Relatos do Apagão no Amapá, por Marcos Vinicius de Freitas Reis

O Amapá é a energia mais cara do Brasil e de pior qualidade. A ANEEL acabou de comunicar à sociedade que em 60 dias teremos aumento de energia. Que absurdo.

Religião e Sociedade na Atualidade

Relatos do Apagão no Amapá

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

Ao longo dos meus 34 anos já vive muitas dificuldades.  Perda da minha mãe querida, processo depressivo, problemas financeiros, discriminação, humilhações e outras pendências da vida. Entretanto, nunca havia ficado 22 dias sem energia elétrica. Sou oriundo de Patrocínio, Minas Gerais. Aprendemos desde criança que sem energia elétrica não conseguimos fazer nada. E também aprendemos que a cada ano que passa avançamos na questão tecnológica e que ficar sem luz era algo que acontecia no século passado. Isto é, algo praticamente impossível de acontecer nos tempos atuais. O máximo que acontecia era um período do dia ficarmos sem luz por uma questão técnica.

No dia 3 de novembro algo inusitado ocorre. Neste dia chovia muito forte na cidade toda. Por volta das 21:30 hs estava em minha residência e fui surpreendido pelo fim da energia elétrica. Inicialmente não me espantei em função que as quedas de energia no Estado do Amapá são comuns.  Ao passar as horas e com os comentários das redes sociais percebi algo bem diferente. Fotos, filmagens, discursos e comentários a respeito de um possível raio que caiu na estação de energia elétrica localizada no município de Macapá que deixou naquela noite 13 municípios sem energia elétrica.

Passado aquela noite sem luz e no calor infernal da região amazônica a população foi informada que 13 cidades do Amapá (o Estado do Amapá possui 16 municípios e com uma população em média de 820 mil pessoas) ficariam sem energia elétrica por tempo indeterminado. Estava iniciando um pesadelo que jamais pensaria em viver na minha vida. Ao longo dos dias o desespero das pessoas e logicamente o meu também começou a aparecer. Ficamos sem energia, sem água, sem internet, sem telefone, falta de gerador para os supermercados, filas enormes para sacar dinheiro nos poucos caixas eletrônicos que funcionavam e possuíam dinheiro, aumento dos assaltos, e falta de comida nos estabelecimentos. No terceiro dia do apagão filas enormes nos postos de gasolina e para carregar celular nos locais públicos que possuíam energia. Estava instalada a crise humanitária em pleno século XXI.

Leia também:  Vai-se a Ford, vai-se o fordismo, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Geograficamente o Estado do Amapá é isolado do Brasil. Somos banhados pelo lindíssimo rio Amazonas e a interligação terrestre é feita na fronteira com a Guiana Francesa com o município de Oiapoque. A realidade supracitada dificulta o abastecimento rápido de mercadorias e a saída para outros lugares do Brasil. Nestes 4 dias sem luz totalmente a elite conseguiu hospedar nos hotéis com as poucas vagas disponíveis que haviam, mas a população pobre a classe média baixa foram duramente afetados pelo apagão.

Ao longo dos 22 dias da crise energética, os 4 primeiros dias sem energia e os dias subsequentes em rodízios de energia, inicialmente 6 em 6 horas e depois com escalas diurnas de 4 em 4 horas, e a noite de 3 em 3 horas. O rodizio proposto não funcionou bem. Muitas regiões não tiveram a energia a escala respeitada ficando sem energia longas horas. Áreas nobres dos municípios ou em locais que políticos ou outras autoridades moravam pouco faltaram energia. Desrespeito total com a população. Paralelo a isso, prejuízos financeiros para os comerciantes e as pessoas que tiveram seus eletrodomésticos queimados e tiveram que jogar fora mantimentos.

A situação não para por aqui. Demora imensurável para resolver o problema. Demoraram mais de 20 dias para trazerem gerador para que a carga total da energia do Estado fosse estabelecida. Até o presente momento não temos um laudo apurado das razões pela crise de energia do Amapá. Pasmem o Estado todo ficou sem energia.

As questões políticas nos chamam atenção. As eleições da capital Macapá foram adiadas. A justificativa dada que não tinha condições energética para garantir a segurança das eleições. O curioso que os outros municípios afetados pelo apagão tiveram garantida a eleição. De fato adiar as eleições por falta de energia é uma justificativa plausível, agora porque apenas na capital?  Os comentários que circulam nas redes sociais e na população são em função do desempenho do candidato à prefeitura de Macapá Josiel Alcolumbre (DEM-AP), irmão do atual presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP). Do início do Apagão até a última pesquisa divulgada em 14 de novembro, o referido candidato caiu 9 pontos percentuais (saiu de 31% para 22 %). Nestes mesmos dias o presidente do Senado deu uma declaração em uma rádio local salientando que o maior prejudicado do apagão era o seu irmão, pois ele ganharia a eleição no primeiro turno. Revolta na população.

Leia também:  Resistência da mulher palestina: um feminismo anticolonial?, por Gilliam Mellane Ur Rehman

Ao longo dos dias do rodizio energético foram realizados muitos protestos em vários pontos da cidade. Foram várias promessas públicas de restabelecimento de energia que ocorreria nos próximos dias e que nunca efetivou. Queima de pneus, passeatas e discursos cobrando a volta da energia elétrica. Houve relatos de setores dos meios de comunicação e autoridades públicas pedindo paciência a população e alguns chamando de vândalos. Inacreditável.

O ápice do clima político foi a visita do presidente da República Jair Bolsonaro (Sem Partido). A convite do Senador Davi Alcoloumbre (DEM-AP), veio ao Amapá verificar o andamento do restabelecimento da energia elétrica. Caminhou pelas estações de energia que já estavam com os geradores, ligou o botão que teoricamente devolveria a energia ao estado todo, pronunciou que ficaríamos um mês sem pagar a conta de energia e que o governo federal estava todo mobilizado para resolver o problema. Acredito o que o presidente esqueceu de falar em seu pronunciamento que ele não quis dar auxilio emergencial para a população pobre, deveria ter vindo antes para resolver a crise, falta de política pública para ajuda para o pequeno empresário, dentre outras questões. O que esperar de um governo autoritário que tem compromissos com fundamentistas religiosos, garimpos ilegais e não gosta de índio?

Ao fim de 22 dias temos energia. Nada se fala mais da resolução da crise. Ficamos 11 meses operando um gerador sobrecarregado e sem nenhum na reserva. Acreditamos que este problema fosse em outro local certamente o problema teria sido resolvido rapidamente. Não ser o centro econômico do país é passar pela experiência do preconceito e da inferioridade. A crise energética apenas reforçou a forma como somos lidados somos tratados por Brasília: inferiores, subalternos, subdesenvolvidos e dentre outras visões estereotipadas.

Leia também:  Catch up tecnológico e a superação da renda média: o papel do CEITEC no Brasil, por Uallace Moreira

A discussão agora é sobre privatização da energia do Amapá. Vamos lá. A empresa que fornece energia é espanhola. Ou seja, é privatizada. A distribuição é feita pela empresa pública. Ao longo das últimas décadas o Amapá foi governado por governos de esquerda que lotearam a estatal para atender interesses políticos. Muitas pessoas no Estado não pagam energia em função de um discurso populista para manter uma base eleitoral. Pouco investiu nestes últimos anos na questão energética. O Amapá é a energia mais cara do Brasil e de pior qualidade. A ANEEL acabou de comunicar à sociedade que em 60 dias teremos aumento de energia. Que absurdo. Precisamos de uma gestão pública séria e política pública que atenda de forma barata e com a qualidade a população local.

Resultado do Apagão: aumento dos casos de covid, aumento do desemprego com o fechamento de comércio, aumento da criminalidade e a insegurança da população. Diante de tudo isso, espero que a Amazônia seja valorizada e que as eleições municipais na capital escolham pessoas que olhem para a população da forma que ela merece.

Marcos Vinicius de Freitas ReisProfessor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Politicas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Políticas Públicas. E-mail para contato: [email protected]

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome