Salvar a política não é salvar os políticos, por Helena Chagas

Jornal GGN – Só se salva a política “se dermos um cavalo-de-pau no sistema partidário e eleitoral”, diz a jornalista Helena Chagas em artigo publicado no portal Os Divergentes, na noite de domingo (16). Na visão de Helena, é “balela” a história de que a política não sobreviverá se os políticos eleitos forem derrubados pela Lava Jato. Ela aponta que há muitos não envolvidos na operação, com e sem mandato, que merecem atenção.

Por Helena Chagas

Em Os Divergentes

Está tudo junto e misturado no discurso dos que querem escapar da Lava Jato, mas chegou a hora de ficar bem claro que salvar a política não é, necessariamente, salvar os políticos. Pelo menos não a todos, por todas as razões que os levaram ao paredão da Lista de Fachin, que é mais de Janot do que dele.
 
Salvar a política hoje em dia é, antes de tudo, salvar o direito do cidadão de ter seu voto respeitado e ser  legitimamente representado nas instâncias de decisão do poder. As distorções do atual sistema, entre elas a corrupção que dá vantagem aos que têm mais dinheiro, vêm distanciando cada vez mais aquela dupla que deveria ser inseparável: eleito e eleitor.
 
Só se salva a política, portanto, se dermos um cavalo-de-pau no sistema partidário e eleitoral, estabelecendo regras e fiscalização rigorosas para o financiamento de campanha e um mecanismo de votação que, por exemplo, eleja de fato os mais votados.
 
Há saídas exaustivamente discutidas, fórmulas bem sucedidas em outros países, mas que nunca conseguiram ser  implantadas por aqui porque os políticos não conseguiam parar de olhar para o próprio umbigo. A solução da cláusula de desempenho para os partidos, por exemplo, deveria estar implantada há mais de dez anos, mas a voz do atraso falou através do STF, que resolveu derrubá-la. E estamos agora de volta ao mesmo ponto de décadas atrás.
 
A Lava Jato parece ter devastado todo o mundo político porque está atingindo as elites do poder e dos grandes partidos. Mas há políticos que não estão lá, e temos a obrigação de imaginar que essa minoria – que inclui gente sem mandato – não cometeu os atos que levaram os outros às listas de Janot e Fachin. Na própria lista, há, claramente, profundas diferenças, ainda que o maior número de seus integrantes vá ser investigado por corrupção.
 
É conversa para boi dormir essa de que, para salvar a política e evitar a eleição de aventureiros ou personagens fascistóides em 2018, temos que salvar os políticos da Lava Jato. Balela.
 
É possível salvar o sistema político mudando e aperfeiçoando suas instituições. E isso não precisa incluir anistia ao caixa 2 ou absolvição dos acusados, e nem um sistema de lista fechada para o eleitor votar às cegas. Haverá sobreviventes, inclusive da própria lista, que ainda vai andar muito, para fazer essas reformas.
 
Mas é preciso aceitar que alguns terão que morrer, ou seja, sair de cena e abrir espaço para o novo.
 
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5 comentários

  1. Mas é preciso aceitar que
    Mas é preciso aceitar que alguns terão que morrer, ou seja, sair de cena e abrir espaço para o novo. Novo? Só se for o partido novo…do MBL/Bolsonaro…

  2. Um texto incoerente em si

    Um texto incoerente em si mesmo. Defende o respeito ao voto do eleitor, mas defende a cláusula de barreira, que jogaria milhões de votos no lixo nas últimas eleições. O maior partido brasileiro tem menos de 70 deputados federais eleitos em 2014. Desde 1998 nenhum partido conseguiu eleger mais de 100 deputados federais. 

    Concordo em um único ponto: há grupos políticos que não estão no caldeirão dos financiamentos privados: PCO, PSTU. Só

  3. Não é a política, nem os

    Não é a política, nem os políticos. Precisa salvar o Brasil da lavaajato. Que é ótimo para jornalistas, que se lambuzam com escândalos envolvendo políticos, gráudos principalmente, mas péssimo para a maioria dos brasileiros. 

    Nunca se combateu a corrupção de uma maneira tão destrutiva. Até mesmo deixando de lado a seletivadade e a obsessão dos lavajatenses pelo Lula, a operação foi e está sendo um desastre. É irresponsável e truculenta. Esculhambou com o sistema jurídico, e destroçou os direitos individuais, abrindo caminho para um regime de exceção. Na economia o desastre já foi mostrado e demonstrado por inúmeros artigos de gente séria

    Esperar que disso, um carnaval fascistóide, surja uma política virtuosa é ingenuidade e/ou ignorância. 

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