Precisava uma pandemia para mostrar o fosso social no Brasil?, por Rui Daher

De mais evidente, no entanto, a pandemia rasgou, retalhou, sapateou sobre a máscara social em que vivemos – difícil precisar os tempos – há anos, décadas, talvez séculos, sem notar que fossos sociais levam a fossas escatológicas.

no Jornal dos Economistas

Precisava uma pandemia para mostrar o fosso social no Brasil?

por Rui Daher

Impossível, hoje em dia, passar por qualquer texto opinativo, seja qual for o tema proposto, sem abordar os efeitos atuais e futuros trazidos pela pandemia causada pelo novo coronavírus.

Massificada pela instantaneidade dos novos meios de comunicação, o que não acontecia em situações similares do passado, a Covid-19 concentrou mazelas e, parece, tornou-se única e onipresente no pensamento científico e social.

Não é.

Claro que também não é um evento local, de proporções limitadas, a ponto de ser tratada como uma “gripezinha”. Cientistas, pesquisadores, organizações mundiais, profissionais de saúde e, principalmente, números comprovam veracidade dos pânicos, contaminação, fatalidade e de estragos virulentos (epa!) na economia, tanto em potências mais abrigadas de colapsos, como nas mais vulneráveis e nos agrupamentos da miséria e do refúgio.

De mais evidente, no entanto, a pandemia rasgou, retalhou, sapateou sobre a máscara social em que vivemos – difícil precisar os tempos – há anos, décadas, talvez séculos, sem notar que fossos sociais levam a fossas escatológicas.

Tem-se discutido com vigor o novo mundo que virá, descobertas vacina e cura. Mais uma vez serei cético. O sistema econômico que se instalou no Ocidente após a Revolução Industrial e as duas Grandes Guerras Mundiais, hoje em dia já foi transplantado para o Oriente, com leves nuances, e está de tal forma entranhado no modo de vida das pessoas, que nem mesmo ferro e fogo serão capazes de fazerem ruir tais estruturas.

Algumas mudanças tópicas e graduais em hábitos e costumes de quem mais pode talvez venham a se consolidar. Penso-as até imperceptíveis, pois somente sabe do topo da pirâmide social quem está em seu topo. O mesmo acontece com a hegemonia entre as nações. No mais, senhoras e senhores, bem antes do coronavírus várias gerações já vinham sendo arrastadas pelos tentáculos do polvo que não mudará.

A ganância do maior acúmulo para consumo conspícuo, a pauperização do trabalho, a lesão de cima para baixo nas regras do comércio internacional, a destruição mundial do meio ambiente, hoje em dimensões amazônicas, o conceito de mérito que faz a miséria ajoelhar-se e agradecer um Deus que, na enxurrada ou vendaval, permitiu-lhes salvar um fogão. A lenha, talvez.

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Quanto às perspectivas para o agronegócio brasileiro, creio que mais graves do que a pandemia pelo coronavírus são as atrocidades cometidas pelo governo federal em atos belicosos e descuidados com proteção ambiental e boquirrotos de relações exteriores. Ajudam formar milícias de motosserras e inflamáveis.

Na produção de commodities para exportação, tais infantilidades estão se tornando perigosas. Não à toa as recentes manifestações de grandes empresas, associações e federações, preocupadas com as queimadas e o crescimento do desmatamento na Amazônia.

Não devemos acreditar em vantagens ou desvantagens da guerra comercial – não é somente comercial, não se iludam – entre EUA e China. Quando acontecer para valer, seja lá qual for a raiz do conflito, os dois gigantes sairão ganhando e, nós, Davi de frouxa borracha no estilingue, teremos perdido.

Lembrem-se: se Elvis Presley e John Lennon não morreram, muito menos Donald Trump.

Nisso, a Covid-19 tem sido exemplar. Não importa sua origem, se do morcego chinês ou não, mas sim aonde pararam seus desdobramentos. Entre as duas hegemonias, aquietados e desavisados, com tanta beleza a diverti-los, italianos, suecos, espanhóis, portugueses, britânicos, entre outros países da Europa, sofreram e ainda sofrem duras penas. Pubs, por exemplo.

Creio que àquela altura ninguém mais duvidava de como a infecção pousaria nos países do hemisfério sul, especialmente no gigante adormecido, agora reforçado no “Pátria Amada Brasil”, e focado em batalhas intestinas, sim, não é feio se expressar, aquelas que só acabam dando em merda.

O Brasil está terminando de colher mais uma safra recorde. Duzentos e cinquenta milhões de toneladas de grãos. Beneficiado pelo câmbio e pela sustentação de preços das commodities nas bolsas internacionais, o Valor Bruto da Produção (VBP) em 2020 deverá beirar R$ 720 bilhões, outro recorde. Isto, quando analisamos o agronegócio “visto assim do alto”. Quando olhamos através da lupa, muita coisa muda.

Recente estudo realizado pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), coordenado pelo engenheiro agrônomo Luís Fernandes Guedes Pinto, a quem entrevistei para a revista CartaCapital (edição de 03/06/2020), calcula “5,3 milhões de imóveis rurais no País, ocupando 422 milhões de hectares de terra, uma área média de 102 hectares (…) um quarto delas são ocupadas por 15.686 dos maiores imóveis do País, ou 0,3% do total (…) outros 25% – quase quatro milhões de propriedades (77%) – com áreas menores”.

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O estudo do Imaflora, junto a nove outras universidades, Quem são os poucos donos das terras agrícolas no Brasil – O Mapa da Desigualdade, levou em consideração o índice de Gini, que mede a concentração de renda em determinado grupo. Pobres versus ricos, se bem me entendem.

Nisso nem cético serei. Tenho certeza de que nada irá mudar. Até pelo fato de uma reforma agrária estar completamente desacreditada pelo pensamento dominante atual, que extinguiu o ministério do Desenvolvimento Agrário, emasculou suas estruturas de apoio Incra (Instituto Nacional para Reforma Agrária), Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Funai (Fundação Nacional do Índio), e mesmo a ANTR.

Como? Não a conhecem? Associação Negacionista da Terra Redonda.

Entendam. Não estou negando dimensão, valor e benefícios dos agronegócios. Devem ser mantidos e incentivados, originados que são de má formação de estrutura fundiária pensada sempre para conformar o acordo secular de elites. Afinal, é o que temos. Indústria, renda para consumo mercantil, inovações tecnológicas, formação educacional e científica não são exatamente o nosso forte. A cultura popular é, mas está sendo destroçada.

No agronegócio, o que não podemos é ficar dando mole para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em detrimento da OMC (Organização Mundial do Comércio), bobos que somos em não distinguir os EUA como concorrentes e não clientes.

Defendo e não hesito no conceito: tudo o que é produzido dentro dos limites das propriedades rurais é agronegócio. Da soja plantada em 10 mil hectares de Sapezal (MT) ao mel de abelhas produzido em dois hectares das Serras Fluminenses, lá processado, embalado, e vendido para uma Garota de Ipanema.

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Nem tudo é preciso ter grandes dimensões para fortalecer o desenvolvimento e a economia. Demorou quase quatro séculos para a agropecuária brasileira sair dos ciclos de monoculturas para a diversificação de bens primários, à exceção da pobreza, que precisou se atirar na subsistência.

Mas, velho articulista, somente pessimismo, nenhuma esperança?

Com o quê, amigos leitores? O vírus ou o verme? Do primeiro, sim. Espero para breve vacina e cura. Do segundo? Bem, a eleição, se deixarem, ainda está longe.

Só que não. Traz-me otimismo o cada vez maior o número de economistas e analistas econômicos que enxerga o Brasil fundamental. Gente daqui e de fora.

Eles começam a fazer envelhecer e fenecer o neoliberalismo. Se não completamente, pelo menos o ultra, aquele que sai dos púlpitos da ultradireita.

De extração nacional, noto Armínio Fraga, André Lara Resende, Bresser- Pereira, Paulo Nogueira Batista Jr., Luiz Gonzaga Belluzzo, Ricardo Carneiro, Laura Carvalho e outros. Todos associando menor desigualdade social a manter e estabilizar democracias e Estados de Direito.

De importação acadêmica e literária, vejo o mesmo em Joseph Stiglitz, Martin Wolf, Dani Rodrik, Thomas Piketty, Mariana Mazzucato e Paul Krugman.

Esses e tantos mais, alguns desde sempre, outros somente agora menos afetados por Chicago, formam meus pensamentos e leituras.

Inté!

Rui Daher – É diretor da consultoria Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

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1 comentário

  1. Rui, essa epidemia veio precedida por outra muito pior.
    A origem desta é a américa do norte e foi difundida aqui nesse triste Brasil por maus brasileiros civis e militares, pucha sacos venais.
    O nome dessa síndrome é “Minion Bolçodoria Galopante” Galopante porque constituída por quadrupedes popularmente chamados de “GADO”.
    A cada dia, minions de todas classes sociais e todas profissões civis e militares defendem a corja que devora o Brasil com a justificativa de “pelo menas tiremu o PT”.
    Ao que parece a cura do covid virá antes da do “MBG”.

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