Reflexões sobre o Histórico da Participação Política Partidária dos Católicos Carismáticos na Politica Brasileira, por Marcos V. F. Reis

Os intelectuais da RCC não apoiam nenhum partido político ou candidatura – assim, a iniciativa das candidaturas são de caráter pessoal do político.

Foto Observatório do 3º Setor

Religião e Sociedade na Atualidade

Reflexões sobre o Histórico da Participação Política Partidária dos Católicos Carismáticos na Politica Brasileira

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

A participação da RCC no cenário político se deu pela participação partidária. O primeiro parlamentar eleito como Deputado Federal (pelo Estado de Minas Gerais), no início da década de 1990, foi Osmânio Pereira (PSDB/MG), então coordenador nacional do movimento. Em Campinas, foi eleito Salvador Zimbaldi (PSDB/SP) – pregador e coordenador da RCC local, apoiado pelo Padre Eduardo (dono da emissora de TV século XXI) – como vereador, em 1988 e 1994, e Deputado Federal nas eleições seguintes. Outros políticos expressivos na RCC se elegeram em seus primeiros cargos pelo PSDB: ex-vereador e atual Deputado Federal Gabriel Chalita (eleito vereador pelo PSDB/SP), ex-Deputado Federal Miguel Martini (quando era vivo foi filiado ao Partido Humanista Solidariedade – PHS – mas eleito Deputado Estadual pelo PSDB/MG), dentre outros. A RCC se utiliza de cartilhas e eventos para orientações políticas, abre espaços em seus grupos de oração e meios de comunicação para propaganda dos políticos, além de dar apoio explícito a certos candidatos

Inicialmente, existia  um desinteresse, por  parte dos líderes da  RCC, pela  participação política dos seus membros. Quando estes entravam no cenário político, rejeitavam a proposta de luta política da ala progressista da Igreja e optavam pela via partidária com posições políticas bem definidas. A RCC conseguiu eleger Deputados Federais e Estaduais, vereadores e prefeitos em vários estados do Brasil.

Com a candidatura de várias lideranças a cargos políticos, em 1995, a RCC organizou a Secretaria Matia, que seria uma comissão responsável por organizar as questões relativas à RCC e à política no plano nacional. Esta comissão foi rotulada, nos anos 2000, como Ministério Fé e Política, e tinha por finalidade incentivar seus membros a participarem da política partidária, desenvolver trabalhos de conscientização do voto e lutar pela concretização dos direitos previstos por leis, além de ajudar as comunidades com orientações no período eleitoral, e campanhas educativas – preservação da ecologia, ética e direitos humanos – luta pela cidadania, evangelização no meio político, projetos sociais, seminários à luz de temas ligados à Doutrina Social da Igreja.

Salienta que o sucesso eleitoral dos candidatos da RCC está relacionada com o fato de que os grupos de oração são usados como palanques eleitorais, e os líderes da RCC, dentre eles o Padre Eduardo, ensinam que os católicos precisam de representantes na política para defender os interesses da Igreja e que cristão vota em cristão. Um dos interesses da Igreja consistia na obtenção de uma concessão de TV para a Comunidade da Associação do Senhor Jesus, em Valinhos, para a retransmissão do conteúdo católico.

Houve uma mudança política da RCC, avessa à participação política e a uma inserção significativa na área política, sobretudo por meio pela via partidária. Isto é explicado por dois motivos: o primeiro seria a própria pressão do Clero Católico, dos agentes da ala progressista, dos documentos católicos incentivando os católicos a se engajarem politicamente; o segundo motivo seria que as próprias lideranças da RCC, por iniciativas individuais, se candidatavam a cargos eletivos, ganhavam e ainda tinham uma expressão significativa de votos. Como foram vários os eleitos e candidatos ligados à RCC, o movimento se viu obrigado a organizar diretrizes nacionais para regulamentar a participação de seus membros na política.

Analisando as cartilhas, os documentos e as entrevistas sobre as orientações políticas da RCC, conclui que os direcionamentos ensinam os católicos a defenderem os interesses do bem comum (entende-se por bem comum os direitos e deveres do gênero humano). Em outras palavras, o fiel, em âmbito público, precisa defender os interesses de todos. E estes interesses estão ligados à recuperação da moralidade da vida pública, à conversão dos políticos, e à implantação dos direcionamentos da Doutrina Social da Igreja.

A noção de política entendida por este grupo, de forma teórica, equivale à luta pela cidadania, à participação política dos seus membros e outras atividades de conscientização política. No exercício prático, a participação política tem se reduzido apenas à política partidária, com o intuito de eleger seus representantes, e que estes sejam, no campo político, porta-vozes de suas necessidades.

Os intelectuais da RCC não apoiam nenhum partido político ou candidatura – assim, a iniciativa das candidaturas são de caráter pessoal do político. No período das eleições, a RCC utiliza seus grupos de oração e outras atividades promovidas pelo movimento, como espaços para propaganda política, e, ainda, seus fiéis são recrutados como cabos eleitorais. Podemos observar tal ocorrência na trajetória política de Paulo Mindello como vereador na cidade de Fortaleza. Mindello escolheu o PSDB para sua candidatura, em função da ampla estrutura do partido, por sugestão do Bispo de Fortaleza e por acreditar que, dentro do partido, poderia mudar algumas de suas posturas anticristãs. Percebe-se que, nos encontros da RCC, Mindello constrói uma imagem, por meio de suas palestras e dos jornais distribuídos, ou reafirma suas características de homem honesto, trabalhador, temente a Deus, conhecedor da realidade dos pobres e da doutrina cristã, com habilidades políticas e sem corrupção.

Podemos observar essa relação do político e do religioso em quatro eventos promovidos pela RCC do Ceará, com participação de Paulo Mindelo. O primeiro foi no lançamento de seu livro, em um colégio confessional católico, onde estavam presentes várias lideranças da RCC local e várias pessoas da classe média. O evento enfatiza a importância da candidatura de Mindello, seus feitos e suas qualidades pessoais e de político. O segundo evento foi em Messejana, em um salão da igreja.

Dentro da RCC, Mindello participa como autor de vários livros de fé e política e pontos doutrinais do catolicismo, possui graduação em economia e viaja por todo o Estado ministrando palestras e cursos de formação sobre diversos assuntos, além de coordenações. Na propaganda feita, reafirma ser o político que investiu em projetos de leis nas áreas de saúde, urbanização das favelas, geração de empregos e fiscalização do dinheiro público. No total, propôs 175 projetos de lei e participou de 3 CPIs. Esses dados são passados nos eventos feitos pela RCC por todo o Estado do Ceará e em entre as classes sociais baixa e média.

De acordo com as diretrizes da Renovação Carismática Católica, todos os candidatos recrutados serão acompanhados por um Conselho. Este Conselho deverá ser composto por indivíduos pertencentes ao movimento e indicados pelo coordenador geral da  RCC. Desde  a elaboração dos discursos políticos, a criação dos santinhos, as estratégias de marketing, a atuação junto aos partidos, as formas de propaganda, a exposição midiática, o controle financeiro,  a formação de coligações e até mesmo outras formas de aconselhamento são medidas adotadas entre o candidato e os seus acompanhadores em reuniões mensais. Esses acompanhamentos se darão após as eleições, caso o candidato seja eleito, para fiscalização de suas ações na arena política. Dito de outra forma, a instauração de uma metodologia de acompanhamento de seus políticos no processo eleitoral brasileiro consiste em uma estratégia da RCC de regular e fiscalizar as atividades dos seus acompanhados. Isto é, na prática, quando o Conselho elabora direcionamentos a ser executados pelo seu representante, significa o controle da RCC no mandato do político ou da campanha eleitoral do candidato, evitando, assim, que o mandatário trace ações de acordo com os seus interesses em detrimento dos interesses da própria RCC.

Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Politicas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Politicas Públicas. E-mail para contato: [email protected]

 

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1 comentário

  1. A Seita RCC é partidária desde que o tucanato lhes cedeu tirando do POVO a imensidão de terras onde esse grupo de lunáticos entram em transe coletivo falando línguas incompreensíveis que a mim causa risos e revolta.
    São fanáticos bolsonaristas assemelhando-se a nazistas,pregam ódio político só não enxerga quem não quer e quem enxerga e esconde é adepto dessa seita inúmeras vezes denunciada ao Vaticano,inclusive por mim próprio coma católico da teologia da libertação.
    Seus “sacerdotes” pregam a perseguição ideológica,o preconceito,a mentira e o ódio.
    O “douto autor fatalmente é membro dessa seita dentro da Igreja católica,são piores que a Opus Dei.

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