Pragmatismo e violência, o que o Brasil pode esperar?, por Fernando Horta

Bolsonaro enxerga o “petista infiltrado” e o “esquerdista sabotador” em tudo o que olha. Estas duas figuras corporificariam todo o mal do mundo e seriam responsáveis pelos fracassos de seu governo.

Pragmatismo e violência, o que o Brasil pode esperar?

por Fernando Horta

O fascismo se caracteriza, essencialmente, pela construção narrativa de uma realidade paralela em que tanto os líderes, quanto seus apoiadores se entendem como reserva moral das sociedades e dos tempos. Como um fenômeno complexo, há muitas formas de se abordar o fascismo, apontando a inúmeros campos do saber, desde a psicologia até as artes. Contudo, um ponto em comum em todas estas abordagens é a negação das realidades empiricamente constatadas em detrimento a uma forma de compreensão do mundo que se baseia exclusivamente nas formas torpes e mal-acabadas de entendimento que os fascistas constroem em um diálogo mudo com seus correligionários.

Para Hitler, a Alemanha era uma sociedade pacífica e voltada ao crescimento até que foi vilipendiada e assaltada durante a Primeira Guerra Mundial e, permitiu-se “miscigenar” com “populações inferiores” e contaminar com a forma “judaica” de pensamento. Mussolini acreditava que a Itália fora afastada dos caminhos de sua grandeza (que remontavam ao império romano) por países que tinham medo da “grandeza da Itália”. A carta do “nacionalismo” joga papel indiscutível aqui, junto com a criação de um passado que nunca existiu e que serve não apenas como ponto de nostalgia, mas como um modelo de futuro. O fascismo inverte a experiência do tempo buscando no modelo de um passado inexistente todas as qualidades que promete alcançar.

Não é à toa que Bolsonaro sente saudades do “período militar”. Trocados os nomes, para o fascista brasileiro, “países imperialistas” estão tocando fogo na Amazônia para evitar que o “Brasil seja grande de novo”. É o mesmo mecanismo de criação narrativa de um passado inexistente que serve tanto como mote de criminalização dos opositores no presente, quanto como ponto de obsessão futuro. As explicações do porquê aquele passado perfeito foi desfeito ou porque no presente (governo) é tão difícil avançar ao futuro imaginado sempre parte da construção de inimigos atemporais. Sujeitos coletivos inomináveis e não raro inexistentes são responsabilizados pelos fracassos do passado e do presente em função das decisões absurdas dos fascistas.

Para Hitler existia a figura do “judeu banqueiro comunista” que não apenas exploraria o ariano com juros e pobreza, quanto criaria “ideologias divisionistas” fomentando o levante desordeiro de trabalhadores contra a “pátria”. Com Mussolini, a conspiração remontaria ao momento da unificação italiana (1870) quando os projetos nacionalistas foram “subvertidos” por uma construção “burguesa” não patriótica que seria responsável pela pobreza do sul e pela falta de respeito do mundo para com a Itália. Bolsonaro enxerga o “petista infiltrado” e o “esquerdista sabotador” em tudo o que olha. Estas duas figuras corporificariam todo o mal do mundo e seriam responsáveis pelos fracassos de seu governo.

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O fascista não consegue se ver como incapaz, inculto, burro ou desonesto. Para ele, tudo de errado é culpa das conspirações. E, como consequência lógica, se todos os erros decorrem de sabotagem ideológica, toda diferença ideológica enseja um perigo ao regime. Daí a violência reservada a todo e qualquer um que critica o líder, o governo ou o pensamento fascista. Contra estas figuras “vis”, dos sabotadores ideológicos, vale qualquer violência, qualquer punição e qualquer ação. Da criação imagética do sabotador ideológico para as violências reais contra grupos opositores, a escalada dos comportamentos é bastante rápida. Alarga-se o campo daqueles sobre os quais se pode exercer violências indizíveis sob o pretexto de proteger “o país” e, ao mesmo tempo, se diminui o círculo de “lideranças confiáveis”. Trocando em miúdos, na espiral fascista, ao invés do governo se tornar mais crítico de si e aberto, ele vai se fechando. O diálogo entre loucos leva, necessariamente à atribuição de “lógica” e correção às suas conclusões.

Quanto mais certos os fascistas ficam de sua “missão” e da correção dos seus valores e práticas, mais os erros são explicados por sabotagem ideológica e mais violência ao diferente vai sendo permitida e incentivada. O capital filia-se a este tipo de pensamento exatamente porque o capitalismo abomina a concorrência, o diferente e o risco. Enquanto as taxas de retorno do capital se mantiverem aceitáveis e a concorrência for sendo suprimida em benefício dos grandes concentradores, o capital bate continência, grita “Heil, Hitler” e até participa de cerimônia de entrega de medalhinhas para os filhos de Bolsonaro.

Este sistema cognitivo-social é rompido interna e externamente pela mesma maneira. Os discursos irreais de interpretação do mundo podem até continuar a ver sabotadores ideológicos em todo o lugar, mas a Amazônia continua ardendo. Pode-se até achar que o presidente da França é um “comunista” ou um “cretino aproveitador” (nas palavras do luminar ministro da Educação do regime fascista brasileiro), mas o sistema internacional é pragmático. Acordos deixarão de ser assinados, mercadorias vendidas e, no extremo, o Brasil pode sofrer diversas sanções. Indiferente a como o fascista explica o mundo para quem lhe acredita, o sistema internacional cria suas soluções.

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Internamente, a aceitação das bravatas e das idiotias finda quando o emprego rareia, a comida some das mesas e as oportunidades sociais e educacionais se mostram cada vez menores para as gerações que surgem. Os carregamentos de abacate que foram vendidos para a Argentina (segundo o grande plano de comércio externo de Bolsonaro) não aplacaram a realidade da recessão que ele jogou o Brasil, da mesma forma com que demitir o diretor do INPE ou ofender a NASA não mudam os dados sobre a devastação da Amazônia.

O fascismo vira pó diante da realidade. O grande problema é que no afã de continuar se achando como a reserva de tudo o que bom e perfeito, o fascismo vai se tornando mais violento quanto mais contestação vai recebendo. Não é à toa que terminaram todos em guerras mundiais, revoltas internas ou ditaduras que colocaram os padrões de violência em outros patamares. Não há por que imaginar que no Brasil seria diferente. É um erro dizer que “Bolsonaro não é Hitler” ou que o Brasil de hoje não é a Alemanha do entre-guerras. O Hitler de 36 não era o Hitler de 23 e a Itália sobre o qual Mussolini marchou em 1922 (num episódio pitoresco e farsesco) não é a mesma de 1939. Porém, apesar das diferenças, os caminhos psicológicos e cognitivos de compreensão da realidade são rigorosamente os mesmos.

A construção de um passado irreal mitificado, a criminalização da política e do opositor, o apelo ao um nacionalismo atávico cujos objetivos são difusos e sem sentido compõem um quadro nefasto juntamente com o antiintelectualismo, o ataque à educação e às artes e as reduções das liberdades individuais. Tudo isto não seria possível sem uma veloz forma de concentração de renda. No ponto em que estamos no Brasil, o grande capital está satisfeito, esperando as privatizações para lucrar mais, o pequeno e médio empresário está apreensivo mas ainda banca a aposta. Quando eles acordarem será tarde demais.

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Quanto a nós, nas periferias ou no “Brasil profundo” como dizia Milton Santos, já não se respeita qualquer limite legal e nas cidades ainda podemos gritar, embora seja inócuo. Quando a classe média progressista se convencer que o limite social de abuso de direitos e violências foi atingido, o restante do país já estará tomado. A diferença entre as velocidades de tomada e transformação que o fascismo faz nas diversas regiões é responsável pelo descompasso da formação de consciência. E dado que esta consciência vai surgindo em diversos momentos diferentes, a própria mecânica do fascismo desarticula as respostas democráticas, as oposições institucionais e os levantes via movimentos sociais.

Se Bolsonaro não for parado agora, em menos de um ano será tarde. O custo da monstruosidade entre nós não será o aumento das queimadas na Amazônia ou uma recessão técnica: será a secessão do Brasil, sangue e morte nas ruas. Não há exemplo, na História, em que regimes fascistas tenham sido derrotados de forma democrática e pacífica. De novo, não há por que acreditar que com o Brasil será diferente.

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