Qual a viabilidade de um golpe do Bolsonaro?, por Erick Kayser

O protesto dos bolsonaristas para 15 de março ainda não foi cancelado, mas caso ocorra, o grau de radicalização e a adesão que terá ainda é uma grande incógnita.

Qual a viabilidade de um golpe do Bolsonaro?

por Erick Kayser

O período do Carnaval parece despertar estranhos ímpetos em Bolsonaro e seu clã. No primeiro ano de governo, o presidente viraria notícia em todo o mundo ao compartilhar naquele feriado um vídeo bizarro de uma pessoa praticando golden shower. Agora em 2020 a pornografia cedeu espaço para um explícito e vulgar golpismo, com Bolsonaro divulgando vídeo com chamado para manifestação contra o Congresso e o STF. Face as reações públicas, no dia seguinte, quarta-feira de cinzas, vieram do Planalto as tradicionais desculpas e recuos, ainda que um tanto tímidas, num movimento que deixou a porta entreaberta para o fantasma do golpismo  poder voltar facilmente em outra oportunidade.

Contudo, ficou a dúvida colocada: quais são hoje as reais condições de Bolsonaro liderar um golpe de Estado?

Mesmo com algumas lideranças da extrema-direita tenham aventado um recuo maior, o protesto dos bolsonaristas para 15 de março ainda não foi cancelado, mas caso ocorra, o grau de radicalização e a adesão que terá ainda é uma grande incógnita. As mobilizações convocadas por eles em novembro do ano passado para criticar a libertação de Lula foram um retumbante fracasso, de lá para cá, poucos elementos fariam crer que as condições de mobilização da extrema-direita melhoraram de forma significativa. Sendo assim, qual a razão de convocar esse protesto contra o legislativo e o STF?

A resposta é simples: buscam demonstrar força frente um cenário de sucessivos reveses. Efetivamente está claro que o bolsonarismo já percebe que os pífios resultados na economia cobrarão a sua conta, fazendo o percentual de apoio ao governo retroceder. Além disso, as sucessivas crises institucionais e na opinião pública por declarações ofensivas do presidente ou de algum ministro começam a provocar algum nível de isolamento político do governo. Neste cenário, ganha força entre as hordas bolsonaristas o temor de que a continuidade de seu projeto de poder não está assegurado para além das eleições de 2022. A tentação autoritária surge como um caminho mais fácil para contornar a barreira do sufrágio.

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Assim, em um certo sentido, esta ofensiva autoritária do bolsonarismo reforça a percepção de suas fragilidades. Sem contar com maioria legislativa em nenhuma das duas casas e ampliando a tensão com os poucos partidos que ainda são fiéis ao governo, a sensação de um governo paralisado poderá ficar cada vez mais latente. Sua crise política é tamanha ao ponto de seu novo partido, o Aliança pelo Brasil, sequer estará legalizado a tempo de disputar as eleições municipais deste ano. Para qualquer força política, não disputar um pleito municipal é um verdadeiro suicídio político.

Neste momento, o bolsonarismo avalia suas forças, calcula as chances de eventualmente levar adiante algum ato de força, como o fechamento do Congresso ou do STF, para estabelecer uma ditadura. Como sabemos, contam com o apoio de parte das forças armadas, como verbalizado pelo seu ministro General Heleno, no entanto, ainda é difícil precisar o grau efetivo de apoio ao golpismo entre os militares. Aparentemente ainda é minoritário, muitos militares verbalizam seu apoio as instituições e a ordem democrática, como a fala do agora ex-ministro General Santa Cruz condenando os protestos contra o judiciário e o parlamento, contudo, poucas são as vozes de dentro da caserna que ousaram expressar alguma crítica mais contundente ao governo Bolsonaro.

O apoio de parcelas expressivas de policiais, civis e militares, ao bolsonarismo, poderia, caso houvesse um grau de organização superior ao hoje existente, converter-se em um braço armado importante para alguma aventura golpista. Este apoio fica ainda mais flagrante junto aos setores  corrompidos ligados a grupos milicianos, cuja politização e radicalização ficou exposta em recentes protestos e motins em estados como Ceará, Bahia e Espírito Santo. A forma como estas milícias criminosas buscam se aproximar do poder político parecem antever o desejo de expandir suas atividades em um nível de atuação que poderia transformar o Brasil em um narco-estado. Nesta perspectiva, a ainda nebulosa ligação de Bolsonaro com o assassinato de Marielle Franco, parece ser um ensaio geral dos riscos que estamos aqui aventando.

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Para além disso, são poucos os setores estratégicos que efetivamente apoiariam uma aventura golpista. Afora alguns empresários ideologicamente vinculados ao governo, poucos arriscariam apostar em uma ditadura bolsonarista. O “custo” de um fechamento político para o país seria ruinoso para setores que dependem de negócios no exterior, especialmente com países europeus.

Na imprensa, afora alguns veículos “chapa branca”, não contaria com o apoio para sustentar um regime ditatorial. Além disso, ao contrário do que alguns imaginam, a esquerda não está morta, ainda que com dificuldades, representa quase um terço do eleitorado nacional e numa situação limite, de defesa da democracia, seguramente colocaria multidões nas ruas.

Criar alguma “balbúrdia” e tencionar o processo democrático também é uma forma de turvar a percepção sobre os problemas gerais que o projeto bolsonarista de poder terá que se defrontar. Para os milhões de desempregados, a urgência de soluções se agudizará. A pauperização crescente fará o apoio ao bolsonarismo derreter nos próximos meses em setores ainda mais amplos da população. O principal desafio para a esquerda será, neste processo, conseguir reaproximar-se destes setores populares e politizar esta insatisfação.

Se podemos afirmar que hoje não estão dadas as condições para executar um golpe, não significa que a esquerda e os setores democráticos não devam se colocar em estado de alerta. A ameaça seguirá pairando enquanto Bolsonaro ocupar a cadeira da presidência, afinal, estamos lidando com um fascista. A única possibilidade, no curto prazo, de haver alguma estabilidade política mínima no país será com a retirada de Bolsonaro da presidência, mas este é um tema que, apesar de tudo, estranhamente ainda não está posto na “agenda nacional”.

*Erick Kayser é Historiador.

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2 comentários

  1. O golpe contra a presidenta Dilma e contra a democracia não produziram o que está aí.O golpe já foi o resultado que antecedeu a ascensão desse tipo de gente ao poder.
    Muitas charges tem sido feitas onde,por pior que seja a situação do indivíduo, ele sempre responde que o importante foi que tiramos o PT.
    Dentro deste contexto é que imagino que,se for necessário,que até o momento não parece ser,o ocupante da cadeira de presidente da república tem sim condições de dar um golpe.
    Todas essa lives e outras baboseiras feitas e ditas diuturnamente por ele e sua corja,tem simplesmente o objetivo de manter a manada atenta para quando for preciso.
    Ele não está sozinho nessa empreitada. Embora alguns veículos de comunicação da mídia porca desse país finjam que estão horrorizados com a falta de modos dessa gente,o fazem somente da boca para fora e,pior que isso,aproveitam toda e qualquer besteira que o sujeito faz ou diz para compará-los ao presidente Lula e ao PT,ou seja,na verdade acabam continuam fazendo a campanha contra a democracia. O presidente Lula tem um passado de oito anos na presidência onde os números podem atestar os motivos que o fizeram sair com mais de 85% de aprovação.
    O que está ocorrendo hoje é uma discussão entre o grupo dominante,feita às claras,tamanho o conforto que eles sentem.
    A esquerda,ainda que não esteja morta,e nunca estará,sofre de dificuldades para aglutinar sua base e,neste momento,não parece ser nenhum obstáculo a qualquer iniciativa golpista.

  2. Ainda que todos os Bolsominions comparecessem à manifestação convocada pelo Bolsa de Bosta, eles não teriam força para dar um golpe. Acho que os apoiadores do Bolsonaro não chegam mais nem a 25%. Já caiu a ficha de muita gente.

    O golpe é viável apenas se 75% da população ficar inerte ante o barulho de menos de um quarto da população.

    Diria Martin Luther King:

    “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

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