Sob a administração Bolsonaro, Brasil e América do Sul perdem voz junto à sociedade internacional, por Cesar Calejon

O Brasil tornou-se um país mais isolado, menos ouvido no mundo e que pauta as decisões da sua política externa com base em ideologias políticas que se sobrepõem tanto ao pragmatismo, quanto à lógica de funcionamento das instituições globais.

Sob a administração Bolsonaro, Brasil e América do Sul perdem voz junto à sociedade internacional

por Cesar Calejon

Mesmo antes de ascender à chefia do executivo, o bolsonarismo já emitia sinais claros de que a sua política externa não respeitaria os processos de integração regional, o que representa um problema mais sério e que transcende as barreiras do nosso hemisfério, porque grande parte da credibilidade do Brasil (junto à sociedade internacional) estava muito alicerçada nas instituições de integração regional que o País ajudou a construir: Mercosul e a Unasul.

Durante os quinze primeiros meses da gestão bolsonarista, o Brasil caminhou a passos largos para desmontar o processo de integração, cooperação e liderança que o País pretendia consolidar no hemisfério e no contexto Sul-Sul.

Muitos fatores contribuíram para o agravamento deste quadro, tais como a instabilidade do cenário político doméstico e as frequentes crises de imagem que a administração Bolsonaro enfrentou na sociedade internacional ao longo dos últimos 14 meses, mas, certamente, o alinhamento automático da política externa bolsonarista aos Estados Unidos de Trump é o fator preponderante considerando a deterioração da liderança brasileira na América do Sul e, consequentemente, do enfraquecimento da voz da região na sociedade internacional.

Ainda no quarto mês do exercício da presidência, Bolsonaro anunciou, via Twitter, que o Brasil deixaria a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), grupo que chegou a reunir doze países. No âmbito do Mercosul, Bolsonaro passou a liderança rotativa brasileira do bloco para o Paraguai, em dezembro de 2019.

Enquanto o chefe do Executivo brasileiro, de forma absolutamente gratuita e unilateral, derrubou a exigência de visto para os estadunidenses, agrediu com ofensas de caráter pessoal a esposa do presidente francês, reivindicou a ditadura chilena de Pinochet ao atacar o pai de Michelle Bachelet, acusou o ator Leonardo DiCaprio considerando as queimadas na Amazônia, e deixou, em ato de submissão sem precedente na nossa história, dois navios iranianos, o MV Bavand e o MV Termeh, desabastecidos por quase cinqüenta dias no Porto de Paranaguá, no Paraná, porque a Petrobras se negou a abastecer as embarcações (o governo iraniano está sob sanções aplicadas pelos Estados Unidos), a Argentina concretizou o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.

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As atitudes de Bolsonaro geraram críticas até entre líderes da direita européia. Recentemente, Nicola Danti, membro da delegação do Parlamento Europeu para relações com o Mercosul e parlamentar que integra o grupo Renew Europe, afirmou que as declarações de Bolsonaro servem como munição aos opositores do acordo (Mercosul/União Europeia). “É uma grande desculpa para muitos dos que não querem o acordo. Dizem que ‘se ele (Bolsonaro) tivesse outra política para mulheres, outra política para a Amazônia, outra política de direitos humanos’.”

Essas decisões sobre temas que lidam com as questões do meio-ambiente, do multilateralismo e dos direitos humanos são esdrúxulas, bem como utilizar um comediante profissional para apresentar o desempenho econômico de toda a maior nação da América Latina durante o primeiro ano do bolsonarismo. Simplesmente patético, considerando o sentido literal do termo. Os Estados Unidos suspenderam a participação na UNESCO, saíram do Conselho de Direitos Humanos, saíram do Acordo de Paris, e a política externa bolsonarista quer imitar a agenda do Trump neste sentido. Contudo, o custo de não honrar estes acordos é muito maior para o Brasil do que para os Estados Unidos. Atos como estes ou o do comediante do PIB tendem a gerar derrota e isolacionismo.

Assim, sob a administração Bolsonaro, o Brasil e a América do Sul perderam voz junto à sociedade internacional. Por exemplo: entre as dez principais economias do mundo, o Brasil foi a única nação que não enviou formuladores de políticas à Conferência de Segurança de Munique, que aconteceu em fevereiro e reuniu chefes de Estado e ministros de todo o mundo para discutir desafios geopolíticos urgentes. Os Estados Unidos enviaram 40 atuais e ex-parlamentares, incluindo estadistas experientes como Nancy Pelosi, John Kerry, Mitt Romney e Lindsey Graham.

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De acordo com o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel, “a ausência, ao mesmo tempo, ilustra e reforça o status marginalizado da América do Sul no mundo da alta política. Isso é ruim para todos. Reduz a capacidade dos formuladores de políticas da América do Sul de antecipar, moldar e se adaptar aos desenvolvimentos globais. E para os outros participantes, isso impede uma compreensão mais profunda das questões globais críticas que envolvem diretamente a América do Sul – particularmente as mudanças climáticas e as migrações, que estavam no centro dos debates em Munique […] A conferência é um local para diplomacia e negociações de bastidores, com várias crises internacionais sendo discutidas”, explica o professor em artigo publicado recentemente sobre o tema.

O Brasil construiu uma relação histórica com a ONU e com o multilateralismo de forma geral que não pode ser simplesmente abandonada por um determinado governo. Isso nos coloca um risco muito grande, que tem a ver com a nossa reputação. Ignorar o multilateralismo vem nos custando caro no sentido de tornar o Brasil um país mais isolado, menos ouvido no mundo e que pauta as decisões da sua política externa com base em ideologias políticas que se sobrepõem tanto ao pragmatismo, quanto à lógica de funcionamento das instituições globais, basicamente.

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). Autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI.

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