Sartre e Camus: o debate que alcança o século XXI, por Carlos Russo Jr.

Analisar o conflito Sartre- Camus é também falar sobre o fracasso da esquerda e no despedaçamento da esperança de se avançar rumo ao socialismo nos dias de hoje

do Espaço Literário Marcel Proust

Sartre e Camus: o debate que alcança o século XXI

por Carlos Russo Jr.

A relação entre Sartre e Camus começou por volta de 1940 através da análise recíproca de suas publicações. Filosófica e politicamente muito próximos, eles eram frequentemente vistos como estando juntos na resistência ao nazi- fascismo, embora o comprometimento de Camus tenha sido muito mais importante e compromissado que o de Sartre. De todo modo, ambos se tornaram os escritores mais célebres na França após a libertação da dominação nazista, sendo os que mais arrebataram as atenções da esquerda por quase duas décadas.

Camus deu o primeiro passo para a aproximação quando realizou uma resenha absolutamente entusiasmada de “A Náusea” de Sartre, escrito em 1938. Roquetin, o personagem central, insistia nos traços repugnantes da humanidade, ao invés de fundar em algumas de suas grandezas os motivos para seu desespero. Em “A Náusea”, a maioria das pessoas desfruta de uma liberdade que lhes é inútil. Aliás, será a liberdade sem limites que levará muitos a tropeçarem nas próprias vidas e outros a encontrarem seus próprios fins. A imagem de Roquetin, ao final do romance, é a de um homem sentado em meio às ruínas de seu presente, de seu passado, de toda a vida.

Sartre, por seu lado, entusiasmara-se pelo “O estrangeiro” de Camus: Meursault é claramente um indivíduo inconsequente e destituído de objetivos. “O absurdo não está nem no homem e nem no mundo se os examinarmos isoladamente; mas como a característica essencial do homem é estar no mundo, o absurdo acaba por coincidir com a condição humana.”

Ao final de 1944, após a expulsão dos alemães da França, o PCF ( Partido Comunista Francês) tinha 400.000 filiados e praticamente todos os grandes sindicatos operários seguiam suas orientações. Em 1946, os filiados chegaram a 800.000 e a máquina partidária possuía 14.000 funcionários. Nas eleições gerais do final do ano, o Partido obteve quase um terço dos votos e os Ministérios da Educação, da Segurança Social e da Polícia ficaram sob seu controle. As transformações socialistas pareciam estar ao alcance das mãos.

Quando, 1945, Os Estados Unidos utilizou suas bombas atômicas no Japão, L’Humanité (jornal oficial do PCF) enfatizou a “mais sensacional descoberta científica do século”; paradoxalmente ao silêncio de Sartre, Camus, editor de “O Combate” (jornal fundado na resistência ao nazismo), disse “a bomba atômica significou que a civilização tecnológica acabou de alcançar seu último grau de selvageria”. Finalizou sua crítica pungente com uma frase: “Não há senão uma coisa a tentar: a vida média e simples de uma honestidade sem ilusões, de lealdade sábia, de obstinação que reforçam tão somente a dignidade humana.”

Desde 1947 fazia-se sentir certo distanciamento político entre os amigos. Sartre publica “Os Caminhos da liberdade”, onde Brunet entrega sua subjetividade à causa universal historicamente ordenada do comunismo. E em “O mito de Sísifo”, que Camus editara após deixar o PCF, ele descreve o mundo como sem sentido e sem nenhuma coerência, um contraponto da visão comunista de um sentido da história e da importância do progresso.

Mas será que o mundo sem sentido e absurdo exige o suicídio? Camus responde: “Não. Exige revolta”. Ao contrário de Sartre, em Camus os locais do pensamento e da ação estão no indivíduo e não no Partido. Enquanto para Sartre a atividade humana constitui um mundo significativo a partir da existência bruta e sem sentido, para Camus o absurdo é um dado intransponível da experiência humana, pois a lucidez não concede espaço à esperança num mundo onde reina o caos, não há um amanhã. No universo subitamente privado de ilusões e de luzes, o homem se sente como “O Estrangeiro.”

No pós-guerra, o Existencialismo fundado por Sartre, foi uma febre cultural que contaminou quase toda a intelectualidade. Enquanto Camus rejeitava o rótulo de existencialista, Sartre o tomava, pelo passado na resistência, como um exemplo de sua nova teoria de engajamento político. “A república do silêncio” de Sartre era a resistência ao nazismo. “Ela tinha a nossos olhos o valor de um símbolo; e é por isso que os resistentes estavam desesperados: sempre símbolos! Uma rebelião simbólica numa cidade simbólica, apenas as torturas eram verdadeiras.”

“A peste” de Camus simboliza o anti-heroísmo na determinação de fazer o que deve ser feito diante de uma ameaça total. As equipes sanitárias na cidade infestada pela peste fizeram o que deveria ser feito porque sabiam que era a única coisa a fazer e decidir não fazê-lo é o que seria incrível. A situação o exigia e isto era tudo. Combater a pestilência para Rambert é a preocupação de todos e somente o “eu coletivo”, exigindo solidariedade de equipe e aceitação do risco, pode realizá-lo. O descanso por momentos na luta é o respirar da liberdade. A comunhão, que somente ocorre entre combatentes, não requer palavras. Quando perde toda a esperança é quando o homem encontra a si mesmo, pois ele sabe que apenas pode apoiar-se em si próprio.

Os dois intelectuais ativistas eram nesta altura não alinhados ao Partido Comunista Francês; Camus como editor de “Le Combat” e Sartre como o criador do veículo político e cultural mais importante da França, “Les Temps Modernes”.

Em “A idade da razão”, Sartre nos trás Mathieu que se sentia livre para agir, mas sua ação era inútil, na medida em que o homem cria paixões próprias sem sentido. O existencialismo sartreano busca ultrapassar a oposição do realismo e do idealismo, afirmando a um tempo a soberania da consciência e a presença do mundo tal qual ele se dá a nós.

Leia também:  Covid-19: Turismo faz mal à saúde, por Rogério Maestri

A consciência é sempre consciência de algo que está fora dela mesma e nunca um mundo em si. “O existencialismo é um humanismo” onde a existência precede a essência, na medida em que os homens são autodeterminados, criando, ao invés de receber, sua própria identidade. Ou seja, somos totalmente responsáveis pelo que nos tornamos: “O homem não é mais que aquilo que ele faz de si mesmo.” Logo, a liberdade é inseparável da existência humana.

A polarização da Guerra Fria e as publicações de Arthur Koestler como “O zero e o infinito” e “O iogue e o comissário” denunciando, seis anos antes de Khrushchev, os “expurgos, os assassinatos políticos e os gulags de Stalin”, foram fatores que dentro da esquerda não alinhada pressionavam por uma tomada de posição política.

Foi esta polarização que começou por afastar os dois amigos que tanto haviam trabalhado juntos por uma “terceira força de esquerda independente”. O fator vital de ruptura foi o posicionamento em relação ao Partido Comunista Francês e seu alinhamento com a União Soviética. A amizade teve seu momento de ruptura por volta entre 1950/1952, e desde então, somente se fez agudizar, até a morte de Camus num acidente automobilístico em 1960.

De acordo com Lottan, “Sartre proclamou a sua aliança com os stalinistas a todo custo e Camus negou-se a se juntar aos radicais chiques…, por isso tendo sido ridicularizado e humilhado pelos sartrianos”. Acontece que quase todo o mundo na esquerda europeia era sartriano à época.

Com um posicionamento ponderado, analisou R. Aronson: “Considero que não se pode ver e viver a história como um teatro de moralidades, onde o bem luta contra o mal. Tal atitude nos impossibilitaria de ver e viver suas ambiguidades e tragédias”.

Nesse sentido, devemos buscar no conflito Sartre- Camus aspectos positivos e relevantes, e , sem dúvida a legitimidade de muitos dos posicionamentos políticos de cada um deles. Se Camus jamais foi um partidário do capitalismo, Sartre nunca foi um stalinista, muito pelo contrário. Ambos possuíam estreitos compromissos com a liberdade, a democracia e a justiça social, e estes princípios os uniram mesmo na ruptura pessoal e política.

Não podemos perder de perspectiva que, se o final do século XIX e as duas primeiras décadas do XX tiveram a decadência e a hecatombe da Primeira Guerra, eles também presentearam a humanidade com esperanças de mudanças, de revoluções. O final do século XX e os primórdios do XXI nos trouxeram o despedaçamento da esperança de avanços rumo a uma sociedade mais igualitária, com o empoderamento dos trabalhadores e, mesmo o sacrifício da própria liberdade.

Num certo sentido, a ruptura entre Sartre e de Camus e o antagonismo ideológico que os separou foram marcas que tingiriam também toda a segunda metade do século passado, incluindo o pós-guerra, a guerra fria, o desmoronar da antiga União Soviética e o galope vitorioso do neoliberalismo globalizante.

“Um romance nunca passa de uma filosofia posta em imagens. Num bom romance, filosofia e imagens se fundem” disse Camus. Sartre e Camus terminaram por insistir que havia apenas duas alternativas para a esquerda: refletidas em suas peças teatrais: o revolucionário de Sartre presente no “O diabo e o bom Deus”, ou o homem revoltado de Camus em “Os justos”.

Em 1952, Sartre concorda com a inadmissibilidade dos campos de trabalho forçado na URSS, mas também do uso que deles faz a imprensa burguesa. Que a “cortina de ferro não é senão um espelho e que cada uma das metades do mundo refletia a outra.” Criticando o não engajamento de Camus, Sartre declara que para merecer o direito de influenciar os homens que lutam é preciso antes participar de seus combates, é preciso antes aceitar muitas coisas se quisermos tentar mudar algumas delas.

O que Sartre não aborda neste então é a questão moral implícita em toda a controvérsia a respeito dos meios e dos fins da história: um sistema que engendra campos de trabalho forçados, como a U.R.S.S. pode levar a algum fim positivo? Em que ponto a violência revolucionária não se transforma numa arma de destruição e desumanização e não de emancipação?

Como contraposição ao fatalismo histórico do marxismo abraçado por Sartre, Camus assinala: “Nós, mesmo no melhor dos casos, vivemos sob limites, reconhecendo a dignidade das outras pessoas.” “O indivíduo para ser deve ao mesmo tempo, colaborar e resistir à História.”

“Os humanos quando completamente absorvidos na história perdem sua liberdade.” Camus considera que a História nos aliena de nós próprios e de tudo o que nos seja mais vital.

O calcanhar de Aquiles de Sartre é assinalado então por Camus: “Onde está a base para a autodeterminação e para a liberdade uma vez que aceitemos que elas só ocorrem num contexto concreto?” Como ficariam os favelados da Argélia e do Brasil? São eles responsáveis perante seus próprios destinos? “Para o existencialismo todo homem é responsável pelo que ele é. Mas será? E o pobre, o aleijado…”

Embora ambos coincidissem na avaliação de que o fundamental seria reconciliarmos a liberdade individual com as necessidades coletivas, ou seja, reconciliar a liberdade e a justiça de tal modo que a vida possa a ser livre para o indivíduo e justa para todos, enquanto Sartre propugnava pelo engajamento político junto ao PCF como a atitude política essencial, para Camus o fundamental era preservar uma área extrínseca a qualquer situação histórica para a liberdade individual, a autonomia dos valores e para o julgamento moral.

Leia também:  Deleuze, Cinema e o Estado Novo, por Rogério Mattos

“Se a arte deve julgar a si própria, a moralidade deve julgar a política, e os indivíduos são livres para se engajarem ou não. O mundo é governado por pessoas e processos específicos e não por forças históricas”. Camus logo rejeita todo esquema de compreensão da realidade que não se baseie no homem, sua experiência e ações:

“O absurdo é o humanismo corajoso, a necessidade de lutar, a disposição de enfrentar situações- limite, a recusa a todo escapismo, rejeitar gestos heroicos, rejeição de todo esquema de compensação não centrado na experiência e ações humanas”.

Enquanto Sartre defendia o alinhamento com o PCF e o Sindicalismo com ele associado, Camus questionava a “representação burocrática da classe operária” e neste sentido torpedeou os intelectuais que buscavam “dominar o mundo em nome da classe operária, sob a promessa da Justiça futura.”

O realismo na política trazia uma submissão a fatores exteriores à política: “O realismo destrói a própria ideia da humanidade, pois é uma submissão às coisas.” Com isto, Camus buscava criar e fazer uso de um critério moral para o juízo político. Como estas análises nos fizeram falta num passado que nos é tão próximo!

Para Camus a História é o lugar da “demesure”, do cinismo, da destruição e da servidão ilimitada, uma série indefinida de convulsões e uma prodigiosa agonia coletiva. “A história desvinculada da moral caminha para o niilismo.” “O existencialismo, partindo da liberdade humana, entra em contradição com a noção marxista da necessidade histórica e ao abraçar a mesma, alia-se ao stalinismo”.

Se Sartre denominava o ex- amigo de “um moralista pequeno-burguês” que assistia à História, Camus insistia na rejeição do realismo político, quer de direita, quer de esquerda, quer de centro; insistia em aplicar princípios à política e o combate ao cinismo. “Quando se converte a História em Leviatã, as pessoas são convertidas em coisas, aqueles que representam a História adquirem direitos sobre elas a partir da negação de sua própria contingência”.

Disse Simone de Beauvoir: “Enquanto Sartre acreditava na verdade do socialismo, Camus na verdade defendia cada vez mais resolutamente os valores burgueses e este é o seu homem revoltado. Enquanto Sartre aproximava-se da U.R.S.S., Camus detestava-a e embora odiasse os Estados Unidos, na prática se alinhava a ele.” A versão de Beauvoir é tão parcial quanto o era a anterior de Lottan sobre Sartre.

Nessa senda, Camus terminará por tratar o comunismo como a “loucura moderna civilizatória”. O comunismo real fora a busca da justiça sem a liberdade. “Mesmo se a justiça não se realiza, a liberdade mantém o poder de protestar contra a injustiça e manter a comunicação aberta.” Acreditar na história como o faziam os comunistas era caminhar para o assassinato ou a falsidade. “O materialismo histórico é um tipo de determinismo absoluto, a negação de toda a liberdade. Fluir no comando da história é uma maldição”.

Escreveu em “O Combate”: “Marx amava os homens, os verdadeiros viventes. Os marxistas de hoje, perdidos na esclerose do dogma são responsáveis pela fraqueza racionalista de preferir a teoria à realidade. A divinização do homem abstrato, a conquista da totalidade e um messianismo sem Deus são inseparáveis da dominação, da servidão.”

“Esta luta entre a esquerda livre e a esquerda progressista é o problema essencial de nosso movimento.” Em resposta a “Os mandarins” de Beauvoir, Camus escreveu “A queda”, com seus juízes- penitentes, que lhe abriu as portas para o Prêmio Nobel de Literatura. Sartre referiu-se à Queda como a maior contribuição política do ex- amigo.

Mas a resposta não se fez esperar: “As palavras”, obra magistral semi biográfica de Sartre, não perde nem originalidade e nem em importância. Por sua vez, O Prêmio Nobel de Literatura também lhe foi oferecido.

Outro importante fator na ruptura Sartre- Camus foi o posicionamento intelectual em relação à prática ou não da violência política.

Sartre trata a violência como uma prova do tornar-se real, especialmente para as vítimas da opressão, quando os demais caminhos estiverem bloqueados. “Jamais fomos mais livres que sob a ocupação alemã. Havíamos perdidos todos os nossos direitos, nos insultavam a cada dia… As circunstâncias muitas vezes atrozes de nosso combate nos impeliam a enfim viver sem imagem, sem véu, esta situação dilacerada, insustentável e que se chama condição humana.”

Camus, enquanto viveu, opôs-se tenazmente à violência do explorado num processo de libertação. Em oposição ao revolucionário, opunha o homem revoltado.

“O homem revoltado” é um libelo contra a violência política. O homem revoltado é o homem que se revolta independentemente da autoridade, mas sem desejar a vitória querida pelo revolucionário. A contestação é o contraponto do poder. O propósito original da revolta é a afirmação da vida, autoafirmação da solidariedade. O impulso emancipatório das revoluções se converte em assassinato organizado e racional. “A rebelião nega a si própria ao se tornar revolução. O revolucionário é a um só tempo um revoltado ou deixa de ser revolucionário, mas sim, um burocrata ou policial que se volta contra a revolta. Se ele mantém-se revoltado, insurge-se contra a revolução, logo, todo revolucionário está destinado a tornar-se um opressor ou um herege, policial ou louco!” Sem dúvida, a experiência da velha guarda que fizera a revolução bolchevique e que fora por Stalin submetida aos julgamentos de Moscou lhe davam razão.

“O homem revoltado” escreve Camus em material somente publicado após sua morte, “é um compromisso de esquerda e com os trabalhadores, para que a libertação dos mesmos não seja uma longa e desesperada ilusão. Opõe ao comunismo a felicidade de todos os dias, o lazer, a humanização do trabalho e a participação num grande e corajoso movimento democrático emancipatório.”

Leia também:  A Gripe Espanhola de 1918, por Andre Motta Araujo

E conclui em seu caderno que a revolução e a revolta são temas chave e um precisa do outro. “Sem a cultura e sem a liberdade relativa que ela pressupõe a sociedade, mesmo se perfeita, não é mais que uma selva. É por isso que toda criação é uma dádiva para o futuro.”

Já para Sartre o existencialismo, como humanismo militante, preconizava que “não há como transformar um mundo violento e opressivo sem se tornar violento e opressor.” Para ele, a liberdade individual está intimamente ligada à liberdade coletiva e a violência aparece por si mesma como um valor. A eficácia da práxis defronta-se com a inutilidade da moral. A violência é tão legítima quanto necessária e inevitável. Afina, para ele, “um anticomunista é um cão.”

Já a violência para Camus não era uma virtude, mas o último recurso em resposta a uma ameaça vital! Camus via a democracia como o exercício da modéstia e manter-se fiel aos princípios; o recusar-se a mentir em nome da política eram inseparáveis do respeito e amor às pessoas.

Camus criticava os jovens revolucionários por se preocuparem com a justiça no abstrato, pouco se lixando pelo homem concreto, cultuando a violência e acreditando num futuro messiânico, na realidade odiando a vida, inclusive as suas próprias. “Por serem apocalípticos, dispunham-se a assassinar para dar fim aos assassinatos”. Enquanto a revolta mata homens, a revolução mata homens e princípios.

Para Camus a vida deve ser vivida no mundo presente e sensível. Era intransigente na defesa da livre expressão e dos direitos civis: a ética deveria estar sempre no cerne da política e em qualquer movimento por justiça social. “Toda liberdade humana é em sua essência relativa, pois a liberdade de qualquer pessoa limita a dos outros e a dos governantes.” Contra a filosofia da revolução de que poderia se reordenar tudo, uma filosofia dos limites, da ignorância calculada e do risco.

Em 1956, após o Vigésimo Congresso do P.C. U.R.S.S. e da invasão e da Hungria democratizada pelas tropas do Pacto de Varsóvia, Sartre afasta-se do PCF e da União Soviética. Não mais considera o socialismo viável no curto prazo nos países desenvolvidos e denuncia o burocratismo dos dirigentes sindicais ligados ao PCF, de certa forma reproduzindo o posicionamento de Camus de anos atrás. Estabelece um novo paradigma para sua filosofia política: “Somos aqueles que dizem os fins justificam os meios, acrescentando, porém esta indispensável correção: são os meios que definem os fins.”

Em 1957, Sartre classifica o PCF como “aparelho esclerosado que não mais consegue recrutar os jovens.” Recusa-se agora a tornar-se “realista” e busca ser um pilar da ira revolucionária em pró dos oprimidos. Permanecerá, desde então, politicamente independente até a morte em 1980.

“O dever de todo intelectual é denunciar a injustiça em todos os lados”. Em “Crítica da razão dialética (2)” Sartre questiona: “como uma revolução, a soviética, que se pretendia libertadora pode criar o inferno na Terra?” Desta forma aproxima-se do julgamento realizado por Camus: a URSS era uma “autocracia totalitária, com capitalismo de Estado”. “Que direito possuía um país denominar-se socialista se um a cada dez cidadãos estava em campos de trabalho forçado?”

Durante a guerra colonial da Argélia Sartre dirá: “Perplexos os franceses descobrem uma evidência terrível: nada protege uma nação de si mesma, nem suas fidelidades, nem suas próprias leis, e bastam quinze anos para que a vítima se transforme em carrasco.” “Nous sommes toute des asassins”.

“A violência colonial não tem somente o objetivo de garantir o respeito desses homens subjulgados: busca desumanizá-los. Nada deve ser poupado para liquidar suas tradições, para substituir a língua deles pela nossa, para destruir sua cultura sem dar-lhes a nossa; é preciso embrutecê-los pela fadiga. Desnutridos, enfermos, se ainda resistirem o medo concluirá seu trabalho.”

Sartre ainda prossegue: “Com efeito, nada, tão pouco as grandes feras ou os micróbios podem ser mais terríveis para o homem do que uma espécie inteligente, carnívora, cruel, que soubesse compreender e frustrar a inteligência humana e cujo fim seria precisamente a destruição do homem! Essa espécie é a nossa, em meio à escassez.”

“O existencialismo continuaria a ser uma ideologia semi autônoma dentro do marxismo e junto a ele”, diz Beauvoir. Mas Sartre retira seu foco da classe operária e o coloca nos países colonizados e do terceiro mundo. Uma mescla de marxismo com a moralidade o transformam no porta-voz pelos direitos à violência dos oprimidos. Após o Tribunal Internacional sobre os Crimes de Guerra, publica o livro “Sobre o genocídio”.

Quando da morte prematura de Camus, Sartre afirmou: “Camus continuou a reafirmar no coração de nossa época, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo político, a existência do fato moral. Seu humanismo obstinado, estreito e puro, austero e sensual, lançou uma duvidosa batalha contra os eventos disformes e das massas em nossa época. Inversamente, pela insistência de suas recusas ele reafirma no coração de nossa era, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do fato moral.”

Afinal, “nós havíamos brigado, mas uma briga não é senão outra maneira de viver juntos e de não se perder de vista neste mundo pequeno que nos é dado.”

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. Meu caro carlos Russo Jr.: Como leitor e admirador de Camus e de Sartre, mais na verdade de Camus do que de Sartre, nem no entanto desconhecer a grandeza deste, só tenho é que lhe agradecer pelo esforço de síntese que conseguiu alcançar, no confronto entre os dois grandes pensadores franceses. Seria mesquinho de minha parte tentar analisar criticamente o seu texto, brilhante em si, pois conseguiu criar um debate vivo entre pensadores que fazem uma falta brutal nos dias atuais. Muito obrigado pela síntese. Meus parabéns pelo beleza do trabalho. A falta de esperança nos irmana e, quem sabe, nos ajudará a sobreviver e a repensar a esquerda do século XXI, para além da esterilidade do pensamento político brasileiro hoje. Sebastião Nunes.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome