Será o fim do novo normal no mundo?, por Paulo Gala

Os países emergentes não conseguem crescer para atingir o grupo de economias desenvolvidas. Brexit e Trump são frutos desse mundo de “estagnação secular” ou de “novo normal”

Será o fim do novo normal no mundo?

por Paulo Gala*

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O mundo desenvolvido não consegue crescer na velocidade de outros tempos, o desemprego europeu é enorme, os empregos criados nos EUA desde 2008 remuneram mal e a participação dos americanos na força de trabalho ainda é baixa para padrões históricos. Os empregos gerados nos EUA nos últimos anos têm se concentrado em serviços de baixa sofisticação e baixa produtividade, além do boom de gás e petróleo de xisto que chegou ao fim. O pouco de investimento que se observou estava ligado ao setor de energia e a alguma retomada do mercado imobiliário. De um modo geral, a recuperação dos EUA tem sido modesta, com quedas na taxa de desemprego graças ao abandono das pessoas da força de trabalho, mas, ainda assim, uma recuperação quando comparada ao que ocorre no Japão e na Europa. Os banqueiros centrais sabem que correm grandes riscos com a política de injeção maciça de liquidez e juros muito baixos que tentam criar crédito mas acabam criando bolhas. Na Europa e no Japão, os dilemas não são tão grandes, pois a economia anda devagar e a balança de riscos entre bolhas e desaceleração ainda pende para o lado do medo da recessão. Nos EUA, onde a recuperação caminhou mais, a balança parece estar inclinada para o risco de bolha. Isso significa que na visão do Federal Reserve a recuperação existe, não é tão sólida quanto se gostaria, mas, pelo menos, o desemprego caiu. O debate sobre a política monetária norte-americana tem sido intenso, não só pelos impactos potenciais das decisões do FED sobre os ativos globais, mas, também, pela eficácia das ferramentas de política monetárias utilizadas pela instituição para cumprir seu duplo mandato – estabilidade dos preços em um ambiente de pleno emprego.

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Os países emergentes não conseguem crescer para atingir o grupo de economias desenvolvidas. Brexit e Trump são frutos desse mundo de “estagnação secular” ou de “novo normal”. É importante lembrar que um dos pilares do “new normal” sempre foi a recusa no uso do gasto público como estímulo legítimo de demanda no curto prazo, especialmente, no tocante a investimentos em infraestrutura. Em meados de 2013, o próprio  Bernanke apontava também os temores em relação ao efeito contracionista no PIB dos cortes de gastos públicos nos EUA. Apesar de clamores por uma política fiscal mais expansionista, nenhum governo teve a coragem de ir adiante com essa agenda, com a exceção de Trump. Seu governo deu passos mais concretos nesse sentido ao reduzir impostos e prometer um programa de gastos em infraestrutura. Na Europa, a introdução da moeda única provocou inicialmente quedas nas taxas de juros, booms de consumo, endividamento e bolhas imobiliárias. Com exceção da Alemanha e seus satélites, não houve progresso, de fato, com o upgrading industrial e o aumento de capacidades locais de produção. As rendas per capita subiram, depois caíram e agora estão relativamente estagnadas. Passada a euforia de renda per capita dobrada, explosão imobiliária e de infraestrutura, restaram as dívidas. Portugal e Espanha passam por recuperações moderadas depois de anos de estagnação.

Por que o mundo não cresce mais como antigamente? Dois fenômenos da última década ajudam a explicar essa nova estagnação secular: excesso de dívida e excesso de oferta. A explosão do endividamento público e privado vem já desde os anos 1990, tendo, certamente, os EUA como motor principal. O motor da renda foi substituído pelo motor do crédito. Ninguém tem ativos, tudo e’ colateral de dividas. A sobreoferta mundial tem a ver com a ascensão da Ásia dinâmica do leste. Só a China hoje conta com mais de 100 milhões de trabalhadores produzindo bens manufaturados. A capacidade ociosa da economia chinesa, europeia e americana e’ enorme. A consequência disso e’ inflação baixa permanente, que provoca juros baixos, que por sua vez não são capazes de estimular novos investimentos, nem novo endividamento. O mundo entrou num looping vicioso. Não há demanda pela via dos investimentos como no passado, a guerra cambial também não funciona mais num mundo de sobreoferta. Governos altamente endividados não tem coragem de acionar o gatilho do investimento público. Os EUA parecem ser a exceção nesse mundo de “novo normal”. O FED caminha para a normalização monetária com altas de taxas de juros e redução do balanço promovida no período de “quantitative easing”. Será essa normalização sustentável por lá? Quem olha os dados mais a fundo sabe que o problema dos EUA é bem mais grave do que se imagina. Muitos dos empregos americanos de qualidade foram deslocados para a Ásia, houve uma enorme transformação estrutural progressiva na Ásia do Leste dos últimos anos e regressiva, do ponto de vista produtivo, nos EUA. Nesse contexto as altas de juros do FED poderão provocar uma forte apreciação do dólar que, por sua vez, dificultará a volta de empresas americanas fugidas para a Ásia. Se Europa e Japão voltarem a desacelerar com manutenção dos programas de expansão monetária a pressão de alta do dólar poderá ser ainda maior. Teríamos então um mundo desenvolvido com dólar muito forte, onde os EUA crescem um pouco e zona do Euro e Japão ficam semi-estagnados.

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*Graduado em Economia pela FEA/USP. Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas FGV/EESP de São Paulo, onde é professor desde 2002. Foi gestor de fundos multimercado e renda fixa, hoje CEO e Economista da Fator Administração de Recursos/FAR.

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2 comentários

  1. Professor, senti falta de uma análise sobre a Rússia e a Índia. A influência destes países não é significativa para o comportamento da economia mundial?

  2. Parece ser do interesse dos EUA que o crescimento dos países cujas economias estão atreladas à moeda deles, o dólar, se mantenha baixo mesmo que com isso também deixem, eles mesmos, de crescerem. Algo como as indústrias retirarem seus produtos do mercado venezuelano, assim abrindo mão de vender (e, óbvio, de lucrar) em troca de imposição imperialista e ideológica. A diferença entre o que poderiam ganhar e o que efetivamente estão ganhando não se contabiliza nem como perda nem como despesa e sim como investimento. Investimento em propaganda capitalista.

    O que os EUA chamam de crise (Crise de 2008) muitos outros veem como golpe do dinheiro privado contra estados nacionais, contra inclusive o povo estadunidense.

    Para os países que o dólar e suas agências classificam depreciativamente como “emergentes” (termo que, em ficando desgastado por obsolescência programada pode ser trocado, como foi feito com “em desenvolvimento”) o ideal seria ir se desvinculando gradativa porem ininterruptamente dessa moeda, mesmo correndo o risco de agressões bélicas, invasões bárbaras (com armas de tecnologia atual, como foram atuais as armas dos vândalos e bárbaros há mil anos). Creio que não tem como os EUA agredirem, a um tempo, todos os países que tem sido prejudicados pelo dólar na eventualidade de uma debandada geral e coordenada, de estados e até empreendedores locais, cansados de recessões impostas. Na verdade o único temor de qualquer líder é o de que os que aceitam ser liderados o abandone, um temor justo que que essa independência realmente é fatal para o ex-líder. Não morreriam os EUA, só sua gana assassina por liderança.

    E aos que eram liderados, retirada a sabotagem que o ex-líder engendrava enrustido em escuros porões, muito provavelmente caberá crescimento, prosperidade e soberanias nacionais.

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