Sérgio Ricardo. Finalmente, Beto bom de bola aplaudido de pé, por Armando Coelho Neto

Sérgio Ricardo foi morar na favela do Vidigal com a “turminha de bamba, que não se espanta com ameaças do rei. Se vem o mal toda favela se levanta, se vem tirar chinfra de lei”.

Sérgio Ricardo TATIANA ALTBERG/PÁGINA OFICIAL DE SÉRGIO RICARDO

Sérgio Ricardo. Finalmente, Beto bom de bola aplaudido de pé

por Armando Coelho Neto

Cena 1 – Foi numa noite perdida no tempo, em Recife. Uma amiga que hoje mora na Suécia levou-me até a casa da economista Tânia Bacelar, que sequer lembra de mim. Minha amiga fora pegar uma fita cassete, que acabei copiando. Fiquei encantado. Eram canções compostas por Sérgio Ricardo.

Cena 2 – 1977, São Paulo, Av. São João, a poucos metros do prédio onde morou Caetano Veloso, encontrei num sebo um disco de vinil (compacto simples) com a canção “Che Guevara não morreu (Aleluia)”. O disco acabou se somando a outras maravilhas do cantor e compositor Sérgio Ricardo, que já guardava comigo.

Cena 3 – Brasília, 04/03/2020, a atriz Regina Duarte toma posse na Secretaria da Cultura do atual desgoverno. Como assim? Perplexo, registrei meu desencanto neste GGN, sobre o momento em que a vi pela primeira vez. O que Sérgio Ricardo tem a ver com isso? Com cortes segue compartilho com o leitor nas linhas seguintes.

Aconteceu no Instituto Latino-americano – Rua Colômbia, São Paulo, uma homenagem ao cineasta Glauber Rocha, num dos aniversários de sua morte. Lá foi exibido o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, seguido de um debate. Entre os presentes estava o cantor e compositor Sérgio Ricardo, um dos autores da trilha sonora – Perseguição (Se entrega Corisco!).

Para quem não sabe ou não lembra, Sérgio Ricardo é aquele que foi estrondosamente vaiado no III Festival de MPB da TV Record, no ano de 1967. Descontrolado pela plateia irreverente que não o deixou cantar a música Beto Bom de Bola, ele quebrou o violão e o atirou de encontro ao público.

Fui ao instituto para ver de perto Sérgio Ricardo, não pelo episódio do violão, mas pelo artista engajado que eu havia descoberto muito tempo depois daquele vexame do festival.

Eu queria mesmo era tietar, estar frente a frente com o autor da canção “Che Guevara não morreu (Aleluia)” (1). Meu compacto simples com a música, comprado num sebo de discos na Av. São João, havia sido surrupiado de minha casa, nos tempos em que, entre outros, muitos federais a frequentavam (ah ah!).

O artista também compusera uma canção de nome Calabouço (2), em homenagem ao estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, que fora assassinado no restaurante Calabouço, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, durante a ditadura militar (1968). “Cala a boca moço. Cala o peito, cala o beiço. Calabouço, calabouço”, diz o refrão.

Sérgio Ricardo compôs Ponto de Partida: … “Não tenho para a minha a mão, somente acenos e palmas. Tenho gatilhos e tambores, teclados, cordas e calos”. O artista ironizou o papel da ONU em Conversação de Paz (“No Vietnã não sei quantos milhões. Dedos preparados pra apertar botões”). Junto com Glauber é também autor da música Perseguição (“Mais forte são os poderes do povo! O Sertão vai virar mar e o mar virar sertão”).

Sérgio Ricardo foi morar na favela do Vidigal com a “turminha de bamba, que não se espanta com ameaças do rei. Se vem o mal toda favela se levanta, se vem tirar chinfra de lei”.

Mas, documentos confidenciais da ditadura revelam que Glauber já estava marcado para morrer, embora premiado em Cannes por Terra em Transe (prêmio da crítica em 1967) e pelo O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (melhor diretor, 1968).

Para a ditadura assassina, ele era “um comunista convicto a serviço do imperialismo soviético”. Servo do imperialismo soviético, teria usado e abusado do cinema brasileiro, “do qual recebeu auxílios e incentivos, em prol da revolução comunista”.

De um modo geral, as pessoas presentes tinham alguma afinidade com o contexto: Glauber Rocha, Sérgio Ricardo e o próprio local que sediava a homenagem que hoje, certamente, seria rotulado de “antro bolivariano”.

Até onde sei, só quem não tinha afinidade com aquele evento era um agente federal infiltrado da DOPS, que lá estava bisbilhotando, para elaborar os denominados “consta quê” para o Serviço Nacional de Informações (SNI). Já Regina Duarte…

Cena 4 – 23 de julho de 2020. “Todo morro entendeu quando Zelão chorou. Ninguém riu, ninguém brincou e era Carnaval”, diz Sérgio Ricardo numa de suas mais célebres canções (Zelão). Não sei quem chorou, mas Sérgio parte num momento em que “pobre ajuda outro pobre até melhorar”.

Descansa em paz, guerreiro! Numa outra dimensão qualquer, um violão inteiro te espera, e Beto bom de bola vai ser aplaudido de pé.

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

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3 comentários

  1. Conheco Zelao de cor. Cantarolo sempre. Como estou longe, me alegra a alma.
    Sergio Ricardo nao so deixou uma legado, ele deixou muita perspicacia alem de muita alegria.
    Ele viveu uma vida significativa e provveitora. A maioria nao pode dizer isso.
    Ele usou o Cock on Dunghill game e nao deixou de ter integrity neste jogo de ilusoes.
    Que o seu retorno a casa paterna seja facil e feliz!

  2. Bela homenagem Armando:????

    “Descansa em paz, guerreiro! Numa outra dimensão qualquer, um violão inteiro te espera, e Beto bom de bola vai ser aplaudido de pé.”

    Pena que os bons, os imprescindíveis estão partindo…

    DEUS OH DEUS, leve quem tem descaso com a VIDA …???

    Leiam nas entrelinhas e interpretem as reticências ?

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