Preparando um Natal anti-machista, por Bruno Reikdal Lima

Tamar, Raabe, Rute e Bate-seba, que precedem o nome de Maria, são colocadas propositalmente para transmitir um conteúdo, uma mensagem - prática comum na tradição judaica.

Preparando um Natal anti-machista, por Bruno Reikdal Lima

A ascensão do movimento evangélico nos últimos 30 anos trouxe consigo bagagens ideológicas que reforçam relações de dominação. Seja a submissão sem possibilidade de críticas às autoridades (tanto religiosas quanto políticas, desde que estejam alinhadas com as igrejas), seja na legitimação de poder econômico de grupos sobre outros, ou ainda a justificativa moral para o empobrecimento das pessoas e a manutenção das situações de pobreza, seja, especialmente, a dominação sexual e controle nas relações de gênero. A produção e reprodução ideológica de dominações culminam nos mais tresloucados projetos políticos e movimentos sociais, que vão desde manifestações contra o inexistente “kit gay” até as declarações machistas e pautas políticas ditadas pela ministra Damares Alves, com sua assessoria e secretariado aptos a se orgulhar de seu machismo e “anti-feminismo”.

Nesse sentido, é fundamental que a crítica dos fundamentos desse aparelho de reprodução ideológica seja retomada. O repúdio às declarações machistas e às práticas de dominação sexual e de gênero são fundamentais. Mas elas se esgotam quando não encontram pontos de contato para o diálogo com os fiéis, com as massas populares que tem suas experiências religiosas e práticas comunitárias fundadas nas instituições que majoritariamente cumprem o papel de controle social. O que quero dizer é que o repúdio e a denúncia se direcionam aos atores envolvidos, mas não incluem as comunidades no processo crítico, a partir de sua linguagem e dos conteúdos de fé nas quais estão fundamentadas. Para além do processo negativo de condenação do machismo, deve ser empenhado o processo positivo de constituição de uma interpretação religiosa anti-machista e feminista, que possa ser utilizado pelas populações das comunidades religiosas a partir de sua realidade e prática social, contra as relações de controle e dominação.

Em especial, as festividades de Natal abrem uma porta gigantesca para reflexões desse tipo. Não apenas pela figura de Maria, uma jovem adolescente que aparece grávida no pequeno vilarejo de Nazaré (no qual habitavam mais ou menos 15 famílias) sem estar casada e mesmo seu noivo não reconhecendo o filho como seu, mas também pelas outras 4 mulheres que surgem na genealogia de Jesus desenvolvida no livro de Mateus. Desse ponto, façamos um questionamento necessário: como uma comunidade de pobres, agricultores e pescadores que seguiam Jesus (um marginalizado nascido em um rincão esquecido da região da Galileia) seria capaz de reconstituir uma genealogia, sem acesso a registros e documentos, ao passo que era perseguida pelo império romano e lideranças judaicas?

Não seria. A genealogia apresentada no livro de Mateus, assim como as genealogias da Torá ou do Antigo Testamento, foi construída a partir de uma tradição consolidada com o intuito de transmitir uma mensagem para a comunidade, e não estabelecer uma narrativa histórica aos moldes de ciência moderna. Cada nome posto é carregado de um sentido e traz consigo significado. Assim, Tamar, Raabe, Rute e Bate-seba, que precedem o nome de Maria, são colocadas propositalmente para transmitir um conteúdo, uma mensagem – prática comum na tradição judaica. As cinco mulheres, em seu conjunto, estão conectadas por esta mensagem. E o simples fato de uma comunidade ao se reunir para escrever a respeito de seu líder fundador reconhecido como o filho de Deus, como messias, apresentar o nome de mulheres em uma genealogia, já é um fato histórico inédito e relevante. As linhagens apenas contavam com os nomes dos pais, eram patriarcais, mas aqui mulheres são destacadas.

O texto de Mateus foi terminado nos anos 60 d.C., antes da invasão e destruição de Jerusalém pelos romanos, em 70 d.C. Como era comum na tradição judaica, os livros não eram escritos por uma única pessoa, mas reunindo textos já existentes, organizando e completando com os ensinamentos da liderança fundadora de uma comunidade, as pessoas que compunham esse grupo de fieis escreviam a muitas mãos. Estas pessoas selecionaram e destacaram, nesse caso, personagens como Tamar para ser uma das “mães de Jesus”. Tamar era uma viúva marginalizada e esquecida pelo sogro, que deveria casá-la com seu filho para que não ficasse sem proteção social, dependendo de mendicância (já que não poderia trabalhar e nem retornar para a casa de seus pais). Para solucionar o problema, Tamar cobre seu rosto com um véu e se finge de prostituta, à porta do vilarejo em que seu sogro, Judá, iria passar. O homem passa e propõe à moça com véu que ela realize o serviço sexual ao qual se dispunha, mas como não tinha como pagar pelo sexo, deixa com ela seu cajado e seu cordão. Meses depois Tamar se descobre grávida, a notícia se espalha e chega aos ouvidos de Judá, que furioso exige que a queimem viva. Tamar aceita a condenação, mas pede para que enviem para Judá o cajado e o cordão, avisando que o pai da criança era o dono daqueles pertences. O sogro, quando vê os objetos entra em crise e afirma: “essa mulher é mais justa do que eu!”. A história é interrompida, sendo a mulher que se fez de prostituta e quebrou séries de tabus sociais, a heroína.

Escolheram também Raabe, uma prostituta que acolhe e esconde espiões hebreus em seu bordel, em troca destes protegerem sua família quando eles fossem invadir com seus exércitos a cidade onde morava. Os guardas reais entram nas dependências de Raabe atrás dos espiões. Ela mente, salva os invasores e recebe a recompensa: é poupada durante a invasão hebreia. E o que diremos de Rute, uma jovem que junto de sua sogra, Noemi, procura fugir da marginalidade da viuvez e das dificuldades que se abatiam em sua terra. Ao chegarem em um novo território, encontrando um pretendente, armam um plano para que Rute seduza seu potencial companheiro e passe com ele a noite, na procura de garantir o dote e a proteção social para ambas as mulheres. Novamente, quebrando tabus sociais e controles sexuais em uma sociedade patriarcal. Por fim, Bate-seba, uma mulher abusada pelos caprichos do rei Davi, que de utilizando de autoridade real se relaciona com ela e força a morte seu marido em um plano sujo, resultando em uma tragédia para a vida de Bate-seba.

Em todas essas histórias, tabus sexuais e relações de dominação e controle estão postas. Uma mulher que precisa se prostituir para superar a marginalidade, uma prostituta heroína de uma batalha, uma jovem que se relaciona com seu noivo antes do rito do matrimônio, uma mulher abusada por um poderoso e Maria, a adolescente discriminada por estar grávida sem estar casada e com a paternidade negada, no primeiro momento, por seu noivo, José. Todas elas resultam no nascimento do fundador da fé da comunidade de Mateus, do filho de Deus para os cristãos. Estas são as mães de Jesus. Não as socialmente aceitas ou enquadradas, “belas, recatadas e do lar”, mas mulheres críticas e em situações de crise, que hoje nas periferias e nos centros das cidades são recriminadas, motivo de exclusão, violência e discriminação. Mulheres que muito provavelmente não entrariam para o rol de lideranças das igrejas evangélicas que aderem sem crítica a um conservadorismo tacanho e violento.

O evangelho que narra a história de um homem que era acusado de andar com pecadores e prostitutas não escolhe por acaso os nomes lembrados acima. Esta “condenação” a feita a Jesus e apresentada nos evangelhos é assimilada em Mateus e transformada de modo positivo: sim, ele andava com mulheres “inadequadas” para uma sociedade machista e se fazia um inadequado, como nós deveríamos fazer, também. O mesmo tipo de movimento positivo que precisa ser realizado em nossos enfrentamentos críticos a este conservadorismo, resgatando da própria tradição da comunidade os conteúdos anti-machistas e feministas. Afinal, não precisamos estar necessariamente contra uma religiosidade, senão contra ideologias de dominação e controle. Nesse sentido, podemos afirmar agora que, na tradição cristã, Natal só foi e é possível pela vida dessas mulheres que hoje estariam condenadas por quem tem dito que “marcha para Jesus”, que ao negarem movimentos anti-machistas e feministas, acabam por negar a história constituída na origem de sua própria fé.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora