Primeiras palavras, por Paulo Brondi

Boa parcela de seu eleitorado abandona a nau a cada semana, desgostoso com as promessas não cumpridas. Aos que ficam, resta a hercúlea tarefa de defendê-lo, sempre em círculos como num voo de urubu

Primeiras palavras

por Paulo Brondi

Passados alguns dias desde a exoneração de Sérgio Moro, resolvo escrever esta despretensiosa “análise”.

Entre especialistas, já se evidencia que Bolsonaro não detém mais nenhum controle da direção do país. Aliás, ainda no raiar de 2019 o governo já despontava sem rumos definidos, sem grandes projetos, sem grandes ideias para enfrentar a grave crise socioeconômica que se arrasta desde meados da década que se finda.

Parecia, mesmo, mais um ajuntamento de pessoas e ideias desconformes do que a grande seleção de notáveis então prometida. Brigas e baixarias sucederam-se aos borbotões, aliados pularam do barco ou foram escorraçados, e a grande seleção quiçá logo se reduza a um quadro de várzea interiorana.

Parte do governo parece não conseguir conviver com a razão e a ciência, e tal constatação resulta clarividente nesta crise pandêmica. Não aceita conviver, também, com quem não se sirva de um cardápio de exotismos, extravagâncias e devaneios, como deixa patente a demissão do ministro da Saúde, Mandetta.

A guilhotina, agora, desceu ao pescoço do ex-juiz Sérgio Moro, alçado a herói nacional pelas alas do bolsonarismo mais fanático. Tido fiador do discurso anticorrupção, uma das bandeiras bolsonaristas em 2018, era considerado “indemissível”, assim como o “posto Ipiranga”, Paulo Guedes.

Moro caiu atirando. Lançou contra o ex-chefe acusações gravíssimas de tentativas de interferência na Polícia Federal, visando a evitar – supõe-se – investidas espinhosas. No sábado, deu na Folha de SP que a PF já identificara Carlos Bolsonaro (vereador do RJ) como articulador de um complexo esquema de ‘fake news’, dirigido por meio do já conhecido “gabinete do ódio”. Talvez fosse esta – mas não a única – a razão que levara Jair Bolsonaro a desejar a troca no comando da Polícia Federal, procurando pôr ali qualquer outro que lhe fosse mais “amigável”. Como Moro não concordasse, criou-se a celeuma. Este, por fim, resolveu pedir as contas sem aviso prévio.

O presidente, segundo a leitura dos expertos e dos editoriais, ainda não explicou o motivo por que pretendeu a troca no comando da PF. Sabe-se, todavia, que já escolheu alguém de seu entorno, de casa, com quem poderá, talvez, conseguir aquilo que o outro lhe negava. O Ministério da Justiça deve receber alguém mais adequado ao paladar presidencial.

Por ora, tenho que, mantendo-se tudo no estado em que as coisas se encontram, dificilmente há condições para a responsabilização penal do Presidente da República. A mensagem trocada por ele e por Moro, via Whatsapp – divulgada pelo Jornal Nacional -, a meu ver não é prova suficiente para tanto, não havendo sequer por ora um tipo penal adequado para enquadrar a conduta presidencial. Aqueles enfileirados pelo Procurador-Geral em seu pedido de abertura de inquérito policial ao Supremo dependem de muitas outras provas, e, alguns, nem sequer se ajustariam tanto ao caso.

Todavia, tal conclusão – prévia – não infirma outra que se afigura agora quase definitiva: a existência de elementos suficientes para um processo de impeachment. Ao menos neste instante, a conduta encontra acolhida ao menos no art. 4º, inciso V, da Lei nº 1.079/50. Porém, neste campo, absolutamente de ordem política, nada é tão simples. Não bastam as evidências da transgressão, sendo necessários(as), ainda:

1) baixa capilaridade no Congresso e na opinião pública do candidato à deposição, sendo certo que até agora a popularidade de JB permanece razoável na população e que, ao costurar com o Centrão, o presidente anima-se a perder os anéis para não se desfazer dos dedos;

2) crise econômica e social, que andam no momento em altíssima velocidade;

3) disposição do “Deus Mercado”, o qual ainda parece se agarrar num fio de esperança à política(?) econômica de Paulo Guedes, último fiador de Bolsonaro.

4) ruas, hoje semi-desertas pela quarentena;

5) e, por fim, consenso na classe política, ainda inexistente, e com fissuras sérias da esquerda à direita.

Nada obstante, JB aqui e acolá logrou desmantelar a olhos vistos, e num átimo, pelo menos quatro pilares fortes de seu discurso de campanha, a saber:

1) *discurso anticorrupção*: embora já houvesse sentido fraturas há mais de um ano – haja vista as graves denúncias que pesam sobre JB e sobre os filhos 01 e 02, de rachadinhas e funcionários-fantasmas em gabinetes -, o discurso tomou sem volta o caminho do ralo depois das denúncias do ex-ministro. Acrescente-se a isso o fato de o Procurador da República aposentado, Carlos Fenando Lima, ex-membro da Lava-Jato, haver afirmado em entrevista recente que Bolsonaro conseguiu pôr fim à operação.

2) *discurso antissistema*: palavrório copiado do ídolo Trump, próprio a enganar os incautos ao vender a aura de um enviado especial de Deus à Terra pronto para abalar as estruturas do establishment. Ao casar com o Centrão, oferecendo-lhes cargos em segundo escalão, aparentemente até mesmo a nomes envolvidos na Op. Lava-Jato, o presidente deu irresistível piscadela e tirou encantado pra dançar a dama que jurou desconjurar, o ‘sistema’. Doses mortais de fisiologismo puro e fedorento. “O beijo da morte de Roberto Jefferson”, na feliz expressão do professor Marcos Nobre ao El País, fez natimorta a “nova política”.

3) *discurso da “tecnocracia”*: com os expurgos de Mandetta (que cumpria à risca os mandamentos melhores da ciência e da razão) e Moro, pretendendo-se para o lugar deste e do antigo chefe da PF amigos de outrora, despede-se do governo o discurso das “indicações técnicas”. Nunca JB, a bem da verdade, esclareceu ao seu eleitor – que também não se interessou em saber – a fundo do que se tratava, mas sua excelência, “o fato”, já demonstra que tal prioridade não esteve nunca na lista do Planalto, como estão o combate à “ideologia de gênero”, ao “marxismo cultural”, ao “comunismo” e outras maluquices. Mantiveram-se em seus cargos, por outro lado, algumas doidivanas e excêntricas figuras que o sábio e atento leitor já sabe quem são.

4) *discurso ultraliberal*: a última pá de cal parece vir sobre este tema. O general Braga Netto, da Casa Civil, já tomou ao que se delineia as rédeas da política econômica, e, numa leitura acertada, convenceu-se de que somente o Estado proverá as necessidades econômicas das gentes e das empresas a curto e médio prazo. Por isso, e a contragosto do (possível) destronado czar da Economia, lançou o Plano Pró-Brasil, o qual, com ares keynesianos, pretende injetar R$ 30 bilhões em infraestrutura nos próximos três anos. Fê-lo com a benção de Bolsonaro, um liberal apenas da boca pra fora.

O mesmo se diga da pauta dos costumes, atropelada que está sendo por uma sociedade que não suporta o “Puritano da Rua Augusta” (referência aqui ao clássico de Amácio Mazzaropi).

Se não há condições neste momento para o afastamento definitivo (um instrumento de gosto duvidoso, dados os traumas que causa na vida do país, sendo em regra mal manejado), existem todavia razões para o julgamento moral do governo, que, tudo indica, pela imposição das circunstâncias e por ‘manu propria’ se arrastará como alma penada até 2022.

Boa parcela de seu eleitorado abandona a nau a cada semana, desgostoso com as promessas não cumpridas. Aos que ficam, resta a hercúlea tarefa de defendê-lo, sempre em círculos como num voo de urubu, acarretando perigosos curtos-circuitos a alguns cérebros bifásicos.

De outra banda, Sérgio Moro não parece ainda desfrutar de melhor futuro. Sai sem que possa – ao contrário do ministro Mandetta – se gabar de grandes feitos. De fato, o número de homicídios diminuiu, mas a queda já era tendência verificada desde 2018 e empurrada por diversos fatores, muitos alheios à vontade do ex-ministro. Seu pacote anticrime foi desidratado, em parte por sua natural inexperiência política, em parte por obra do próprio governo, em parte por misticismos impraticáveis ali contidos.

Corre à boca pequena a possibilidade de seu ingresso no mundo político. Nesta via tortuosa e por vezes esburacada, plena de altos e baixos e idas e vindas, o ex-juiz e ex-ministro não encontrará vida fácil. Decerto não contará com a estrutura e os holofotes necessários ao páreo, sabendo de saída que boa parte do mundo político pretende escalpelá-lo vivo, malgrado algum cacife arrecadado nos tempos de juiz e ainda duradouro em parte da direita e da centro-direita. Até que ponto o mundo político abrirá sorridente suas portas ao noviço? Sairá Senador pela província do Paraná em 2022? Comporá chapa presidencial com algum nome de envergadura? A aguardar.

Não se há de ignorar, ainda, que o feitiço poderá sair à cata do feiticeiro, considerando que, se não provar as denúncias feitas, Moro será certamente processado por algum crime contra a honra. Penso, no entanto, que a permanecer tudo como está não haverá danos maiores para um lado e para o outro, ao cabo, *no que toca especificamente ao inquérito solicitado pelo PGR*.

Fato é que parece ganhar corpo em setores do meio político a ideia de que Moro agiu à Iscariotes. E, como se diz, “a política tolera a traição, mas não o traidor”.

Incerto ainda se o reteteu ganhará novos e emocionantes contornos. A conferir…

Mas algo parece inegável: da briga entre Moro, direita e Bolsonaro, há muita gente torcendo pela primeira.

 

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