Relatos do Front: quem ganha com o discurso de guerra?

Relatos do Front: quem ganha com o discurso de guerra?

por Ingrid de Oliveira, Pedro Barreto e Jacqueline Quaresemin

O texto em questão faz uma análise de guerrilha sobre à segurança pública no Brasil, a partir do Documentário “Relatos do Front”, buscando mostrar como a construção de um discurso de “guerra” nas favelas há muito vem legitimando o crescimento de opiniões autoritárias. O Documentário, mostra cenas reais da violência nas favelas e periferias da “Cidade Maravilhosa”, com depoimentos das vítimas, dos dois lados dessa “guerra”, que só tem beneficiado à indústria bélica e grupos políticos de interesse.

Nessa cidade partida, como diria Zuenir Ventura, qual é o valor da vida em meio ao combate armado? Por que o Estado se oculta numa cortina de fumaça ao longo dos anos? Num blend de técnicas e formatos o Documentário “Relatos do Front”, do Diretor Renato Martins, exibido na 42ª Mostra de Cinema de São Paulo, reflete e explora a narrativa que conecta os diferentes pontos envolvidos no conflito, suas motivações, desdobramentos, e as particularidades contemporâneas que contornam o caos.

É um Documentário que tem a responsabilidade de expor, com coerência, a complexa “guerra” que acontece nos morros e periferias da segunda maior cidade do país. Aliás, o termo “guerra” é parte de uma discursividade construída para justificar a ação bélica pesada. Ou seja, o Estado não atendendo as demandas de saneamento, saúde, educação, infraestrutura, entre outras, reprime moradores das favelas antes que esses se rebelem na luta por seus direitos. Foi assim, desde 1808, com a chegada da família real. O império, em uma terra “sem leis” e com vasta população negra e escrava, precisava de segurança. Desde então sedimentou-se uma cultura de criminalização da pobreza, atingindo principalmente população negra.

Cenas de um Rio de Janeiro paradisíaco – “o Rio de Janeiro continua lindo” já dizia Gilberto Gil, turístico e higienizado são registradas em imagens capturadas por drone. As cenas “maquiadas” vão surgindo no decorrer do Documentário, como pausas para propagandas de um programa policialesco e sangrento. As belas imagens se encaixam no padrão “para gringo ver”, que faz parte do imaginário social da cidade. Assim como aconteceu nas olimpíadas de 2016 quando painéis foram montados em diversas áreas da cidade camuflando a existência das favelas. A crítica aparece com dados extraídos de reportagens, que flutuam sobre as paisagens, apresentando um balanço estatístico drástico da violência no Rio de Janeiro.

De acordo com os estudos do filósofo Grégoire Chamayou, de cima, o drone idealiza que a cidade é vista por um olhar divino, daquele que tudo enxerga. Mas, será que ele olha para nós? Poderiam rogar, talvez, às vítimas deste caos, em uma interpretação sacra. Chamayou investiga, principalmente, a questão bélica estratégica que pode ser incorporada nos drones, assim como o seu poder de vigilância nas guerras contemporâneas. O drone bem pode integrar um projeto Panóptico, de que falava Foucault. Concebido pelo jurista inglês Jeremy Bentham, em 1785, o Panóptico era uma modelo de presídio que permitia a um único vigilante observar todos os presos sem que esses soubessem que estavam sendo observados. Agora o “vigilante” Drone é livre para nos céus das cidades, como seu olhar 360º, “vigiar e punir” tudo e todos considerados “perigosos” a um projeto de poder.

Em sentido oposto, a tecnologia também possibilita a descentralização do poder de comunicação das grandes mídias. A revolução digital facilitou a autonomia no registro e difusão dos acontecimentos pessoais e da comunidade. Trazer o olhar do front através dos registros das suas lentes é essencial para a integridade da obra, de acordo com seu título e proposta. O longa é intercalado com capturas de celulares, na vertical, que se alternam entre registros familiares, “de ostentação” e denúncias.

O blend de técnicas cinematográficas da obra traz indícios da contemporaneidade. Não apenas pelo uso de drones e vídeos em formato horizontal, há também uma série de tomadas em POV, a câmera em ponto de vista de primeira pessoa, em sua maioria retratando a mira de armas de grosso calibre e/ou veículos blindados, como o “caveirão”. Tal integração e preocupação de uma visão 360° se estende para a neutralidade crítica que a narrativa do Documentário permeia. São depoimentos de familiares de policiais e de jovens assassinados em tal “guerra”, policiais em atividade, policiais aposentados, “criminosos” reintegrados à sociedade, “criminosos” que simplesmente largaram a atividade, professores, jornalistas, pesquisadores e juristas.

Leia também:  Fim do terror ou terror sem fim?, por Ricardo Cappelli

Esses depoimentos/personagens da vida real tramam a rede do Documentário: um atestado bem direcionado ao pragmatismo do Estado e das milícias como responsáveis por um sistema fadado ao fracasso. Não há escolha de “lado do bem” e “lado do mal”, apenas um culpado: o Estado. Aquele mesmo Estado que primeiro esperou a polícia chegar para se estabelecer. Ou seja, o Estado chegou por último nas favelas e periferias dos grandes centros urbanos. Antes mandou os “soldados” para garantirem ordem diante de sua inação em políticas públicas.

Não faltam cenas de alto impacto e pouca subjetividade: fotojornalismo de guerra (o front de batalha de ambos os lados, muitas vezes de maneira simultânea), depoimentos emocionados, pessoas baleadas, cenas de velórios, condecorações militares e como padrão na história brasileira da desigualdade; muitas mães desoladas em estado permanente de choque e depressão.

Tão fracassada como o conceito de “guerra às drogas”, “guerra ao tráfico”, entendido na obra como o disfarce ideal e o aquecedor da economia bélica brasileira. Afinal, todos hoje sabem a procedência dos entorpecentes na América do Sul, mas quem explica como fuzis ultrapassam até quatro fronteiras para chegar na mão desses “soldados da violência urbana”?

O dedo na ferida está na cultura de políticas de segurança pública de teor ostensivo e de repressão. Mais do que instaurar a insegurança subjetiva – o medo e, em seus casos mais agudos, a síndrome do pânico, o Documentário retrata como à mídia é responsável por legitimar essa sensação e fortalecer a insegurança objetiva através do espetáculo e de um mix de dor e lamentação, com desejo de vingança e ódio. Como justificar que na última década os gastos com a segurança pública dobraram e a violência urbana no Rio de Janeiro não diminuiu. Antes ao contrário, segue crescendo.

À matemática eleitoral é fácil: um encarcerado no sistema federal custa mais de R$50 mil por ano ao Estado, em cárceres estaduais o custo cai para pouco mais de R$20 mil ao ano. Hoje, um estudante da rede pública do Rio de Janeiro custa R$ 2.300 ao ano para o Estado. O que elege políticos, partidos e bancadas: a educação ou a venda do medo e a economia paralela da segurança privada? O medo foi e será a melhor forma de dominação.

Ainda que com o estômago embrulhado com o turbilhão de pontos de vista que corroboram a falência e o descaso dos governantes pelos governados, o Documentário se preocupa em mostrar alternativas e caminhos possíveis: desde a reintegração individual em sociedade até bravos lutadores “revolucionários” que dentro da própria corporação militar se aplicam diariamente em uma mudança brusca de valores, orientada pela educação e didatização dos problemas sociais sem miopia.

Mais do que crítica e grito contra à perversidade dos governantes e a milícia legitimada no estado do Rio de Janeiro, o Documentário é instrumento pedagógico do ano de 2018. Um dispositivo para o diálogo. A busca da empatia e o respeito para discussões sobre o conceito “vidas descartáveis” seja banido no Brasil, antes que o mal se banalize. Um convite a reflexão sobre o que deveria ser segurança pública e o que se faz num “negócio chamado violência”.

 

Leia também:  A reforma da Previdência e o bode no meio da sala, por Luis Felipe Miguel

Ingrid Oliveira – Graduada em Rádio, TV e Internet pela Anhembi Morumbi. Analista de monitoramento na Vert Inteligência Digital.

Pedro Barreto – Especialista em Opinião Pública e Inteligência de Mercado pela FESPSP. Pesquisador de comunicação estratégica na Vert Inteligência Digital

Jacqueline Quaresemin – Especialista em Opinião Pública. Professora na Pós-Graduação de Opinião Pública e Inteligência de Mercado – FESPSP.

 

https://pt-br.facebook.com/filmerelatosdofront/

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

2 comentários

  1. Para entender a atualidade ocidental

    Hub Talks: Chris Hedges, Dr. Noam Chomsky & Dr. Khaled Abou El Fadl

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=416LaP4j-5o%5D

    https://www.youtube.com/watch?v=416LaP4j-5o

    Para ativar legendas, clique no ícone de roda dentada (segundo à direita), selecione “legendas”, “inglês (gerada automaticamente)”, volte a clicar em “inglês (gerada automaticamente)” e depois “traduzir automaticamente”; selecione o idioma desejado na lista com barra de rolagem à direita. 

    Sampa/SP, 07/11/2018 – 18:50 

  2. Um pouco depois da estreia do
    Um pouco depois da estreia do filme Tropa de Elite, algumas pessoas viram nele uma forma de aplainar o terreno para um futuro governo fascista ou um governo ao menos de teor autoritário. A expressão ‘faca na caveira’ tornou-se quase um mantram, recordo de pessoas que inspiradas no filme, fizeram tatuagem da imagem. Acredito que de fato possa ter influenciado de alguma forma, ainda que não tenha sido esta a intenção. O ‘herói’ da trama, por mais que o filme procure passar a imagem de que nao há herois, muito ao contrário, era justamente um capitão!! Acredito que houve uma influencia indireta, subliminar, que contribui agora para endeusarem, desculpem-me a grafia, justamente um cap(e)tão.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome