Silly is beautiful!, por Eugênio Aragão

Monty Python’s Fliyng Circus

Silly is beautiful!

por Eugênio José Guilherme de Aragão

A glorificação da idiotice é a tática mais contundente de dominação das massas no novo Brasil. Ser cretino e espírito de porco está na moda. Ou você compartilha esse modo “cool” de ser ou você está fora. Ser petista, por exemplo, é “out”: pensa demais, argumenta demais, tem valores demais – e… chora demais! Mimimi não está na moda!

Esse fenômeno, na verdade, não é novo. A felicidade-dumb já vem de longe, numa classe média consumista que adora mostrar o que tem, mais do que mostrar o que sabe.

Lembro-me de quando estava no ensino médio que, mal Jô Soares apresentava um novo número humorístico em seu “Planeta dos Homens”, estavam muitos, já no dia seguinte, a imitar suas frases feitas: “o macaco tá certo!” Causava-me irritação essa chatice da recorrente reprodução acrítica do programa por um monte de gente homogeneizada pela Rede Globo. Parecia tudo papagaio.

Não se tratava, em absoluto, de um problema de gente inculta, de poucos meios para estudar. Não. Essa idiotice vinha da classe média endinheirada e se espalhava por escolas particulares, como a que eu frequentava como bolsista, clubes, praias de Zona Sul do Rio de Janeiro e sítios na serra de Teresópolis. Era a fina flor que, em plena ditadura militar, se distraía com esse humorzinho televisivo bobo, enquanto nada se falava de torturas e mortes nos porões do Dops e do Doi-Codi.

Afinal, a vida com os Alfa-Romeo Ti4, com a casa de praia em Angra dos Reis e com caríssimas viagens para o exterior era tão bela… “eu te amo meu Brasil, eu te amo… meu coração é verde, amarelo e azul…”.

De lá para cá, a alienação dessa gente só piorou e se disseminou entre os pretendentes a classe emergente. A rede mundial de computadores aprimorou a homogeneização da mentalidade de espírito de porco. As redes sociais, com sua dinâmica de narcisismo virtual, provocam reações impulsivas de muitos que ali “postam”, sem qualquer preocupação dialógica. Buscam apenas resposta rápida para suas imbecilidades impensadas. Quanto mais expedita a reação na rede, maior o deleite ególatra. O sonho desse tipo de cretino é provocar a onda perfeita de “shitstorm” e mensagens politicamente incorretas que causam comoção virtual têm elevado potencial de encapelar os debates. As barbaridades vão se banalizando e acabam por ingressar na cultura política do mundo real.

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Existe visível efeito “spill-over” da agressividade das redes sociais no discurso do cotidiano. Parece que muitos não se dão mais conta do tamanho dos absurdos que disseminam mundo afora. Criou-se verdadeira contracultura da imbecilidade em massa. Há quem compete na propensão de escandalizar com assertivas sem pé nem cabeça. Ser racional, nesse contexto, é ser chato, é estragar a brincadeira.

Se tudo não passasse de brincadeira de mau gosto, seria um problema menor. Corrigia-se com uns puxões de orelha próprios para meninos travessos. Mas o caráter epidêmico da idiotice em rede passou a contaminar o discurso oficial, paralisando o diálogo político. Assiste-se a um general de pantufas, agora vice-presidente eleito, a elogiar o fim do trabalho de médicos cubanos no Brasil, pois seu chefe, o capitão de pantufas eleito presidente, vai entrar na história por os ter livrado do trabalho forçado, como a Princesa Isabel, que aboliu a escravidão no Brasil!

No legislativo, vê-se uma deputada com semblante irado – claramente fora de si – propor projeto de lei a proibir educação sexual nas escolas, como se fosse, ela, a secretária de ensino fundamental do Ministério da Educação. Não interessa. O debate precisa de “speed” e levar o assunto a um debate entre especialistas pedagógicos só toma tempo; melhor uma iniciativa impensada que faça marola e irrite os “liberais”. Não há diálogo. Há invectiva, há ofensa e ataque.

Do mesmo modo parlapeteia o prospectivo chanceler indicado pelo presidente eleito que quer fuzilar “toda a petralhada do Acre”: a mudança climática é um mito criado pelo “marxismo cultural” e a Europa é um espaço culturalmente vazio… a esquerda não quer que crianças nasçam – e coisas do gênero. Há pouco tempo atrás, um funcionário público que adotasse esse tipo de discurso na função que exercesse seria candidato certo à aposentadoria compulsória por demência. Mas hoje, na era do non-sense, um sujeito desses tem excelentes perspectivas na carreira diplomática!

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Enquanto isso, os verdadeiros problemas do país são postos de lado, como mimimi de “comunistas” que perderam a vez. Vale é surfar nas ondas de “shitstorm”, a movimentarem a sociedade sem rumo, como num frenesi de ódio e ranger de dentes, em marcha na direção do abismo. Políticas públicas? Para quê? Isso é torrar dinheiro para sustentar vagabundo que não quer se virar sozinho! O negócio é acabar com a “corrupção” da esquerda, com a liberdade de ensino e pesquisa, com os direitos humanos, com a igualdade de gêneros, mesmo que morram uns milhares de inocentes… afinal, não se faz omelete sem quebrar ovos!

O besteirol se tornou a arma mais mortal contra a razão e contra a democracia inclusiva. E ele tem método, pois deslegitima de modo brutal o discurso sobre direitos. É hora de reagir se quisermos minimamente conservar o humanismo construído no mundo do pós-guerra e seu senso comum de solidariedade, tolerância e responsabilidade coletiva. Do contrário, iremos em transe, feito lunáticos, para nossa destruição – e achando bom!

 

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12 comentários

  1. Lavagem cerebral!

    Perfeita análise. Seria cômico se não fosse trágico.

    A mídia tradicional e seus tentáculos produziram uma verdadeira lavagem cerebral nas pessoas.

    O que leva uma nação a desprezar – em um processo de eleiçãos majoritárias – aqueles que representam o que há de melhor na esfera pública? Lavagem cerebral. Ponto 

    Rejeitar um Fernando Haddad como Presidente da República porque é do PT é de uma estupidez sem precedentes.

    Fico a imaginar o que seria um virtual governo Haddad. Ele trataria de reunir os melhores quadros, produzir as melhores políticas públicas, além de dirigir a nação com maestria.

    O país voltaria a ser respeitado no mundo, além do fortalecimento dos Brics, Mercosul e tantos outros acordos bilaterais.

    Seu programa de governo levaria de volta ao crescimento econômico com inclusão social e as reformas estruturantes seriam realizadas com ampla participação da sociedade civil e de seus representantes.

    Além disso tudo, ele é um homem íntegro, incapaz de furtar um centavo da administração pública…

    Acontece que a lavagem cerebral produzida nas pessoas mal informadas fez com que deparassemos com aquilo que existe de pior na esfera pública.

    Só nos resta resistirmos com todas as nossas forças contra este pesadelo que se avizinha no horizonte e, ele será sombrio por quatro anos.

    Triste destino, triste nação desamparada e fadada ao fracasso, ao neocolonialismo e a insignificância completa no cenário mundial.

     

  2. Sectarismo imobiliza

    “É hora de reagir”, disse Aragão. Corretíssimo, mas como ?

    Alguém responderia: “Formando uma Frente Ampla”

    Mas, digo eu, essa Frente Ampla é desejada pela minoria há meses. Bem antes do primeiro turno. Mas os que se apresentam como líderes políticos e têm projeção política parece estarem preocupados apenas com seus mesquinhos ineresses de poder relativo (ser o mais importante no seu campo político e ditar as regras).

    Antes era “prevenir” e agora é “reagir”. Qual será o verbo daqui a um ano ? 

  3. Elementar meu caro Watson.

    Elementar meu caro Watson. A imbecilidade evangélica se espalha (e é espalhada) no Brasil pela mesma razão que as Madrassas se multiplicaram ao infinito no Oriente Médio após os governos laicos moderadamente nacionalistas serem destruídos pela CIA a partir dos anos 1950. A melhor maneira de controlar uma província rica em petroleo e fazer seus habitantes mergulharem na irracionalidade e nas guerras religiosas.

  4. Tá mais pra “Mein Kampf” que “O alienista”.
    O ex-ministro ficaria surpreso em saber que só esquerdopatas são elegíveis para aposentadoria compulsória por terem caráter e fazerem seu trabalho como previsto em lei e em suas consciências responsáveis.
    Ficou conhecida a história de um juiz do interior que foi aposentado dessa forma, antes dos 40 anos, porque ousou – quanta ofensa e perigo – aplicar a lei sem respeitar privilégios de classe e sem discriminar livres ou presos por sua condição.
    E mais não digo porque o sigilo me impede, rs.

    Sobre o exótico da guerra requentada ser considerado demente, não acho que é lícito patologizar divergência política, e acaba por ser um desrespeito com verdadeiros doentes, que não podem ter seu problema de saúde vinculado de maneira pejorativa a desvios de caráter. Seria mais cômodo achar que essas excrescências só podem estar “malucas” para pensarem dessa maneira, mas como na realidade não são, sua “doença” é ética e moral e não “mental”, Somos vítimas de suas perfídias por não abordá-los da maneira correta – será por isso que estamos perdidos e desorientados?
    Repito: temos que diagnosticar sua deformação ética, moral e de sensibilidade humana para não perderemos tempo, nem sermos injustos com quem tem “sofrimento psíquico”, apontando para o alvo errado. Onde as famílias dessas pessoas erraram – ironia com o discurso falso moralista deles – ao terem criado pessoas tão perversas que recorrem a aparentes paranóias – a esquerda também é acusada de acreditar e propagar teorias conspiratórias, então é o caso de aumentar a objetividade ao levar a sério as alegações absurdas deles e neutralizá-las no campo minado de onde brotam, a racionalização – para recalcar suas feridas na formação de suas sensibilidades? Os minions não são tão piores que os colunistas da mídia corporativa em seu pervertido senso de realidade, só são mais caricatos e sinceros, mas igualmente racionais e interesseiros. Quem dera fosse maluquice e nada mais, mas não é. É mau caratismo mesmo. E contra esse é difícil lutar com as armas da ingenuidade.

    Sampa/SP, 18/11/2018 – 14:50 (alterado às 15:01).

  5. Keep up with the Joneses

    Essa gente supostamente estudada que repete tolices quer se exibir para os colegas de trabalho, vizinhos e parentes em selfies e fofocas. Se um viaja a Dubai, o outro vai a Orlando. Se Fulana troca de carro, Beltrana troca também, nem que se enfie em dívida de financiamento. Se os EUA tem Trump, que tenhamos uma republiqueta das pantufas. Nem que percamos os anéis, os dedos e a credibilidade internacional .

    • Pura verdade!

      Em 2016 troquei de carro. Comprei um sedã pequeno, custou 50 mil. Confortável, econômico, fácil de dirigir e estacionar no trânsito urbano. Na mesma época uma colega de trabalho queria trocar de carro. Falei a ela do pequeno sedã, de como era confortável, econômico e dirigivel. Mas ela resolveu comprar um imenso SUV, pela bagatela de 160 mil reais. Gigantesco, beberrão, uma luta pra estacionar. A justificativa dela: “meu ego é do tamanho da Ana Hickman, tem 1,20 metro só de perna!”…

  6. Eles venceram

    É a revolução dos imbecis. Quanto mais reação, mais convictos eles ficam. A razão teve que optar pelo “ame-o ou deixe-o”.

     

  7. Eu acho que a esquerda

    Eu acho que a esquerda persiste em um erro crítico e achar que vai chamar essa massa de imbecis histéricos à razão com fala mansa e flores. Olhe em qualquer ponto da história que esse mesmo problema acometeu o povo e verá que somente discursos de força e atitudes de força fizeram o povo recobrar o senso de realizade. Vejo analistas de todo tipo se debatendo para encontrar os motivos para a eleição do Bolsonaro sendo que são tão óbvios:

    Quais são os principais problemas que a população em geral elenca (independente dos motivos) como críticos no momento:

    1 – Corrupção

    2 – Segurança pública

    3 – Desemprego

    Bolsonaro “prôpos” para cada item um discurso simplório de força que foi “entendível” por todos. Por mais idiota que tenham sido suas propostas, ou melhor suas não-propostas, ele capturou muito bem a angústia e desespero do povão no momento. Por outro lado, todos os demais candidatos, da esquerda à direita, ficaram ou no discurso tecnicista ou fuga pelo discurso vazio que não é “entendível” para uns 70% do povão.

    Quando alguém que está berrando consegue a atenção da multidão, somente outro berrando mais alto consegue tirar a atenção do “berrador” anterior. Por tanto, ou a esquerda começa a berrar mais alto ou vai se evaporar à curto prazo, pois já está em andamento uma guerra para ver quem vai assumir o espectro da centro-direita, pois todos já perceberam que a força política deve girar da extrema para a centro-direita em breve.

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