Reflexões Sobre os Evangélicos nas Eleições de 2020, por Marcos Vinicius de Freitas Reis

No processo de elaboração e aprovação da Constituição de 1988, iniciou a formação da bancada evangélica.

O Globo

Religião e Sociedade na Atualidade

Reflexões Sobre os Evangélicos nas Eleições de 2020

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

No início de cada década o Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE) realiza entrevista com a população brasileira com o intuito de identificar o seu perfil religioso.  Percebemos que desde a década de 1980, o número de pessoas que dizem professar a fé católica diminuiu, e houve aumento dos adeptos do   pentecostalismo e (neo)pentecostalismo e dos sem religião. Logo, o Brasil não é mais um país de hegemônica católica, e sim de pluralismo religioso, liderada por ramificações do cristianismo.

No processo de elaboração e aprovação da Constituição de 1988, iniciou a formação da bancada evangélica. Pela primeira vez na história política do Brasil, um grupo religioso diferente da Igreja Católica, consegue adentrar um espaço que até então era dominado pelo catolicismo.

Os evangélicos inauguram uma nova forma de fazer política. Utilizam suas estruturas eclesiásticas, empresariais, meios de comunicação, projetos sociais, e reuniões religiosas para projetar suas pretensões políticas e instrumentalizar para os candidatos apoiados oficialmente. Não são raros os momentos em que cultos ou eventos de massa são usados para pedir voto para candidatos a cargos do poder legislativo ou executivo ou posicionamentos a respeito dos mais variados temas de interesse nacional. A ideia é que os membros da Igreja votem nos “irmãos” da Igreja, para que o Brasil não deixe de ser cristão.

Em geral os temas defendidos pelos representantes evangélicos são vinculados a pautas do espectro ideológico político de direita. São fortemente contrários ao aborto, ampliação dos direitos para a comunidade LGBT, defendem o ensino religioso confessional, são liberais na economia, repudiam a liberação das drogas, e questionam a laicidade do Estado. A atuação é feita de forma estratégica e muito profissional.

Passados praticamente 30 anos do início da formação da bancada evangélica o grupo cresceu consideravelmente. O número de parlamentares evangélico são mais de cem. A quem diga que daqui a duas décadas o Brasil será de maioria evangélica em adeptos. Ou seja, o aumento representação política de evangélicos está ligada ao aumento do número de Igrejas Evangélicas no Brasil. Qualquer político da esfera federal, estadual ou municipal obrigatoriamente precisa negociar com os evangélicos do seu parlamento para poder aprovar seus projetos e conseguir o mínimo de governabilidade.

Nas eleições de 2020 o poder evangélico avança no poder executivo. Não foi comum acompanhar candidatos nas cidades pastores pleiteando serem os futuros prefeitos. Fenômeno que era comum no poder legislativo, agora expande para o poder executivo. Em geral, a votação nos prefeituráveis pastores não foram competitivas, entretanto, mostra força. Dito de outra forma: assumir a identidade evangélica em um pleito que exige votação de vários grupos sociais, e esta realidade é repetida em várias regiões do Brasil, nos mostra um projeto de poder claro, objetivo e forte. Projeto este que em algumas situações revela-se homofóbico, xenófobo, misógino, sexista, liberal, fundamentalista religioso e pouca proposta para uma agenda social para combate às desigualdades sociais. Há também as candidaturas evangélicas pragmáticas. Com o intuito de ascensão ao poder, faz coligações com partidos de esquerda ou a outros grupos políticos, e reproduzem a lógica do clientelismo, patrimonialismo, patriarcalismo para manterem a frente dos cargos públicos.

Segmentos evangélicos apoiaram os presidentes eleitos no Brasil. Estiveram no poder de FHC a Dilma. Contudo, com a eleição de Bolsonaro um novo capitulo é inaugurado na relação entre política e religião. Pela primeira vez na história do Brasil um presente defende abertamente as pautas conservadoras e cede muito espaço em seu governo a pastores. Vários líderes religiosos são ministros da república ou controlam projetos para o desenvolvimento de políticas públicas. A religião foi assumida como uma das variáveis mais importante para a definição das agendas de trabalho.

Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Políticas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Políticas Públicas. E-mail para contato: [email protected]

 

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2 comentários

  1. Eu acho que se confunde o que é ser evangelico com um bando de facinoras que lucram, e muito, com a falsa moralidade e com a fé dos incautos.
    Não dão ponto sem nó.
    Agora, por exemplo, deram jeitinho de aumentar a fatia do Fundeb para escolas ligadas a igrejas. Claro, vai pro bolso de “bispos”, “pastores” e outras excrescências neopentecostais.

  2. Essa linearidade entre número de evangélicos e votos não é baseado em qualquer evidência científica, por exemplo em 2016 Crivela obteve 842.201 votos no primeiro turno e 1.700.030 no segundo, em 2020 Crivela obteve no 974.804 primeiro turno e 576.825 no segundo turno, ou seja, nem repetiu de perto o desempenho no segundo turno e pelo que eu saiba Eduardo Paes não é evangélico.
    Provavelmente se Marcelo Freixo tivesse entrado na candidatura e não misteriosamente se omitido superaria facilmente os votos de Crivela.
    Achar que os evangélicos votam a partir dos seus pastores é uma simplificação completamente sem nenhuma comprovação empírica, já vimos nas eleições passadas para o senado em 2012 o ex-senador Magno Malta obteve 1.285.177, já em 2018 ele ficou em terceiro lugar com 611.284.
    Em resumo, nos dois casos há uma redução significativa no tempo de dois candidatos identificados com abancada evangélica o primeiro reduz para 1/3 da votação no segundo turno e o outro para a metade de seus votos.
    Não podemos esquecer que as religiões dominantes sempre se meteram em política, porém atingem um determinado patamar, regridem e não saem dessa votação.
    Provavelmente na próxima eleição a câmara e ao senado haverá uma redução no mínimo em 30% na câmara e mais do que isso no senado, a medida que os representantes se mostram somente a cara em duas ou três pautas e não fazem nada em outras pautas importante o tempo mostra a incompetência de grande parte deles e não são reeleitos.
    É uma espécie de voto Cacareco.

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