Restaurantes do bolsonarismo, por Andre Motta Araujo

Bolsonaristas pernósticos curtem eo templo do rentismo tradicional que tem horror ao povão, à esquerda e ao progresso, é tudo muito fino e frio.

Restaurantes do bolsonarismo

por Andre Motta Araujo

FIGUEIRA RUBAYAT – O Vaticano dos bolsonaristas, cliente típico empresário novo rico do interior paulista, o local usa o velho chamariz de colocar os carros importados mais caros na entrada do restaurante, para chamar a atenção, nada mais vulgar. A comida tem altos e baixos, se paga mais o ambiente suntuoso no estilo “rustico chique” do que qualquer outra coisa, lugar para ver e ser visto, o bolsonarista e sua perua, em guia internacional sua classificação seria “lugar turístico”, serviço banal, lugar barulhento e pretensioso, bar muito bonito, a melhor coisa da casa. Não curto o restaurante, mas gosto do bar.

RODEIO – Na mesma rua do Figueira, a churrascaria mais cara do planeta na relação custo benefício, tudo é desproporcionalmente caro, do couvert à farofa cobrada em separado da carne, como também são o arroz,  a batata e qualquer acompanhamento que se peça, prato de carne a R$280 como se fosse  normal. Clientes curtem a glória do passado, é uma casa de mais de 50 anos e o primeiro restaurante dos Jardins, tem a cara e o cheiro do bolsonarismo raiz.

LA BELLA CINTRA – Restaurante de alta culinária portuguesa, split do Antiquarius, da leva de restaurantes lusos pós Revolução dos Cravos, categoria completamente diferente dos antigos restaurantes portugueses da velha imigração. Preços altíssimos, comida boa, mas não excepcional, lugar pretensioso, vão servindo bolinhos de bacalhau e outros antepastos sem pedir, o cliente pensa que faz parte do couvert, mas não faz. Frequência de direita adequada ao perfil chicoso da casa. O antigo Antiquarius era mais discreto, mais fino e de frequência menos obvia, tanto em SP como no Rio, uma pena que fechou.

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RESTAURANTE DO HOTEL FASANO – A família está no Brasil há 100 anos, mas a 4ª geração ainda afeta um sotaque italiano blasé e forçado para mostrar que são europeus grã-finos e não brasileiros terceiro-mundistas. A comida é boa, mas sem brilho, o ambiente é frio como o Ártico, tudo é correto e caríssimo,  adoram demonstrar que tem matéria prima exclusiva “alcachofras de uma ilha do Adriático, que vem toda semana da Itália e são numeradas”, trufas de não sei qual montanha do Trentino, tudo muito especial. O bar é bom, tem boa música, mas a dona do jornal The Washington Post, Lally Weymouth, pediu um sanduiche no bar e o maitre pomposo disse que não era norma da casa servir sanduiche no bar, eu estava com ela, não me contaram.

Bolsonaristas pernósticos curtem esse templo do rentismo tradicional que tem horror ao povão, à esquerda e ao progresso, é tudo muito fino e frio.

Já fiz aqui no passado um artigo sobre o antigo CA D´ORO, um restaurante clássico de S. Paulo. Infelizmente, o novo com o mesmo nome não é igual. O Ca D´Oro era a catedral de uma elite bem superior à atual, Antonio Ermírio de Moraes era o cliente mais assíduo, Lula também almoçou lá com o pessoal da FIESP, isso nos anos 80. No almoço de domingo muitos senhores de paletó e gravata, de bermuda nem pensar, o fim do SP refinado.

Também fiz um artigo sobre o extinto Restaurante MASSIMO, símbolo de uma era em SP, a era Delfim Neto, uma vitrina do poder.

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Esses “insights” sobre restaurantes parecem coisa frívola, mas são referências de época na política e em sociedade, é um tema que curto muito, tenho umas duzentas crônicas sobre restaurantes de SP, Rio, que curti demais, Buenos Aires, NY, Paris, Madrid etc. É um exercício de memória bom para um idoso exercitar o cérebro gasto, restaurantes, hotéis clássicos, teatros e museus são marcos de História, tudo é referência.

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25 comentários

  1. Dizia a professora Maria Thétis Nunes, historiadora, entusiasta dos escritos de Manuel Bomfim – que, atônito só vir a dele ter conhecimentos através do Nassif, já neste século – que não existe História sem o conhecimento profundo da coluna “Sociedade”.
    Digo eu: É aqui que a sociedade se revela. In vino veritas.

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  2. Já estava com saudades de seus posts sobre o mundo mundano. Os antigos sobre aristocracia europeia e ricaços eram um deleite. Isso sem contar os que falavam de detalhes históricos que não estão nos livros – até histórias de alcova.

  3. Pra esses bolsonaristas raíz, a palavra teatro e museu deve ter significado nenhum. É como você uma vez notou sobre os gastos da nossa ‘elite’ = nenhum ingresso de teatro pra ver uma peça ou ópera. Os trogloditas tomaram o poder e estão implantando uma TrogloDitadura – e o index dos 42 livros proibidos de Rondônia é a ponta do iceberg.

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  4. O que encanta no André, além de sua finesse, glamour e apreço pelos bons vinhos, é sua disposição em demonstrar o quão bem relacionado e chic ele é, as pessoas que ele conhece e os locais que ele freqüenta (com tremas, como antigamente).
    Para os vis mortais que, quando muito, comeram farofa no acampamento do Lula, ou os mais “perdulários”,que levam a família pra comer no Sujinho uma vez por semestre, estes, só podem dizer que conhecem o André, para fingir intimidade com algum esquerdista bon vivant.
    Salve André!

    • Deixa ele ser bem relacionado e chic. Bons relacionamentos são fontes, ser chic não tem mal nenhum. Gostaria se fosse grosseiro? Aposto que falaria aqui se o fosse. E aproveitando, não o considero esquerdista, e se leu Bar Don Juan, o que tem de revolucionário de buteco…

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    • Francamente não sei se foi elogio ou sarcasmo. Uma coisa é certa com essa matéria vejo que a direita está onde sempre esteve. Só que agora ele elegeu um representante direto. Deixou de fingir que é de “centro”.

  5. Figueira Rubayat não é aquele restaurante que apareceu nos Simpsons, naquele episódio em que os brasileiros somos pintados como ladrões? Se eles conheceram apenas o povo que frequenta lá, talvez faça sentido.

  6. Preferia quando o final da Alameda Santos era o lugar geométrico de bons restaurantes na cidade de SP.
    Brasileiro sempre teve uma quedinha belo brega , com uma ignorância teimosa pelo que realmente é chique.

    • Já estava preparando esse post, dos points da esquerda pré-eleição do Lula, como a Feijoada da Lana e da esquerda de hoje. Aguarde.

  7. Boa matéria, André. A la Paulo Francis, em seus melhores momentos. No mais, concordo contigo: acho a cena gastronômica paulistana miserável.

    Claro que no universo gigantesco que é a cidade, há achados maravilhosos; entretanto o circuitão é composto de muita pretensão e pouco caldo, lugares moderninhos, menus e cartas de vinhos cheios de pompa e circunstância, tudo motivo para jogar os preços nas alturas, mas comida mesmo, da boa, necas.

    Entre uma ‘pasta’ cara como o diabo e bem mais ou menos, um risoto chinfrim a preço d’ouro, ou uma carne sem imaginação num restaurante em que deixo as calças, prefiro, modéstia à parte, comer em casa – e os amigos que afluem para os almoços e jantares talvez me deem a falsa sensação de ser melhor nas panelas do que imagino -. Em Sampa sou muito mais a baixa gastronomia dos botecos, bares e pequenos restaurantes espalhados pela cidade. Nesse quesito há joias preciosas. Come-se e bebe-se sem se sentir escalpelado com faca cega. Vale escrever muitas matérias sobre.

    Uma historinha: Na minha última visita a São Paulo fui almoçar com alguns amigos num clássico restaurante de carnes da alameda Santos, para onde levei uma garrafa de um pequeno produtor, indicado por um conhecido meu do Dão, Portugal. Vinho honestíssimo, bem elaborado e bem cuidado – coisa de gente que tem carinho pelo que faz -, pela qual paguei módicos 13 euros.

    Puxamos conversa com o afável sommelier, pedimos um da carta – carérrimo! – e quando abrimos o meu, já na altura da bóia à mesa, ofereci uma taça ao camarada. Elogiou o vinho, perguntou sobre, onde havia comprado, quanto custava. Respondi que havia comprado em um garrafeira numa viagem à Lisboa por 90 euros (diante das caras marotas dos amigos de repasto), ao que ele me respondeu:

    – Excelente custo/benefício!

    Pobres de nós, reles mortais.

  8. Não existe bolsonarista , existe patriota . Votamos no Bolsonaro hj , amanhã se surgir um nome melhor , votamos .

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      • Quando os símbolos valem mais do que aquilo que (deveriam) representam(r):
        Para os zumbinions é “parar e colocar a mão no peito” ao ouvir o hino e “idolatrar” a bandeira. Eventuamente, prestar continências. Necessário explicar melhor:
        A bandeira é de estrelas e listras, branco, azul e vermelho (hã?!), o hino é o da ‘flamula estrelada” e a continência a qualquer autoridade sub sub do país destes mencionados símbolos. Dependendo, vale até uma declaração de amor (um “I love you”) de surpresa. Ou uma “live” de rede ou TV, mostrando seu apreço ao adorado.
        Para estes “patriotas”, a bandeira e o hino de um país (meros símbolos) valem mais do que o bem-estar e a prosperidade das pessoas que formam uma nação no país.
        Aliás, uma curiosidade percebida no decorrer deste comentário:
        O hino dos EEUU chama-se “The star-spangled banner”.
        Algo como: “o lábaro (que ostentas) estrelado”.
        Será que tem alguma confusão por aqui, entre os filhos deste “solo-mãe” gentil (?!).
        Ó Pátria amada, braZil!

        PS: Grave é alguém achar que não haja alguém melhor que Bozzo. Talvez o cabo Daciolo?…

  9. Como existem pessoas recalcadas e tendenciosas !! Todos os restaurantes acima são excelentes !! O roblema é quem não tem possibilidades de arcar com este custo faz estes comentarios inoportunos. Falar do bolsonarismo como uma coisa ruim esta miito mal informado !! Analise os dados da economia !!! Quando rouba é bom !! Quando é honesto é ruim

    • “Quando rouba é bom !! Quando é honesto é ruim.”

      E quando é vagabundo, de passar 28 anos no Congresso sem fazer porra nenhuma pelo país, e miliciano envolvido com assassinos e “queirozes”, é o que? E quando facilita a sabotagem da soberania nacional e entrega o ouro, ainda que negro, ao bandido, é o que?

      Mas tudo bem, Bolsonaro, bolsonaristas e golpistas em geral frequentam restaurantes caros.

  10. Artigo delicioso de se ler, André! Para quem é arguto e afiado na escrita, qualquer tópico serve para analisar e descrever as pessoas de um tempo (até seu gosto duvidoso por restaurantes caríssimos que não oferecem algo à altura do que cobram). André, gostaria de sugerir um artigo: A elite média brasileira mudou pra pior nos últimos anos? Sei que nossa elite sempre foi (em média, sempre há muitas exceções) anti-nacionalista, entreguista, preconceituosa. Mas, tenho a impressão que baixamos a um nível inédito e ainda pior que nossa média histórica. Parece uma elite que perdeu totalmente a classe, a nobreza, a boa formação educacional e cultura, e as poucas ambições nacionalistas que já possuíram. Já que você usou uma situação mundana para analisar nossa elite, vou usar outra:a decadência do São paulo FC. O SPFC sempre foi, por excelência, o time da classe média alta e classe alta paulistana, com seus advogados e engenheiros e empresários. E por décadas, o SPFC sempre foi, em média, o time de administração mais profissional (ou menos amador), o que se sentia no futebol. Mas, há anos, a cartolagem sãopaulina é um enorme deserto de ideias, um mar de mediocridade. E esta decadência na média dos dirigentes sãopaulinos coincidiu com essa decadência na média da elite paulista e brasileira. Seria tudo sintomas do mesmo problema: a decadência do classe média e classe alta brasileiro?

  11. + comentários

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