Reclusões nos filmes brasileiros, por Walnice Nogueira Galvão

Um dos mais ilustres da história de nosso cinema é Memórias do cárcere. É ilustre por causa do livro em que se inspira, um clássico da autoria de Graciliano Ramos; e por causa do diretor, Nelson Pereira dos Santos

REPRODUCAO VERE1 S3 ARQUIVO 18/05/84 CARLOS VEREZA ED/VAR/JT. ATOR, CARLOS VEREZA, EM " MEMORIAS DO CARCERE ", DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS . PRODUCAO DE FOTO PB. DIVULGACAO/CREDITO NAO FORNECIDO.

Reclusões nos filmes brasileiros

por Walnice Nogueira Galvão

Aqui, bem perto de nós, há vários filmes brasileiros que ajudam a meditar sobre  reclusões.

Um dos mais ilustres da história de nosso cinema é Memórias do cárcere. É ilustre por causa do livro em que se inspira, um clássico da autoria de Graciliano Ramos; e por causa do diretor, Nelson Pereira dos Santos, que foi o fundador do Cinema Novo. Graciliano Ramos escreveu este informe extraordinário, de alta literatura, em que relata o que foi sua prisão arbitrária, sem acusação e sem julgamento, pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, numa atmosfera perfeitamente kafkiana, tal o grau de absurdo de que se revestiu. E narra como foi sua estada na colônia penal da Ilha Grande.

Da folha corrida do diretor constam alguns dos mais relevantes filmes de nosso cinema, a exemplo de Vidas secas, com base em outro livro do mesmo autor, que viria a ser um dos filmes brasileiros mais premiados no exterior. O cineasta seria mais tarde admitido na Academia Brasileira de Letras, tendo-se dedicado por sessenta anos ao cinema, numa obra vasta e produtiva como poucas. A data de 1955, quando foi lançado seu filme Rio, 40 graus, é considerada o marco de fundação do Cinema Novo. É um filme neorealista, que, como muitos outros que se seguiriam, dele e de outros cineastas, dava visibilidade ao povo, trazendo-o para dentro das telas, perquirindo a vida dos pobres, dos negros e dos favelados. E, ao longo desses sessenta anos, seus muitos filmes funcionam como padrões fincados numa trajetória que não é só dele mas de nosso cinema em geral.

Outros filmes descrevem,  tal como esse, experiências de prisão, quando não de manicômio.

Carandiru, dirigido por Hector Babenco,  aproveitou o tirocínio do Dr. Drauzio Varella como benemérito médico dos detentos, adaptando o livro que resultou de suas reminiscências. Seguindo de perto os acontecimentos reais, culmina no massacre perpetrado pelos policiais em 1992, quando invadiram violentamente a penitenciária e mataram 111 presos em rebelião. O Carandiru de São Paulo, a maior cadeia da América Latina, seria depois demolido.

A cineasta Lúcia Murat é uma grande contribuidora do gênero, escolhendo ângulos inusitados e instigantes, tratando questões substantivas. Primeiro, fez Que bom te ver viva, documentário sobre mulheres guerrilheiras que enfrentaram a ditadura, sendo presas e torturadas, como ela mesma. Depois, fez o filme de ficção Quase dois irmãos, em que discute a convivência entre dois detentos que foram amigos de infância, um negro e outro branco, um guerrilheiro e outro delinquente, ora confrades na mesma prisão. Depois faria  Uma longa viagem, um documentário sobre o irmão hippie e surfista que passou longos anos viajando pelo mundo e enfrentou temporadas aprisionado.

Numa variante do tema da reclusão, um dos membros do Cinema Pernambucano, o diretor do muito premiado Bacurau, tinha feito anteriormente O som ao redor. Neste último, tudo se passa no espaço de uma quadra de um certo bairro em Recife, num clima de confinamento e claustrofobia. Os moradores de classe média são cercados por grades, por guardas e por seguranças que os protegem e ameaçam ao mesmo tempo, assessorados por um excesso de aparelhos eletrônicos que servem à vigilância.

A Marcelo Gomes, outro cineasta dessa excelente safra que tem vindo do Nordeste, diretor laureado de Cinema, aspirinas e urubus, não agrada a generalização. Costuma dizer que “Cinema Pernambucano”  não passa de um rótulo e que ele próprio é apenas um diretor de cinema que por acaso é pernambucano… Há um quarto de século, assinalou o início da escalada dessa brilhante geração Baile perfumado, um filme inteligente, interessante, bem feito, dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Uma cinebiografia ficcional, tem como protagonista Benjamin Abraão, o mascate libanês que foi a única pessoa a filmar o bando do cangaceiro Lampião, num curta-metragem de 11 minutos. Hoje, devidamente restaurada, a preciosidade se encontra sob a guarda do Instituto Joaquim Nabuco, em Recife.

E ficamos conjeturando quais serão os filmes com reflexões sobre confinamento que analisarão estes tempos que estamos vivendo. É cedo para saber…

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora