Racismo: velho problema da sociedade brasileira, por Fernando Alves Silva Neto

Se o racismo nunca chegou a ser uma questão para discussão séria no Brasil, enquanto uma pátria livre, até os tempos de hoje, não significa que ele não exista na sociedade brasileira.

Racismo: velho problema da sociedade brasileira

por Fernando Alves Silva Neto[1]

“A liberdade é cor da noite.”
– Jean-Paul Sartre

O dilema racial brasileiro, na forma com que se manifesta hoje, tem suas raízes na história de negação social do próprio racismo pelo povo brasileiro. Durante grande parte da história do Brasil, não houve um momento de reflexão acerca da condição social e socioeconômica do “negro” ou do “pardo” dentro da sociedade. O que encontramos na história do Brasil é uma continuidade da tradição escravocrata, que consiste na perpetuação de certas figuras que são: o “negro” ou “pardo” como seres naturalmente inferiores e existentes apenas para servir o “senhor”, que respectivamente é o homem “branco” que possui a superioridade em cultura, roupas e educação.

Essas duas figuras acabaram sendo eternizadas no Brasil, assim, mesmo depois da Abolição em 1888, não houve um espaço para o “negro livre” entrar na sociedade em igualdade com branco, sem que sua imagem social esteja interligada com as figuras de “escravo” e “senhor”. Desta forma, o negro como um homem livre continuou sendo o “ser inferior” jogado as margens da sociedade, enquanto o “branco” continuou a ocupar os melhores empregos e postos sociais, pois o “negro livre” não era uma ameaça ao estilo de vida do branco dentro da pátria livre. Sobre isso, Florestan Fernandes, comenta que “a cor não é um elemento importante na percepção e na consciência racial do mundo pelo branco. Até agora, ele nunca se sentiu ameaçado pela desintegração da escravidão e pela competição ou conflito com negros e mulatos. O branco só percebe o negro ou o mulato e tem consciência dele quando enfrenta uma situação concreta, inesperada, ou quando a sua atenção é dirigida para questões relacionadas ao problema da cor”[2].

Se o racismo nunca chegou a ser uma questão para discussão séria no Brasil, enquanto uma pátria livre, até os tempos de hoje, não significa que ele não exista na sociedade brasileira. Mas que foi negligenciado pela sociedade branca ou silenciado, como ocorreu com o movimento negro em 1930, que foi acusado de não ser um movimento antirracista, mas sim, um movimento que criava as circunstâncias para existência do racismo. Essa argumentação, que acusa o movimento por igualdade racial ser o fator do nascimento do racismo, pode ser vista ainda hoje, porém, ela não passa de uma forma de mascarar a desigualdade que persegue o negro mediante sua cor de pele.

A estrutura social do Brasil baseada no homem branco apenas procura perpetuar a utópica ideia da existência de uma democracia racial, que é inexistente no território brasileiro. Entretanto, há momentos que o racismo salta diante de nossos olhos, principalmente agora, em que vivemos o mundo da globalização digital, que permite a viralização de vídeos que retratam episódios de racismo. Neste ano de 2020, vivenciamos um acontecimento histórico no Estados Unidos, quando um rapaz negro George Floyd foi asfixiado por policiais brancos, ato de violência policial, que ocasionou na morte do rapaz. Tal acontecimento gerou uma onda de revolta e protesto do movimento negro americano, com o surgimento do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), um movimento que exige o reconhecimento de igualdade entre vidas negras e brancas, que percorreu todo o Estados Unidos e também o mundo via internet. Diante dessa situação, a discussão sobre violência policial contra o povo negro ganhou os holofotes no Brasil, como também trouxe à tona a importância da discussão do problema do preconceito racial que está intrínseco na sociedade brasileira.

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Depois do caso americano de George Floyd, o Brasil foi palco de tristes episódios de racismo e preconceito. O primeiro caso a ganhar repercussão entre o povo brasileiro, foi do jovem negro que comprou um relógio para presentear seu pai, porém, ao entrar no shopping para trocar o relógio por outro modelo, acabou sendo abordado por dois policiais apaisanas que o sufocaram e o agrediram, sujeitos que estavam supostamente fazendo a segurança do recinto. É, lógico, que mesmo o jovem possuindo a nota fiscal do produto, argumentando que não estava fazendo nada de errado, os indivíduos não pararam de agredi-lo. As cenas que foram gravadas e expostas na internet, mostram claramente a crueldade dos indivíduos contra o rapaz, que infelizmente carrega em sua pele a cor que é estigmatizada em nossa sociedade.

A cena não pode ser interpretada de outra forma a não ser com um episódio de racismo. Diante disso, o povo brasileiro adquire consciência que o Brasil também não está livre do racismo, mas que é vítima dele sem ter consciência da extensão do mesmo dentro da sociedade. Assim, para alguns brasileiros o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), é algo de grande significação para pensar o preconceito racial no Brasil, pois o negro brasileiro enfrenta de maneira análoga as mesmas injustiças que o negro americano, como é o caso da violência policial. Porém, não podemos esquecer que dentro de qualquer sociedade fundada inicialmente numa estrutura escravocrata, como é o caso do EUA e Brasil, o preconceito racial é ainda hoje um dos alicerces da sociedade “livre”, que garante a liberdade apenas para o homem “branco”.

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Esse pensamento que permeia o interior da nossa sociedade, é capaz de convencer uma parcela dos brasileiros, que os movimentos antirracista como o Black Lives Matter, servem apenas para intensificar e criar de fato o racismo. Pois, hoje com a enchente de desinformação que atinge o povo via internet, o mito da democracia racial nunca esteve tão vivo, já que cada vez mais pessoas “negras/pardas” e “brancas” acreditem que o racismo não existe no Brasil, que tudo não passa de casos isolados e sem importância.

Entretanto, recentemente houve outro episódio de racismo que não merece ser esquecido, mas relembrado e analisado para que possamos compreender que o racismo ainda se perpetua como uma relação arcaica entre escravo/servo e senhor. Foi o episódio do entregador de comida, que teve o vídeo da agressão compartilhado inúmeras vezes via internet e redes sociais. O jovem entregador sofreu ofensas de cunho racista de um morador de condomínio de luxo em São Paulo, o morador exaltado pela demora da entrega. Profere ofensas ao entregador, assim, despejando todo seu preconceito: “Você trabalha de motoboy […]. Quanto você tira por mês? […] Você não tem nem onde morar, moleque! […] Você tem inveja dessa cor também [apontando para o braço]”. As palavras sem dúvidas são horrendas e mergulhadas no preconceito racial, porém, não é algo novo no Brasil, é algo que vem se arrastando na sociedade brasileira de forma sorrateira, sem ser percebida no mais das vezes, mas que em certos momentos aparece de forma escancarada.

As palavras do homem “branco” morador do condomínio de luxo retratam perfeitamente a herança escravocrata brasileira. Pois, ao perguntar sobre o emprego, sobre o salário, depois mencionar a cor do rapaz, o sujeito quer expor sua superioridade, colocar “o negro” em seu lugar de origem. Lugar que para o branco é a inferioridade da raça e inferioridade material, causada pela continua exclusão social do negro desde a escravatura até os dias atuais, algo que o acompanhará até sua morte. Uma vez que a pátria livre não tem nenhuma pretensão de dar ao negro a verdade liberdade (liberdade enquanto inclusão social do negro na sociedade, com possibilidade de ascensão socioeconômica, educacional e cultural). Em outras palavras, o que vemos no morador do condômino de luxo é a figura do “senhor” de escravos dirigindo-se ao servo desobediente.

Segundo Florestan Fernando, “o padrão brasileiro de relação racial, ainda hoje dominante, foi construído para uma sociedade escravista, ou seja, para manter o negro sob a sujeição do branco. Enquanto esse padrão de relação racial não for abolido, a distância econômica, social e política entre o negro e o branco será grande, embora tal coisa não seja reconhecida de modo aberto, honesto e explicito”[3].

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Esses casos que estão sendo exposto hoje pela internet, torna mais visível essa estrutura social escravocrata, que ainda persiste no Brasil como uma herança maldita. Tanto o “negro” quanto o “branco”, ficam indignados com tais acontecimentos viralizados na internet, algo muito significativo para luta por igualdade racial, pois ambos os lados são levados a reflexão de seus atos e da própria sociedade.

Diante de tudo que foi exposto, podemos dizer que nunca houve no Brasil uma democracia racial, que mesmo em pleno ano de 2020, o negro ainda é tratado com um escravo. Sendo lembrado cotidianamente que dentro da sociedade, não há um espaço para ele, que suas conquistas, que são frutos de um trabalho hercúleo nesta sociedade desigual, são desprezíveis para o homem “branco”. Portanto, se o negro é tratado como escravo, o objetivo do movimento negro é buscar a liberdade, transformando a luta contra o racismo em uma busca continua por liberdade (social, política, econômica, cultural e etc.), porque a luta por liberdade do menos favorecido é a luta pela liberdade de toda sociedade.

“É em nome das qualidades étnicas que o negro, há pouco, reivindicava seu lugar ao sol; presentemente, é em sua missão que êle baseia seu direito à vida; e esta missão, como a do proletariado, lhe vem da sua situação histórica: por ter sofrido, mais do que qualquer outro, a exploração capitalista, adquiriu, mais do que todos os outros, o sentido da revolta e o amor à liberdade. E, por ser o mais oprimido, persegue necessariamente a libertação de todos, quando trabalha por sua própria libertação” (Jean-Paul Sartre, 1968, p120-121).

[1] Professor da rede pública de ensino do Estado do Paraná. Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Membro do Coletivo Escritos pela Democracia.

[2] Fernandes, Florestan. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Global, 2007, p 92.

[3] Fernandes, Florestan. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Global, 2007, p 60.

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2 comentários

  1. O Brasil que foi estruturado durante o 2.o Reinado, cuja Elite constrói naturalmente o Republicanismo Brasileiro, Livre, Democrático, Facultativo, Vanguarda na História da Humanidade é o projeto que além de exterminar a Escravidão que foi imposta por Políticas e Interesses de Países Europeus à Sociedade Brasileira, ainda produz uma Sociedade Inigualável, que não encontrará similaridade alguma na história da Humanidade. Enquanto a Eugenia e Xenofobia avançam mundo afora, enquanto Seres Humanos são rotulados e categorizados com vários níveis de Inferioridade, o avanço dos Progressos Humanos transformam o 2.o reinado em República. Mas principalmente transforma o Brasil numa Nação Miscigenada, como nenhuma outra. Sua Elite é Cruz e Souza, Luiz Gama, Machado de Assis, André Rebouças, Lima Barreto,… O Presidente da República é o negro Nilo Peçanha. Tudo isto é destruído na Ditadura Fascista e Eugênica de 1930.

  2. Quanta desinformação! O racismo científico vigorou do século XIX ao meio do século XX. O governo de Getúlio Vargas (que não foi só ditadura e não era fascista) promoveu a valorização da miscigenação em nosso povo, visando uma união nacional. É dessa época Gilberto Freyre, de Guerreiro Ramos, sociólogo negro que era assessor de Getúlio, e da quebra do paradigma racista. O recente racismo estimulado por FHC parece querer inverter as coisas…

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