Quando o mundo expira, por Daniel Afonso da Silva

Quando o mundo expira, por Daniel Afonso da Silva

Está virando consenso a noção de fim do mundo construído após o fim da cold war.

Até 1989, como sabido, a categoria cold war resolvia muitos dos dilemas dos observadores internacionais. O mundo era tido como “bipolar” – e, portanto, carecia simplesmente de um bom psiquiatra capaz de tratá-lo.

Com a abertura do mundo de Berlim e com a decorrente erosão do bloco soviético, os Estados Unidos da América se fizeram imediatos vencedores da guerra e, assim, os últimos moicanos da legenda das superpotências num mundo tido como “unipolar”.

Os incidentes de 11 de setembro de 2001 mostraram que o mundo era muito mais complicado que o sugerido pelas categorias. Foi o momento da revanche dos árabes e muçulmanos excluídos da história pela narrativa fria da tensão Leste-Oeste.

Quando o 9/11 de 2001 virou 9/15 em 2008 tudo ficou ainda mais confuso.

Os países outrora de terceiro mundo agora mostravam a sua força como blocos emergentes tendo os BRICs na proa do mundo totalmente “multipolar” e/ou “policêntrico”.

Muito dessa confusão – onde empresas too big to fail começaram a falir – insuflou a esperança a vencer o medo e eleger o afro-americano Barack Obama presidente dos Estados Unidos.

O ofício inicial e principal do presidente Obama seria dar fim à war on terror do presidente Bush. Não ao acaso, assim que eliminou o algoz do 9/11 em maio de 2011 ele prometeu terminar o decênio de guerras – “a decade of war is ending”, dizia.

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Mas a indefinição dos movimentos árabes – da primavera ao verão – tornava difícil o cumprimento da promessa.

A Tunísia, o Egito e a Líbia – esta com o auxílio dos capacetes azuis – tinham retirado do poder os seus mandatários. Entretanto Basar al Assad na Síria começaria a bater o pé com o apoio de Teerã, Moscou, Doha e Pequim.

E foi justamente aí – entre o assassinato de Bin Laden e o assassinato de Gaddafi e o afluxo das primaveras dos povos árabes – que o mundo saído da guerra fria teria começado a expirar.

A tensão entre o líder sírio e os manifestantes causaria a morte e/ou degredo progressivos de centena de milhares de civis ultrapassando todas as linhas vermelhas da segurança internacional e da manutenção dos direitos humanos. Enquanto isso, os principais defensores dos direitos humanos universais – a saber, Estados Unidos e Europa –, contemplavam sem nada ou muito pouco fazer.

As razões dessa impotência não são desprezíveis.

Os efeitos da guerra ao terror do presidente Bush e da crise financeira de 2007-2009 colocaram todos os agentes internacionais em movimento complacente e ninguém doravante se atreve a produzir o seu Vietnã de todos os dias como os norte-americanos fizeram na investida ao Iraque e ao Afeganistão.

Diante desse impasse vão aumentando as ameaças corporificadas em contenciosos como o “estado islâmico” e o mal-estar ucraniano.

Após o mundo ser “bipolar”, “unipolar”, “multipolar”, “zeropolar” e mesmo “policêntrico” ele parece estar iniciando uma nova condição que alguns denominam de “após o após”.

Sempre que categorias como essas deixam de resolver problemas aparentes elas claramente perdem a sua utilidade. Nenhuma dessas categorizações conseguiu antecipar e inibir, entre outros, o desolamento causado pela crise humanitária dos fluxos migratórios que nos toca viver nestas estações de 2015. Talvez por isso devam realmente desaparecer. Resta saber qual outra tomara o seu lugar.

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Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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5 comentários

  1. diversos modos de análise

    Nassif,

    ” Enquanto isso, os principais defensores dos direitos humanos universais – a saber, Estados Unidos e Europa –, contemplavam sem nada ou muito pouco fazer.”  Isto é sério, será que o autor realmente acredita nesta versão em que USA e Europa nada ficaram como que paralisados ?

    ” Diante desse impasse vão aumentando as ameaças corporificadas em contenciosos como o “estado islâmico” e o mal-estar ucraniano.” E como, a partir de quais movimentos se deu origem aos dois contenciosos ?

    Os ares de Paris não estão fazendo bem ao autor.

  2. Achei o texto bem

    Achei o texto bem fraquinho…

    Parte de premissas suspeitíssimas, como o 9/11 ter sido obra de árabes/muslims??? Será que o autor não viu nenhum dos ótimos documentários sobre as colunas do WTC cortadas em diagonal e os restos de termite fumegando antes que o WBush mandasse “limpar a área” no dia seguinte? E a implosão controlada do WTC7 no MESMO DIA??? E os engenheiros americanos ainda protestam sobre a inexistência do tal relatório final sobre o fato. Vão esperar sentados…

    E cadê o corpo do Bin? O gato comeu?

    Fala sério…

  3. Eh! Nova Era!
    Um texto frio como deve ser analizado esta passagem de seculo! Muito polemico tambem por colocar os pratos frios como num mundo tribal e calor ou a fogueira aquecendo as ideias, opiniao e visao. Nao vejo so com um mundo polarizado e sim o consumo pelo avanco da populacao e a necessidade do varejo. Ha um caso que o movimento civil americano da decada 50/60 teve como figuras participatica o mercado, a restricoes a venda e o comercio a grande populacao negra estaria criando um mercado maior e melhor do que dos brancos. Um fator que esta vivendo o mundo este carnaval financeiro a relacao produto e dinheiro perdeu o valor para consumo. O homem precisa ganhar para consumir e na outra ponta o sistema.
    Um outro ponto eh a revolucao do computador da decada de 80. Informacao ficou livre e disponivel. Perdeu os Castelos. E
    Gerando um avanco na telefonia e internete.
    Hoje lendo sobre o prefeito de SP e lembrando a discussao internacional sobre Lula, e a polemica que ele criou quando passou a questionar a invasao no mundo Arabes e na Africa: “temos de resolver na diplomacia os conflitos”
    Hoje o mundo hoje criou uma distancia e conflito entre o intelectual, o politico e governantes com suas populacoes. A Grecia, Espanha Franca e a revolucao arabe como o movimento na america ( os 1% e os negros pobres/brancos) e america do sul ( julho/13) sao fatos vivos e distantes das acoes dos dirigentes. Assim aumentamos a polvora do barril e sentamos em cima e sem classe media por favor, agora somos todos pobres e alguns mais pobres.

  4. Colapso do capitalismo

    Talvez a teoria do valor defendida pelos teóriocos marxistas da revista Exit, como Robert Kurz e Anselm Jappe, seja a única que explica o caos atual com coerência e cuja teoria esteja de acordo com os fatos. Segundo eles esta crise é diferente das outras porque desta vez não há escape para o capitalismo…

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