PT deve decidir se continuará cúmplice de um regime que pratica crimes, por Mathias Alencastro

Foto: Agência Brasil

Por Mathias Alencastro

Na Folha

O dilema venezuelano

Foi um episódio revelador das divisões da esquerda brasileira deste ano. Em agosto, decisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, de formar uma Assembleia Constituinte para confiscar os poderes dos parlamentares da Assembleia Nacional desencadeou uma querela intrapartidária no Partido dos Trabalhadores.

A presidente da legenda, Gleisi Hoffman, escolheu enfim reafirmar o “apoio e solidariedade” ao governo venezuelano.

Um posicionamento temerário se considerarmos os desdobramentos dos últimos cinco meses. Não obstante a subida sensível do preço do barril de petróleo, o que aliviou o sufoco dos principais petro-Estados, a Venezuela prosseguiu firme em sua descida aos infernos.

Temas que outrora eram matéria de controvérsia –a virada autoritária do regime, a crise humanitária e a ruína econômica– tornaram-se fatos inquestionáveis.

As recorrentes denúncias de tortura generalizada foram confirmadas pelo Alto Comissariado para os Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. A mortalidade infantil atingiu níveis de países em guerra.

Rompendo com o legado nacionalista de Hugo Chávez (1954-2013), Maduro transformou o país numa colônia econômica, entregando o que resta da indústria petrolífera a russos e chineses.

Diante desse cenário, o “dilema venezuelano” deve ser reformulado. Antes, o PT debatia se devia apoiar o projeto de radicalização, suspeito, mas, no final das contas, soberano, de um aliado histórico.

Agora, ele deve decidir se pretende continuar sendo cúmplice de um regime que pratica crimes humanitários em grande escala.

Está se fechando a janela de oportunidade para o PT evitar que Nicolás Maduro se torne um embaraço equivalente ao que Alberto Fujimori, o carrasco peruano, foi para o governo FHC. Nos meses que se seguem, o provável colapso da produção de petróleo vai provocar uma cessação de pagamentos a credores e, consequentemente, uma falência sistêmica da economia.

A situação catastrófica da Venezuela será um tema central da campanha presidencial. Se Fernando Haddad, recém-indicado para coordenar o programa, não revir o posicionamento do partido, estará fazendo um favor àqueles que pretendem associar a imagem de radicalismo ao projeto do PT para 2018.

Em tempo: na semana passada, meu colega Jaime Spitzcovsky escreveu uma instigante coluna sobre o príncipe saudita Mohamed Bin Salman e o seu papel no processo de transformação política na Arábia Saudita. A ausência de qualquer menção à guerra no Iêmen, todavia, é curiosa.

Ainda, parece-me cedo para afirmar que Bin Salman, que Jaime compara ao reformista chinês Deng Xiaoping, seja um expoente “modernizador” da Arábia Saudita. Por outro lado, as suas credenciais de criminoso de guerra estão amplamente confirmadas.

A chacina em curso no Iêmen, um projeto pessoal de Bin Salman, já fez 10 mil mortos e deixou 18 milhões de pessoas em situação de emergência humanitária. Ignorar o conflito avassalador em um perfil sobre o príncipe é omitir o elemento mais crucial do seu percurso político.

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