Será o teatro uma arte política? (I), por Izaías Almada

Desde os primeiros registros conhecidos da presença do homem na terra pode-se afirmar com alguma precisão que uma das principais características de sua natureza é também a de ser um fabulador, um contador de histórias.

Será o teatro uma arte política? (I)

por Izaías Almada

No Brasil a destruição do ensino, do saber, do conhecimento, está na ordem do dia. “Chega de estudiosos e especialistas que só fazem assaltar o contribuinte”, vociferou o presidente Jair Messias.

Nunca se viu na História do Brasil um presidente dizer tantas asneiras em tão pouco tempo de mandato e, o que não deixa de ser sintomático é que os militares que compõem o seu governo estão ficando caladinhos. Surpresos? Envergonhados? Arrependidos?

Ou os militares não conhecem o país a que servem ou não conheciam ao seu capitão… Afinal o que pensam os cidadãos brasileiros que são também militares? O que desejam de fato para o seu país?

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Acabar com o comunismo? Mas o comunismo já não existe há algum tempo. A rigor nunca existiu. Houve apenas tentativas de lá chegar, mas as tentativas não deram muito certo, sobretudo na antiga União Soviética. 

Já tive a oportunidade de salientar em alguns dos meus artigos a insensibilidade de quase todos, senão todos, os presidentes da república brasileira que, ao tomar posse e escolher os seus ministros, uma das últimas escolhas feitas foi sempre a do Ministério da Cultura, agora extinto e transformado em Secretaria. Sintomático, não?

Não por acaso os bárbaros que assaltaram o poder político nas últimas eleições extinguiram o Ministério depois de 33 anos da sua criação. Voltamos assim à luta da e pela Cultura, da Arte contra a barbárie, como dizia o manifesto de grupos teatrais em São Paulo na passagem do milênio.

Há que lutar contra o obscurantismo, a selvageria (como a triste cena de um governador psicopata a comemorar o fuzilamento de um “sequestrador” com arma de brinquedo no Rio de Janeiro), e recuperar com urgência, eu diria criar, o pensamento humanista mais consistente e, de certa maneira, menos elitista. Fui e ainda sou um homem ligado ao teatro. E nele, tive um grande mestre: Augusto Boal. 

Em seu discurso de agradecimento feito em Paris, em 2009, ao receber o título de embaixador do teatro da UNESCO, o dramaturgo, encenador, pensador e criador do Teatro do Oprimido, Augusto Boal, assim se expressou: “Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma”.  

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Com atores dentro e fora dos palcos, o teatro tem na seiva que o nutre íntima relação com a cidadania, com o humanismo e com a democracia. O teatro que transforma; o teatro que ultrapassa os limites da arte digestiva; o teatro que intervém.

O exemplo mais antigo e emblemático dessas afirmações é, talvez, a tragédia ANTÍGONE de Sófocles, onde a protagonista enfrenta o poder do tirano Creonte para dar sepultura ao seu irmão Polinice e é condenada à morte por isso. Pedagogia exemplar para esses nossos dias em que a verdade não tem nada a ver com o ato de se fazer justiça e o passado recente ainda paira como uma espada de Dâmocles sobre a cabeça de muitos cidadãos. 

Sempre foi polêmica a discussão sobre o teatro de intervenção social quando confronta interlocutores que defendem de um lado a ‘arte pura’ e de outro a arte como expressão e extensão da política. No Brasil, o fenômeno não será diferente de outros países de grande tradição teatral. 

Discussão por vezes excessivamente acadêmica ou estéril, o tema costuma – no entanto – se evidenciar nos momentos de radicalizações dos movimentos populares ou de crises econômicas que prenunciam transformações sociais, como a que vivemos nos dias de hoje. São momentos carregados de fortes conotações dramáticas, genuinamente propícias ao fazer teatral. 

A relação do homem com a natureza sempre se caracterizou pela harmonia e pelo conflito. O registro dessa dialética antropológica, e creio que poderemos chamá-la assim, é parte significativa da história do próprio homem, de suas conquistas e de suas derrotas. 

Desde os primeiros registros conhecidos da presença do homem na terra pode-se afirmar com alguma precisão que uma das principais características de sua natureza é também a de ser um fabulador, um contador de histórias. Alguns estudiosos, inclusive, identificam aí a origem do teatro, uma vez que ao contarem suas histórias, os homens primitivos também as interpretavam. Em cavernas, à volta de uma fogueira, em rituais religiosos e profanos, o homem sempre foi e continua sendo capaz de reproduzir fatos e reflexões de sua vida ou projetar fantasiosamente muito dos seus sonhos, dos seus desejos… E de seus medos. 

Remetendo-nos a alguns dos estudos clássicos das origens do teatro, mais particularmente àqueles que se dedicam ao teatro grego, não será difícil encontrar ali referências a uma relação íntima entre o homem, enquanto ser humano e cidadão, e o meio natural em que vive ou – mais especificamente – o lugar em que habita. ANTÍGONE será apenas um exemplo a citar. Dos deuses olímpicos ao Hades infernal, os dramaturgos gregos jamais se esqueceram dos vínculos existentes entre o cidadão e a sociedade em que viveram. 

O convívio social determinou compromissos e regras a serem cumpridas para sua própria organização e preservação, assim como para a busca do bem comum e da felicidade individual ou mesmo coletiva. O teatro, como qualquer outra atividade humana, artística ou não, permeia esses compromissos e essas regras, enaltecendo-as ou mesmo confrontando-as quando for o caso.

Não é pequeno o número de escritores, dramaturgos, críticos, ensaístas, pesquisadores que têm contribuído com suas obras chamando a atenção para o aspecto didático e transformador do teatro. Desde a antiguidade clássica até as performances do mundo contemporâneo, o teatro tem sido pródigo em mostrar ao homem a própria dimensão de suas grandezas e de suas mazelas, fazendo uma sintonia fina entre o individual e o social, entre o EU e os OUTROS… 

Dos trágicos helênicos aos textos do alemão Heiner Müller; ou da inglesinha Sarah Kane, que nos deixou ainda novinha, do nosso Plínio Marcos, haverá sempre no fenômeno teatral a chama do convívio harmonioso ou conflituoso entre seres humanos e nela a mistura química, entre outras, da solidariedade, da justiça social, dos direitos humanos. 

Ou, como Shakespeare o demonstrou com clareza e genialidade, as matrizes dos sentimentos de inveja, ciúme, ódio, prepotência, bajulação, covardia, etc. 

Como a realidade em que vivemos é mutável, dinâmica, o teatro tem servido há pelo menos 2500 anos de termômetro para avaliar o grau de distanciamento ou de aproximação dos indivíduos, criando uma espécie de radares que captam os sintomas do individualismo excessivo, da ganância material e da falta de solidariedade e amor entre as pessoas. 

Radares esses que não deveriam ser destruídos pela insensibilidade e pela falta de inteligência de alguns seres primitivos. 

 

1 comentário

  1. Um reparo apenas, os seres chamados primitivos viviam a dialética original, não eram intrinsecamente bárbaros, como afirmava um interesse dominante, já o domínio hodierno tornou-se instrumental, monolítico, desumanizado, tecnicista, maquinavélico. A arte está intrinsecamente nele, igualmente, embora a discrepância digital camufle a individualidade, dando e retirando o ouro de tolo da participação. Enfim, o buraco dessa dialética é mais…

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