Reforma Protestante, Bolsonarismo e Evangélicos no atual contexto da Democracia, por Marcos V. de Freitas Reis

O presidente Bolsonaro e sua família nunca esconderam o seu apreço pelo autoritarismo.

Foto Ueslei Marcelino - Reuters

Reforma Protestante, Bolsonarismo e Evangélicos no atual contexto da Democracia Brasileira

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

Não é novidade para ninguém que setores do segmento evangélico apoiam incondicionalmente a atual gestão da presidência da República liderada pelo Jair Bolsonaro. Em vários cargos de primeiro ou segundo escalão são ocupados por pastores ou pastoras ou evangélicos com vinculados muito estreitos com algumas denominações.

O presidente Bolsonaro e sua família nunca esconderam o seu apreço pelo autoritarismo. Em 28 anos de deputado federal, Jair Bolsonaro, sempre defendeu a volta do regime militar, tortura, agressão contra jornalistas, fechamento de cursos de humanas das universidades, intervenção militar no congresso nacional, fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF), racismo, eliminação de partidos ou militantes de esquerda, teve falas homofóbicas e misóginas e morte para bandidos. Ou seja, nunca conseguiu lidar bem com os princípios democráticos estabelecidos na Constituição de 1988.

Não são raras as declarações em que o nosso presidente diz ser favorável a liberdade e democracia. A liberdade é entendida por parte da atual equipe ministerial é poder fazer o que quiser. Não respeitar as regras, não aceitar críticas, deseja de promover mudanças sem passar pelo congresso ou crítica dos meios de comunicação. O exemplo claro disto foi a reunião delirante ocorrida no dia 22 de abril de 2020 e a ida do presidente em manifestações que defendem abertamente o nazismo e o fechamento do Congresso Nacional e do STF.

Muitos líderes evangélicos permanecem apoiando o atual governo brasileiro mostrando sua simpatia pelo projeto autoritário de governo. Desenvolvem explicações que precisam apoiar o Presidente Jair Bolsonaro por fazer uma administração nos moldes da vontade de “Deus”, ao defender a vida, ser contra o aborto, contra a ampliação dos direitos da comunidade LGBT, demonização dos partidos de esquerda, beneficiar os evangélicos com cargos no governo, e promessa de futuramente indicar para o STF um ministro terrivelmente evangélicos.

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Contudo, o nascedouro do movimento protestante no mundo nasceu com outra proposta. A reforma protestante ocorrida no século XVI surge criticando a corrupção e o autoritarismo da Igreja Católica no mundo ocidental. Sabemos que no período da Idade Média muitas pessoas foram mortas por não concordarem com os valores defendidos e impostos pelo catolicismo daquela época. Lutero, em seus escritos defendia abertamente a laicidade.

Líderes protestante clássicos defendiam que cada pessoa teria o direito de ter ou não uma religião, e que Igreja e Estado não se misturam. A política é o espaço da atuação de todos e de preferência uma democracia e as instituições religiosas são entidades de fórum privada que cuidam da espiritualidade das pessoas. Valores como liberdade, igualdade e fraternidade sempre foram bandeira do movimento protestante desde sua origem.

No Brasil os protestantes nem sempre foram bem vindos. Até a Constituição de 1891, quando adotamos a laicidade como valor legal, os protestantes poderiam apenas em culto privado exercer sua religiosidade. A única religião permitida que as atividades pudessem ter caráter público eram as vinculadas a Igrejas Católica.

Na primeira metade do século XX, a Igreja Católica era beneficiaria dos investimentos públicos em detrimento as outras confissões religiosas. Os evangélicos iniciaram passeatas, posicionamentos oficiais e até alguns parlamentares posicionaram em defesa da liberdade religiosa que o Brasil nunca teve. Como grupo minoritário reivindicava tratamento igualitário por parte do Estado em matéria de religião. Isto é, o movimento evangélico no Brasil desde o século XIX reivindicava a laicidade.

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Com o findar da ditadura militar grupos pentecostais e neopentecostais participam da Nova República elegendo seus representantes. Uma das justificativas da entrada dos evangélicos na política enquanto bancada era para evitar que o Brasil voltasse a Igreja Católica com a religião oficial do Brasil. Desde então a cada legislatura a bancada evangélica vem crescendo substancialmente no número de representantes e defendendo pautas conservadoras. Esteve na base de apoio praticamente em todos os presidentes que o Brasil teve.

Com Jair Bolsonaro os evangélicos ganharam mais destaque. Ocuparam mais ministérios, conseguem influenciar mais nas decisões do Congresso e avançaram no judiciário. Nunca foram tão claros quanto ao projeto de poder para o Brasil. Uma tristeza que o projeto seja a defesa de um governo autoritário que flerta com o nazismo. Esperamos que os princípios evangélicos que são calcados na laicidade sejam resgatados urgentemente.

Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Políticas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Politicas Públicas. E-mail para contato: [email protected]

 

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1 comentário

  1. No texto: “Em 28 anos de deputado federal, Jair Bolsonaro, sempre defendeu a volta do regime militar, tortura, agressão contra jornalistas, fechamento de cursos de humanas das universidades, intervenção militar no congresso nacional, fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF), racismo, eliminação de partidos ou militantes de esquerda, teve falas homofóbicas e misóginas e morte para bandidos. Ou seja, nunca conseguiu lidar bem com os princípios democráticos”.
    Ou seja, fez e falou merda a vida toda e só agora tentam controlar a besta?

    Quanto a “evangelização”, acho que se confundem interesses econômicos de algumas seitas comandadas por escroques, que apenas fazem da fé um negócio, com o legítimo movimento reformista cristão do século XVI liderado por Martinho Lutero.
    Religião e política, quando misturadas, sempre resultaram em merda.

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