% em 2018 contra 56,5% em 2015. Em contraposição, 37,5% abriram um negócio por necessidade de enfrentamento da crise econômica.

Em 2012, os trabalhadores por conta própria somavam cerca de 20,5 milhões. No 1º trimestre de 2019, alcançaram 23,750 milhões, ou seja, mais de três milhões.

O “capitalismo de compadrio” por parte dos bancos públicos com grandes corporações tem de ser repensado. Incentivá-las a captar recursos via debêntures no mercado de capitais, só propiciando taxas de retornos alavancadas em novos projetos estratégicos de infraestrutura. O crédito público deve priorizar a concessão de maior escala às MPME (Micro, Pequenas e Médias Empresas) de empreendedores. Além disso, o financiamento habitacional, cuja demanda para cobrir o déficit é perene, é crucial para a retomada do crescimento. Esta não depende da pressuposta panaceia por conta da “volta da confiança empresarial pela reforma da Previdência”. É necessário deixar de ser psicólogo econômico para analisar a economia como sistema complexo, no caso, tratar objetivamente o complexo de inferioridade do Brasil perante o resto do mundo.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com. 

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3 comentários

  1. Por que o Estado Brasileiro e suas Elites não precisam de Indústrias nem Empregos. Esta casta se sustenta do Estado e da exploração dele. Para que transformar o Minério de Ferro da Vale do Rio Doce em Aço? E o Aço em Produtos? Basta estar empossado no Ministério que comanda este Setor. Suas Diretorias e Institutos. Basta ser Diretor ou Conselheiro em alguma vaga na Empresa Estatal. Se o Parasitismo chegar ao limite. Vende-se um pedaço da Empresa. Vende-se a Liberdade Nacional. Vende-se a Água. Vende-se o Ar. Vende-se Território,…Agências Reguladoras para dar “Credibilidade” e “Garantias Legais’ ao Processo. Logicamente um Cargo Altamente Remunerado nas Diretorias destas Agências Reguladoras. Não podemos deixar Investidores Estrangeiros constrangidos com Risco Brasil !!!! Quando o Processo estiver totalmente saturado e esgotado, e não for possível mais se segurar neste Parasitismo, vende-se a Nação, vende-se sua Economia, Soberania, Empresas. Não é o que fizemos com a EMBRAER?!! Com um simples porém. A EMPRESA BRASILERA DE…deixou de ser a EMPRESA BRASILEIRA DE…Mas isto é só detalhe !!!!!!!!!! Mas não sejamos mais HIPÓCRITAS nestas discussões, não é mesmo? Estamos nesta ‘miséria de país’ de terça a quinta, quando compromissos nos obrigam. Ou a cada 15 ou 20 dias, por força de manter nossas posições. Esposa. Marido, Filhos, Netos, Família, Cachorros, Gatos, Sogro, Sogra, Empregados, já moram em algum País Capitalista Imperialista Colonialista Racista ‘Meritocracista’ (que nossa Esquerdopatia tanto abomina), se alfabetizando em Língua Inglesa e se formando em Harvard (afinal qualquer um tem Diploma de Harvard, não é mesmo?). Pode até ter o Trump. Mas em compensação tem cada Shopping Center !!!! E os Preços?!!!! Salários, Aposentadorias ou Pensões Nababescas depositadas diretamente na Nossa Nova Pátria. Aquele Atraso QuintoMundista ficou para trás !!! Quem precisa de EMPREGOS? E de EMPRESAS? E de EMPRESÁRIOS ( estes ‘covardes’ exploradores do Trabalhador Brasileiro!!) Pobre País Rico. E dizem que não sabem como chegamos aqui depois de 88 anos de Projeto tão vitorioso?

  2. ‘measures everything except that which is worthwhile’

    ‘…nothing but the chance to live out their lives in purpose and happiness, winning what satisfaction and fulfillment they can…’

    Robert F. Kennedy

    Na dita ciência econômica, praticada nestes tempos, predomina o fetiche pelos números.

    A evolução do número A para o B, sem levar em conta as perdas provocadas, porque isto não faz a conta da riqueza nacional. Assim, é fácil demonstrar a evoluação do agronegócio, sem descontar os custos ambientais e de saúde gerados, pois escolheu-se apenas, demonstrar um ganho hipotético.

    Ganho de quê? para quê? ou mais especificamente no modo capitalista: para quem?

    A economia brasileira, diante do parâmetro do PIB, sempre parece patinar e sempre haverá a mesma gama de ‘soluções’ apontadas por nossos brilhantes economistas: mais trabalho, mais capital e mais tempo.

    Ensina o ilustre professor que devemos optar pelo investimento em conhecimento, mas como investir em conhecimento altamente técnico em um país que sua maioria não sabe fazer contas? tampouco sabe raciocinar de modo ordenado?

    E ao fim, porque devemos ensinar alguém a explorar outro? Ensiná-lo a tomar para si, de modo quase ilimitado todo o esforço de outrem, e ainda assim, considerá-lo inferior que paternalmente, deve se contentar com sua posição e as sobras que caem das mesas dos felizardos.

    Isto, a meu ver, é a causa principal da revolta do homem comum contra os letrados da academia. Uma academia que favorece a ideia de ser uma elite (mesmo que de fato, não seja) que despreza o homem comum sem procurar retribuir o esforço daqueles que lhe garantiram o acesso a este conforto.

    Opõe a riqueza material à riqueza do conhecimento, pois são riquezas apenas de adorno: nenhuma delas os transformou em pessoas melhores. Nenhuma lhes deu o sentimento de humanidade.

    Porque estamos aqui? Para fazer valer a presunção judaico-cristã de dominarmos a tudo e a todos? Para demonstrar que somos diferentes e superiores a todos que não partilham nossos credos?

    Como lembra Robert Kennedy, isto se torna uma ameaça inconsciente de violência. Aonde foi parar a consciência de que nem tudo que pode ser contado, de fato conta? que o que diz tais números sobre o valor verdadeiro?

    Nosso país manifesta sempre o orgulho de ser generoso e compadecido. Talvez seja verdadeiro, talvez não. Mas o fato é que ninguém da academia jamais se preocupou em medir. Há ensaios de fora do país que demonstram que o brasileiro médio, contribui muito pouco com instituições. Isto desmascararia nossa fama?

    Ainda assim, por algum tempo, antes que o ódio político e classista irrompesse, o brasileiro comum achava natural um sujeito rico e outro pobre, convivendo na praia. Curiosos com seus modos de vida diversos, crendo que afinal, somos todos brasileiros. Generosamente, estendia tal amizade aos estrangeiros, que embaraçados, não entendiam um comportamento que inicialmente julgavam pueril e servil, para quando voltarem aos seus países, lembrarem que afinal o que nos diferenciava era tornar a vida mais leve.

    Afinal, o que mais importa, senão aliviar o fardo que a vida representa?

  3. É mentira que 86% vivem nas cidades..O critério de consideração de urbanziação é equivocado..Qualquer municipio de menos de 10.000 HABITANTES é considerado urbano..Por favro!!!.Há que se ter outra avalição..Existe um estudo denominado CIDADES IMAGINÁRIAS. do Jose Ely da veiga que desmascara essa falácia..http://www.revistas.usp.br/geousp/article/download/123804/119990/

    CIDADES IMAGINÁRIAS:
    O BRASIL É MENOS URBANO DO QUE SE CALCULA
    Veiga , José Eli da
    Campinas – São Paulo, Editores Associados, 2002
    Ana Fani Alessandri Carlos *

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