Qual a direção do vento?, por Izaías Almada

Tratar o seu próprio povo com ódios e preconceitos não é uma boa política, ainda mais quando não se tem noção para que lado o vento sopra. E o vento que prenuncia tempestades nem sempre indica em que direção irá.

Qual a direção do vento?

por Izaías Almada

O que mais incomoda a um cidadão de bem (seja lá o que isso queira dizer nos dias de hoje) no Brasil e no mundo é o esforço que ele faz ou fará para entender o que se passa à sua volta. Em que tipo de informação acreditar?

Com o imenso número de jornais, emissoras de rádio e TV, revistas semanais e mensais, celulares, ipads, computadores, blogues de direita, de esquerda, de centro, de coisa nenhuma, a informação – qualquer seja ela – se dilui num mar de análises e opiniões que não deixam a menor dúvida de que o ser humano se encontra numa encruzilhada que talvez (e olhe lá!) só possa ser comparada aos sempre conturbados anos em que o homem passa de uma era histórica para outra.

A passagem da Idade Média para a Idade Moderna, do feudalismo para o capitalismo, por exemplo, para ficarmos com uma noção mais próxima de tempo histórico, onde o nosso planetinha não era ainda totalmente conhecido é talvez um desses momentos emblemáticos.

Foi possivelmente, guardadas as diferenças trazidas pelo progresso da ciência em vários setores do conhecimento, um período de mudanças profundas, da quebra de tradições, de novos comportamentos, de reformas religiosas, de alterações políticas e sociais, de descobertas e invenções que, muito provavelmente, tenham colocado em dúvida a capacidade de abstração e análise do ser humano que lá viveu. Não é por acaso que nos séculos XVII/XVIII floresce o Iluminismo na Europa.

Importa saber também que na condução de tal raciocínio, paradoxalmente, o comportamento da humanidade tem a ampará-lo a arrogância, a maldade e a injustiça, essas três deusas da mitologia contemporânea que costumam caminhar unidas, pois é delas que se nutre o medo, sentimento de perigo diante de uma ameaça qualquer. E a pior ameaça, talvez, seja aquela que se sente, mas não se vê.

Eu poderia citar também como exemplo as duas guerras mundiais do século XX, mas ali a ameaça era visível, palpável. Explodia nas trincheiras europeias e não só. Nos campos de concentração nazistas. No ódio aos comunistas, aos homossexuais, aos ciganos.

O número de mortos nessas duas tragédias e o sofrimento que se abateu sobre milhões de vidas não se apagará da memória da humanidade.

Nessa luta contra o desconhecido, pois é disso que se trata, o homem cria as armadilhas que o desumanizam, sempre com a esperança de que tudo será melhor.

Em outras palavras: a arrogância, a maldade e a injustiça, muitas vezes usadas como armas de manipulação de grupos sociais em defesa de interesses que fazem fronteiras com a barbárie, tende a criar em cada um de nós a ilusão de que um estado forte pode nos trazer segurança em vários níveis.

Nunca é demais lembrar que Salazar não conseguiu isso em Portugal, Franco na Espanha, Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha e Stálin na União Soviética, sendo essa lista mais extensa até os dias de hoje se considerarmos o que aconteceu em África, na Ásia e nas Américas Central e do Sul por todo século XX e raiar do XXI.

O momento político brasileiro, após o recente período de construção de ódios e preconceitos a favor dos mais ricos e sua base de sustentação, o capital, acabou por inverter a biruta do aeroporto.

Quando os três poderes republicanos e as FFAA passam por cima da Constituição já não sabemos por quem os sinos dobram. Muitos de seus integrantes, é bom lembrar, ainda pensam com os conceitos da Guerra Fria e já é mais do que tempo de abrirem as janelas do Palácio da Alvorada, das duas casas do Congresso, de seus quartéis e deixar o ar da democracia entrar.

Tratar o seu próprio povo com ódios e preconceitos não é uma boa política, ainda mais quando não se tem noção para que lado o vento sopra. E o vento que prenuncia tempestades nem sempre indica em que direção irá.

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