Saia Injusta: precisamos falar sobre as telenovelas, por Vinicius Canhoto

Foto: TV Globo

Por Vinicius Canhoto

O comentário da atriz Taís Araújo, embora autocensurado pela própria, em tom até demasiado autocrítico, mas que revela o vazio e a superficialidade da obra de um dos mais consagrados e festejados autores globais: Manoel Carlos. Este comentário da atriz vem muito ao encontro do tema José Mayer. Porque foram em várias novelas deste autor, que o ator construiu a imagem, que agora foi desconstruída. A imagem de homem viril e conquistador não saiu da cabeça do ator assediador, mas foi criação de um autor de teledramaturgia que utilizou a variante do personagem inúmeras vezes. Da mesma forma que em incontáveis vezes criou personagens femininas com o mesmo nome. 

 

Não podemos menosprezar a importância da telenovela no imaginário popular, da mesma forma que sabemos o quanto o futebol está presente na nossa cultura cotidiana. Embora as telenovelas não tenham a mesma audiência das décadas de 70, 80 e 90, elas ainda são um meio de propagação e intercâmbio cultural. Durante décadas foi através das telenovelas que a burguesia brasileira transmitiu sua cultura e valores para a massa. É bastante interessante ver o quanto já se gastou em caracteres escritos para analisar o Jornal Nacional e o quão pouco se escreveu sobre as fatias do pão. Porque é impossível não associar a programação da TV Globo a um sanduíche como o Big-Mac. As novelas são o pão que alimentam cotidianamente, enquanto os telejornais são a proteína, o queijo e a salada que dão o sabor e recheio ideológico à programação. Da mesma forma que o imperialista sanduíche, construído não apenas como uma composição de sabores, mas como uma concepção de mundo, a grade teledramatúrgica global é montada de forma harmonizadora com a jornalística para criar uma determinada visão de país e sociedade.

Neste aspecto, os folhetins de Manoel Carlos sempre foram o encontro entre a mão e a luva. Geralmente, suas tramas e seus dramas se passam no eixo Leblon-Ipanema-Copacabana quando vai mais longe chega à Barra da Tijuca. Destes bairros são extraídos seus tipos humanos e suas Helenas como se estas regiões fossem uma espécie de Atenas. A mesma crítica serve para autores paulistas que querem transformar o Bexiga ou a Mooca em uma Roma Antiga. Mas vamos nos concentrar em Manoel Carlos. Recordo-me de um diálogo de uma personagem menor, de alguma de suas novelas, que ao criticar o Rio de Janeiro para o pai, que era representado por Tony Ramos, falava da qualidade de vida em São Paulo, citando como exemplos Granja Vianna e Alphaville. Ou seja, este é o mundinho Manoel Carlos. Neste mundo, além do suposto galã de meia-idade irresistível, existiu um personagem misógino, agressor, que se utilizou até de uma raquete de tênis para agredir sua parceira. No ano passado, vi um incomodado Dan Stulbach no palco, tendo responder a um homem na platéia se na peça haveria: “Raquetada”.

O ator convidou a platéia a refletir sobre a questão, perguntou ao seu interlocutor se ele se recordava o ano da novela. Claro que o espectador que fez a pergunta não se recordava, como provavelmente todos na platéia não se recordavam. A partir deste esquecimento cronológico, o ator buscou relativizar. Disse que as cenas com de agressão com a raquete foram duas cenas, que somando o tempo de duração não chegavam há doze minutos; disse que a novela passou há quinze anos, ou seja, são duas cenas, de doze minutos, feitas há quinze anos… Coloco aqui reticências porque foi assim que o ator terminou a questão, deixando para o público pensar a respeito da permanência de determinadas cenas no imaginário. O que cabe aqui nós pensarmos é na permanência das cenas da raquete, criadas por Manoel Carlos, depois de tantos anos passados.

Em uma época em que o termo “narrativa” saiu da teoria literária e partiu para a política, precisamos pensar não apenas as “narrativas”, como os autores destas. Os atores, com o perdão da palavra, são os “cavalos” (em sentido afro-religioso) que incorporam as personagens que lhes são legadas pelo texto, pelo soldo, e lhes dão vida e verossimilhança. Alguns atores como Taís Araújo e Dan Stulbach tiveram senso crítico e maturidade para perceber os limites e o vazio político de suas personagens e se afastarem o máximo possível deste vaticínio, outros, como José Mayer (talvez) tenham acreditado na narrativa e de forma narcisista se visto sendo irresistíveis brancos de meia-idade, eternos e onipotentes como os personagens fúteis, vazios e coisificados de Manoel Carlos.

Estamos vivendo em uma época em que pessoa e a persona se confundem sem saberem onde começam a pessoa e onde terminam a personagem. Neste contexto, como bem observa em seu blog a jornalista e escritora Nina Lemos, “é muito simbólico saber que o ‘galã’ na verdade era um assediador justamente nesse momento em que as mulheres do Brasil dizem não para a cultura machista”. Também é muito simbólico a atriz Taís Araújo fazer críticas, que muito mais que expor o limite de seu trabalho (“Aquele texto não me dizia nada, eu me sentia a professora do Snoopy”) expôs não as limitações na atuação da atriz, e sim o vazio dramático do autor: “Eu não fazia bem, e não sei se tinha como fazer”. A vida, palavra tanta vezes utilizadas por Manoel Carlos em seus títulos pouco sugestivos, revela que não imita a pseudo-arte e que não há mais lugar na realidade para o obsoleto “macho-mulherengos de meia-idade” tampouco para “mulheres vítimas de raquetadas”.

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