Quintas-Feiras Brancas, por Fernando Nogueira da Costa

Em vez de analisar dados estruturais, a preferência dos altistas é por espalhar rumores ou boatos otimistas para inflar a bolha.

Quintas-Feiras Brancas

por Fernando Nogueira da Costa

“Um alvoroço incomum nos arredores da Bolsa de Valores de Nova York chamou a atenção do comissário de polícia da cidade, na última quinta-feira, dia 24 de outubro de 1929. Com olhares horrorizados e incrédulos, os nova-iorquinos, espremidos uns aos outros, estavam inertes. Eles apenas esperavam, não se sabe ao certo quem ou o quê. Era o pânico.”

A narrativa histórica recupera os acontecimentos daquele dia fatal. Dentro do prédio, corretores e operadores eram protagonistas e testemunhas do ocorrido de modo a mudar os rumos da economia mundial.

Símbolo maior da pujança econômica dos Estados Unidos, o mercado de ações tinha se tornado verdadeira mania nacional naquela década gloriosa para os americanos. Viam seu baluarte, a rica e poderosa Bolsa de Nova York, despedaçar-se em poucos minutos naquele dia entrado para os anais como a “quinta-feira negra”.

Passado o fim-de-semana, Wall Street presenciou outras duas jornadas calamitosas em 28 e 29 de outubro, “segunda-feira negra” e “terça-feira negra”. Este último foi o dia mais nefasto de toda a história do mercado mundial em volume de vendas e queda de preços. As palavras otimistas dos políticos, banqueiros e magnatas, dando alento aos investidores após o crash do dia 24, já não surtiam mais efeito ao insistirem em anunciar uma suposta solidez da economia.

Nos últimos anos, o fenomenal desempenho das ações parecia desafiar a experiência: tudo a se elevar sem sustentação em bons fundamentos deve depois cair. Há pouco mais de um mês, em 3 de setembro, o índice de ações industriais publicados pelo diário The New York Times atingia seu ápice histórico, com 452 pontos. Em 1925, o mesmo indicador registrava 159 pontos.

A facilidade da compra de ações seduziu milhares de investidores. Eles colocavam todo o dinheiro próprio e, especialmente, o tomado de terceiros. Comprar ações “na margem”, pagando uma pequeníssima parcela do valor e tomando o restante emprestado do corretor ou do banco, era, antes, prática comum e aparentemente segura. Afinal, como as ações não paravam de se valorizar, bastava vendê-las, quitar o débito com o credor e embolsar o lucro. A euforia era infinita.

Alertar para essa situação significava ser tachado de radical extremista ou antipatriota. Entretanto, nos meses de setembro e outubro, o mercado já vinha se mostrando demasiado irregular, com ligeira curva decrescente, apesar de o entusiasmo com o bull market (o mercado-touro altista) ainda caracterizar a Bolsa de Nova York.

Outros indicadores econômicos nos Estados Unidos vinham apresentando declínio acentuado naquele ano. Os índices da produção industrial e fabril estavam em queda desde junho, bem como a produção de aço. A construção de casas seguia o ritmo cadente dos últimos anos.

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No entanto, os especuladores usam argumentos de autoridade leviana para ir contra os fatos. O professor Irving Fisher, catedrático da Universidade de Yale e respeitadíssimo “economista oráculo”, disse na ocasião: “O preço das ações alcançou o que parece ser um nível permanentemente elevado. Espero ver, dentro de poucos meses, o mercado de valores bem mais alto do que está hoje.”

A queda levou à chamada de inúmeros investidores para pagamento do aumento da margem de segurança. Muitos devedores não tinham nenhuma reserva financeira: todo o dinheiro estava aplicado nas ações. Não havia outra alternativa, então, senão se desfazer dos papéis a qualquer preço para tentar recuperar o restante do investimento já em queda. Liquidados, os reflexos do pânico levou a onze conhecidos especuladores cometerem suicídio.

A memória é curta: menos de um século após, o temor de o novo coronavírus se espalhar pelo mundo pautou o comportamento dos mercados globais no dia 21/01/2020, levando os investidores a exigirem mais prêmio de risco em suas apostas. Como resultado, o Ibovespa perdeu mais de 1% em um movimento influenciado, também, pela queda das ações da Vale e de bancos. Em paralelo, a busca por proteção levou o dólar comercial para a cotação de R$ 4,20, em um dia de desvalorização de boa parte das moedas emergentes. Tinha encerrado o ano anterior em R$ 4,00.

Na tarde da “quinta-feira branca”, dois dias após, logo quando os comentários de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, chegaram às mesas de operação, um sinal de alívio se instaurou no mercado futuro de juros. Boa parte da pressão sobre as taxas foi revertida, por conta de as declarações do dirigente respaldarem as apostas em um cenário de juros baixos. “Em um momento de dólar alto e choques de oferta, o presidente do BCB ajuda a ancorar o debate e indica o mais importante é olhar o comportamento dos núcleos de inflação”, disse um ilusionista.

Por conta da tendência da queda da taxa de juro, nesse dia 23/01/2020, o Ibovespa registrou o maior índice da história: 119.527 pontos. E o principal jornal econômico do país nada comentou a respeito!

Na segunda-feira, mesmo com queda do Ibovespa já na sexta-feira, ele somente noticiou: “A campanha para as eleições presidenciais dos EUA em 2020 promete ser uma das mais agressivas da história recente e tem potencial para acentuar a volatilidade nos mercados. Isso não significa, porém, os índices das bolsas de Nova York serem necessariamente levados para terreno negativo. Dos 18 anos eleitorais nos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o S&P 500 encerrou em queda em somente quatro: dois deles, em meio às duas últimas piores crises no país, em 2008 e 2000”.

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Virando a página, podia-se ler:  os agentes autônomos, registrados na CVM, encerraram no ano passado com 10.798 profissionais, um avanço de 38,8% ante os 7.788 ao final de 2018. No total, o número de participantes regulados pela CVM atingiu 54.458 entidades, um avanço anual de 6,8%.

O avanço dos fundos de investimento foi de 17.718 em 2018 para 19.427 em 2019. O número de plataformas de equity crowdfunding, registradas na CVM, praticamente dobrou em um ano. As captações no Brasil alcançaram a marca de R$ 450,7 bilhões em 2019, alta de 62% em relação ao ano anterior.

A marca, histórica para o mercado, foi atingida pelo desempenho do mercado de dívida, cujas captações de R$ 286,6 bilhões, responderam por 63% do total. As emissões de debêntures (R$ 185,8 bilhões) e FIDC (R$ 36,3 bilhões) atingiram patamares inéditos.

As emissões de ações somaram R$ 90,1 bilhões no ano passado ante R$ 11,2 bilhões em 2018. Porém, o número de empresas abertas com registro ativo e negociações em bolsa caiu de 332 em 2018 para 328 no fim do ano passado.

O estoque total de valores mobiliários sob a regulação da CVM encerrou o ano estimado em cerca de R$ 35 trilhões (5 vezes o PIB), um crescimento de 85% em relação ao ano anterior. Segundo a autarquia, o aumento se deu pelo avanço do valor nocional dos derivativos, de R$ 10 trilhões para cerca de R$ 24 trilhões em dezembro de 2019.

Em vez de analisar dados estruturais, a preferência dos altistas é por espalhar rumores ou boatos otimistas para inflar a bolha. Por exemplo, apesar da reversão, o jornal noticiava: “A iniciativa do governo chinês para conter o surto de coronavírus amenizou as preocupações dos investidores e abriu espaço para a recuperação dos ativos de risco, após o tombo na véspera. Por aqui, esse movimento ajudou o Ibovespa a fechar em firme alta, de volta na marca de 118 mil pontos” (Valor, 23/01/20).

Cinco dias após, noticia o contrário: “As bolsas de valores registraram fortes perdas diante do temor de a economia chinesa, a segunda maior do mundo, desacelerar por conta das providências tomadas para evitar a disseminação do vírus, quando já está crescendo ao menor ritmo das últimas três décadas. Entre os mercados acionários mais relevantes, o brasileiro teve o maior recuo ontem: o Ibovespa, principal índice da B3, caiu 3,29%, indo para 114.481 pontos. Apenas duas empresas brasileiras, Petrobras e Vale, perderam R$ 34 bilhões em valor de mercado”.

Virando a página, podia-se ler: o acirramento dos conflitos comerciais entre Estados Unidos e China, nos dois últimos anos, favoreceu as exportações brasileiras e deixou o país ainda mais dependente desses dois grandes mercados importadores. Do fim de 2017 até o ano passado, as exportações aos dois países passaram de 34,2% para 41,3%. O déficit em conta corrente atingiu em 2019 o maior nível em quatro anos.

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No último dia de janeiro, o noticiário sobre o avanço do coronavírus abalou os mercados financeiros do mundo todo e jogou luz a uma discussão entre gestores e investidores: há exagero na recente valorização das ações da bolsa brasileira? “A busca dos investidores por ativos mais seguros – como dólar e Treasuries – em detrimento daqueles com mais risco e retorno, especialmente as ações, explica o fato de o Ibovespa ter tido um dos piores desempenhos dentre as bolsas do mundo nesta quinta-feira [negra]”. O Ibovespa terminou o primeiro mês do ano de 2020, no qual atingiu seu pico, com queda de -0,10%, face à elevação de 31,58% no ano de 2019.

Entretanto, contra os alertas, os gestores de recursos mantiveram um viés benigno para os ativos de risco. No pêndulo, a favor era apontada a primeira fase do acordo comercial entre China e Estados Unidos, outro ano de farta liquidez e baixas taxas de juros nos países desenvolvidos, o retorno do crescimento da economia brasileira, a consequente atração de investimentos diretos ou de portfólios, mesmo com a Selic na mínima histórica (naquele mês) em 4,5% ao ano. Isso continuaria motivando o investidor a sair da renda fixa tradicional e especular com crédito privado, fundos imobiliários e ações.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Golpe Econômico: Locaute ou Nocaute da Economia Brasileira” (2020). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/
E-mail: [email protected]

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