Rumo da Ciência: multidisciplinar, interdisciplinar ou transdisciplinar?, por Fernando Nogueira da Costa

O livre-pensador laico não pertence ou não está sujeito a uma religião por não aceitar a submissão. Este é o problema dos crentes face aos intelectuais. Ficam ressentidos...

Rumo da Ciência: multidisciplinar, interdisciplinar ou transdisciplinar?

por Fernando Nogueira da Costa

Etimologicamente, a palavra disciplina se originou a partir do latim disciplina. Quer dizer “educação recebida por um discípulo de seu mestre”. Este termo, por sua vez, tem origem diretamente de discipulus. Discípulo é “quem aprende e se orienta pelo mentor”.

Disciplina é a obediência ao conjunto de regras e normas em certas áreas de conhecimento e atividade. Refere-se ao cumprimento de responsabilidades específicas. A autodisciplina não necessita da imposição de terceiros.

Cada grupo social apresenta o seu conjunto de normas e regras de conduta. Variam de acordo com os seus preceitos. Manter a disciplina no trabalho ou na igreja exige atitudes diferentes, porque as regras e os comportamentos costumam variar por ambiente.

Na Sociologia Econômica, os indivíduos são vistos como simples engrenagens em um mecanismo social em movimento. Agem, de maneira predeterminada, de acordo com certas lógicas. As lógicas de ação são definidas por visões de mundo consensuais.

Tais visões emergem de um entendimento coletivo, tal como o religioso ou o político. Influenciada por essa visão de padrões, a Nova Economia Institucionalista destaca as lógicas de ação familiar, cívica e de mercado.

Manter a disciplina está relacionado com o ato de ser constante, ou seja, se dedicar no cumprimento de determinada tarefa para o alcance de um objetivo final. Ter disciplina na educação e no trabalho contribui para o bom desempenho de qualquer profissional.

No âmbito escolar, por isso, disciplina significa cada matéria ensinada para os alunos. Abrangem as diferentes áreas do conhecimento humano, como a Matemática, Línguas, História, Ciências Exatas, Biológicas, Humanas e Sociais, entre outras.

Uma ideia-chave de Adam Smith (1723-1790) é a divisão do trabalho aumentar a produtividade. Maior especialização em determinado campo de atuação, seja na pesquisa, seja na atividade profissional, ampliaria a produção por hora trabalhada.

Em Educação, a autonomia do estudante revela capacidade de organizar sozinho os seus estudos, sem total dependência do professor, administrando eficazmente o seu tempo de dedicação no aprendizado e conhecendo as fontes de informação disponíveis.

O Ensino e-Learning ou EAD (Ensino à distância) exige o estudante aplicar o conceito de autonomia na educação. Será possível sua massificação, isto é, mudar coletivamente a atitude passiva da “educação bancária” (depósitos mentais em aulas expositivas com finalidade de sacar depois em provas) para a proativa autodidática?

Autonomia é um termo de origem grega cujo significado está relacionado com independência, liberdade ou autossuficiência. O antônimo é heteronomia, indicando dependência ou subordinação. O livre-pensador laico não pertence ou não está sujeito a uma religião por não aceitar a submissão. Este é o problema dos crentes face aos intelectuais. Ficam ressentidos…

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O termo “laico” tem origem etimológica no grego laikós. Significa “do povo”. Está relacionado com a vida secular ou mundana.

Em Filosofia (“amor à sabedoria”), autonomia é a determinação do indivíduo em gerir livremente a sua vida, efetuando racionalmente as suas próprias escolhas. Nesse caso, ele se dirige por uma lei própria, não necessariamente incompatível com as demais.

Após ser formado em certas disciplinas, o profissional adquire senioridade para ter capacidade de instruir-se sem o auxílio de um mentor ou de professores. A sensação prazerosa do livre-pensar, junto com a liberdade de expressão, propicia a apreciação do sabor de saber!

No entanto, como escreveu o filósofo francês Blaise Pascal, “o conhecimento é como uma esfera; quanto maior o volume, maior o contato com o desconhecido”. Quanto mais se estuda, mais consciente se fica da ignorância desafiante.

“A Verdade é O Todo”, segundo Hegel. A educação tradicional, ao dividir o conhecimento em várias disciplinas, dificulta a compreensão do todo. Se o mundo é visto como único, cada agrupamento social busca uma compreensão do mundo como um todo unitário. Combina as percepções, as ideias e os pensamentos de muitas pessoas – especialistas ou não, sábias ou não – ao longo de muitas gerações.

Hoje, o rumo da Ciência busca interligar os campos isolados estudados pelos especialistas. Antes, eles não se relacionavam. Agora, uma estrutura permite entender como o mundo veio a ser como é. Busca-se o entendimento do mundo globalizado.

Estabelecendo conexões entre as distintas percepções dos especialistas, veremos fenômenos sistêmicos não vistos dentro dos limites de uma determinada disciplina. Analisaremos o mundo com holismo, ou seja, a atitude filosófica de abranger tudo. Buscaremos entender os fenômenos de uma maneira integral. Superaremos a operação analítica de ver seus constituintes em separado.

David Christian, no livro “Origens” (2018), sugere: se enxergarmos os elos ou as ligações entre diversas disciplinas, poderemos pensar com mais profundidade sobre temas amplos, como a natureza da complexidade, a natureza da vida e até mesmo a natureza de nossa própria espécie. “Estudamos atualmente os seres humanos através de muitas lentes disciplinares diferentes (Antropologia, Biologia, Fisiologia, Primatologia, Psicologia, Linguística, História, Sociologia, Economia), mas a especialização torna difícil para qualquer indivíduo se afastar o suficiente para ver a humanidade como um todo.”

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Os estudantes aprendem sobre seu mundo disciplina por disciplina. Os leitores costumam se deparar com o convincente, mas enganador, individualismo metodológico. Nele, as teorias sociais são baseadas nas atitudes e comportamentos dos indivíduos. Sugere as melhores decisões a serem tomadas, individualmente, porém, muitas vezes sem fazer a análise do contexto macrossocial ou global.

Em contraponto, a abordagem holística tem como linha-de-partida a sociedade global – e não o indivíduo. Prioriza o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico onde seus componentes são tomados isoladamente.

O desafio científico hoje é reunir todo o conhecimento acumulado em uma narrativa única e coerente. Busca ultrapassar uma compreensão fragmentada, tanto da realidade ambiental, quanto da comunidade humana.

Segundo Christian, “no cerne da história moderna das origens está a ideia da complexidade crescente”. O que é complexidade? Em companhia de dois, três já resultam em complexidade. Saltamos do pensamento binário maniqueísta para tríades.

Sistemas Complexos compreendem muitos componentes interagentes ou interativos com a capacidade de gerar uma nova qualidade de comportamento coletivo através da auto-organização. Propiciam a formação espontânea de estruturas temporais, espaciais ou funcionais. São, portanto, adaptáveis ​​à medida da evolução.

Podem conter ciclos de feedback (realimentação) de condução automática com reforço ou balanceamento. Eles se transformam em algo além da mera soma de suas partes.

Complexo não significa complicado com muitas partes pequenas, todas diferentes, e cada uma delas com seu próprio papel no mecanismo. Ele resulta de muitas partes similares de cujas interações emerge um comportamento globalmente coerente.

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Emergência tem o significado de aparecimento ou surgimento de algo distinto das partes. O comportamento emergente auto-organizado não é fácil e imediatamente previsível ou determinístico. Logo, uma abordagem reducionista (bottom-up: de baixo para cima) é descrição incompleta de um fenômeno macro sistêmico complexo.

A unidade da Ciência é possível na busca de uma linguagem comum entre cientistas especialistas. O reducionismo é infrutífero por não contemplar todos os níveis da realidade ou escalas. Logo, a Ciência Unitária certamente não existe. Mas é possível um processo de integração transdisciplinar.

Há três categorias de inter-relações. Projeto multidisciplinar reúne diversas disciplinas ou áreas do conhecimento, dentro de um assunto específico, onde cada qual coopera com sua especialidade. O interdisciplinar qualifica o que é comum a duas ou mais disciplinas ou outros ramos do conhecimento e busca um processo de ligação entre elas.

O método multidisciplinar reúne um conjunto de disciplinas estudadas de maneira simultânea, mas sem a necessidade de estarem relacionadas entre si. Ao contrário, o método interdisciplinar proporciona um conhecimento cooperativo mais especializado. A multidisciplinaridade resulta em conhecimentos mais ecléticos de sistemas diversos.

A transdisciplinaridade é o conceito mais avançado em termos de divisão disciplinar. Essa forma de ensino e pesquisa exige não apenas a adição de disciplinas, mas a organização e a contextualização do conhecimento. As fronteiras das disciplinas são rompidas e os fenômenos da natureza humana são compreendidos em sua totalidade. Conteúdos contextualizados contribuem para o entendimento do mundo real.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Mercados e Planejadores Imperfeitos” (2020). Baixe em: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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1 comentário

  1. O problema não é criar uma nova ciência, é existir cientistas que compreendam as velhas e não sejam especialistas em nada.

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