Reeleição em tempos de crises, por Daniel Afonso da Silva

Desde que convicções too big to fail reverteram expectativas e começaram a fracassar com a crise de financeira de 2008, o ímpeto mudancista invadiu o imaginário coletivo mundo afora. O presidente Lula abriu e liderou o coro da necessidade de reposicionamento dos países emergentes no concerto das nações. Afirmou que a crise tinha sido promovida pela gente rica, branca e de olhos azuis. E, que, portanto, os pobres, e os países pobres – sempre ausentes do processo decisório –, não deveriam nem poderiam pagar pelas descomposturas dos causadores da crise. As regras do jogo precisariam mudar. Era chegada a hora da política.

No âmbito da governança global, os países emergentes passaram a ter mais que o café e o “obrigado pela presença” ao final das reuniões multilaterais. Sua voz passou a ser mais ouvida e melhor sentida. O G20 com chefes de estado inaugurado na decorrência da quebra do Lehman Brothers em novembro de 2008 foi uma grande modificação, mesmo que temporária, do statu quo ante. Os encontros de Washington, Londres e Pittsburgh tiveram ampla participação dos BRICs e de outras aglomerações de países não-centrais. Nesses momentos, o protagonismo do Brasil foi incontestável. Mas, com o estancamento da hemorragia das finanças, esse protagonismo começou a diminuir.

No plano técnico, a crise financeira foi resolvida em 2009. O que se vive doravante são seus desdobramentos, materializados em múltiplas crises.

O impacto da avaria das finanças gerou crises econômicas. O desgoverno econômico forjou desemprego em massa. O desemprego generalizado impôs protestos populares traduzidos em crises sociais. As crises sociais levaram as pessoas, desiludidas com a possibilidade de um futuro melhor, a desmascarar a impotência de seus governantes. Essa descoberta causou crises políticas em série. Nessas crises, o lema argentino do que se vayan todos virou cantilena universal. De Nova Iorque a Madrid a Paris ao Cairo a Benghazi a Tunes a Teerã a Damasco a São Paulo a Hong Kong os cidadãos passaram a ignorar seus representantes. O “eles não nos representam” insuflou crises institucionais. Essas crises levaram muitas ditaduras do mundo árabe a serem contestadas e derrubadas, e conduziram o povo de muitas democracias consistentes a isolar, fragilizar e desmoralizar seus mandatários.

Entre os europeus, poucos governantes foram reconduzidos ao poder depois de 2008. Na Grécia e na Itália, os líderes políticos foram substituídos por homens da burocracia financeira. Preferencialmente antigos funcionários da Goldman Sachs. Na Espanha, o primeiro-ministro Mariano Rajoy venceu as eleições por défaut. Os indignados da Puerta del Sol e da Plaza del dos de Mayo foram os verdadeiros vencedores do pleito. Na França, o presidente Sarkozy foi praticamente soterrado pelo líder socialista, François Hollande, e pela ascensão do Front National da família Le Pen. No geral, somente a Alemanha foi às urnas para manter seus governantes. No caso, Angela Merkel e seus próximos.

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Nas Américas o cenário foi diferente, mas não indiferente. A crítica e a crise foram decisivas nas eleições.

O presidente Obama fora eleito em fins de 2008 para superar os fantasmas do presidente Bush – Iraque, Afeganistão e a própria crise de subprime. Menos de cem dias no poder, por meados de 2009, ele viu o seu “Yes, we can” esmaecer a ponto de desmilinguir. Não demorou muito e os insatisfeitos de seu país ocuparam Wall Street e prometeram custar a sair. E assim o fizeram. Para conseguir a reeleição em 2012, Obama precisou suportar as pressões do Congresso, localizar Bin Laden – e, assim, demonstrar que “justice has been done” – e anunciar o fim da decade of war. Mesmo assim correu riscos reais de perder o pleito.

Ao sul do hemisfério, na Bolívia de Morales e na Venezuela de Chaves e Maduro, as reeleições foram “fáceis” por razões evidentes. Na Argentina, o consenso derredor dos Kirchner foi matizado pelo luto nacional entorno do corpo morto de Néstor Kirchner que ajudou muitíssimo na reeleição de Cristina Kirchner em 2010. No Brasil, a reeleição da presidente Dilma Rousseff porta um pouco de todas essas contradições, dificuldades e desatinos.

No geral, a esperança, que vencera o medo ao eleger o presidente Lula em 2002, conseguiu enfaticamente afugentar a frustração em 2014. Os brasileiros quiseram mudar, mas sem sobressaltos. Sem surpresas, sem rememorações e sem o governo dos melhores da pretensa democracia de alta intensidade incorporada aos preceitos do candidato do PSDB.

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Difícil atribuir um ou outro fator como exclusivo, imperativo e determinante da vitória ou da derrota numa eleição tão densa em complexidade e profissionalismo como a brasileira. Mas a capacidade da presidente Dilma em gerir crises ao longo de seu governo talvez seja uma possível chave de compreensão de sua reeleição.

De volta ao passado, o pleito de 2010 foi praticamente decidido pelo lulismo e pela marola.

O primeiro, o lulismo, foi identificado na reeleição do presidente Lula em 2006. Nesse ano – não mais que alguns meses das denúncias do escândalo do mensalão e do semi-assassinato de toda a legenda do metalúrgico-presidente –, foi a primeira vez que os pobres e os subproletários – aqueles que vendem sua força de trabalho no mercado sem ter efetiva contrapartida que lhes permitam retroalimentar a sua existência – votaram majoritariamente no PT e em Lula. Como esses segmentos eram, em sua maioria, beneficiários dos programas sociais do governo e moradores do norte e nordeste brasileiros, foi a primeira vez que essas regiões decidiram o destino do país. A segunda vez foi em 2010.

Na primeira vitória da presidente Dilma, em 2010, outro fator de importância foi a capacidade do governo reeleito de Lula em conter, superar e explicar aos brasileiros os efeitos da crise financeira mundial de 2008. “Caso chegue aqui, será uma marola”. Essa imagem e seus desdobramentos aguçaram a autoestima de amplas porções da sociedade brasileira. Foi a chave do tesouro de Lula para Dilma.

Do 2 de janeiro de 2011 ao 26 de outubro de 2014, o lulismo foi preservado, consolidado e sofisticado. Isso, por certo, explica parte da reeleição da presidente. Outra parte talvez fique por conta de sua competente gestão da marola que virou vendaval.

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A crise financeira não apenas chegou ao Brasil no primeiro mandato da presidente Dilma como promoveu sentimentos exacerbados. Os acontecimentos de junho de 2013 foram a mostra mais evidente disso.

Milhões de pessoas invadiram as ruas de mais de 300 municípios querendo muito mais que a simples redução de 20 centavos na tarifa do transporte público. Seu protesto era contra a classe política.

A resposta da presidente Dilma foi certeira, precisa e eficiente.

Os movimentos de protesto começaram no dia 6 de junho. A presidente aguardou até o dia 18, quando eles ganharam dimensão realmente nacional, para se pronunciar. Seu pronunciamento propôs diagnóstico e solução.

Identificou que a gente nas ruas reivindicava a aceleração da continuidade das mudanças e explicou que o empecilho dessa aceleração era a classe política. Nessas condições, ela, a presidente, era impotente diante das reivindicações. Seria necessária uma reforma política para reformar a classe política.

Esse reconhecimento de impotência gerou o esvaziamento dos protestos de junho. A maioria dos brasileiros entendeu a complexidade da situação e conferiu um voto de consideração à presidente. Os protestos continuaram existindo. Mas esparsos, ralos e rasos. Mesmo os xingamentos diuturnos, afrontosos à presidente e ao seu partido, foram perdendo o impacto e virando o inverso de sua intenção.

O primeiro turno das eleições de 2014 demonstrou que nenhum candidato fora capaz de encarnar os anseios de junho. O segundo turno mostrou que junho de 2013 talvez tenha sido apenas o momento, como dissera a presidente Dilma na ocasião, em que “o Brasil acordou mais forte”. Nesse sentido, venceu as eleições, mesmo que com margem ínfima de diferença, o projeto de continuação segura das mudanças e da superação das crises.

Daniel Afonso da Silva é professor da Universidade Estadual da Paraíba.

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