Sobre a mal(dita) polarização da sociedade brasileira, por Alexandre de Freitas Barbosa

Foto: Juca Varella/Agência Brasil

do Brasil Debate

Sobre a mal(dita) polarização da sociedade brasileira

por Alexandre de Freitas Barbosa

Como não existe simetria de forças, não há polarização. Há, sim, expurgo do poder político de um segmento importante da sociedade que inclui também a esquerda não petista e os movimentos sociais em geral

A “polarização” virou moda. Todos a pronunciam: a colunista da Folha, o cientista social renomado e a minha filha adolescente na prova do Enem. Dividiu as famílias, sacrossanto pilar da sociabilidade burguesa. Virou senso comum. O país estaria dividido entre “nós e eles” ou vice-versa.

A quem interessa o discurso da polarização, de que a sociedade brasileira estaria partida ao meio? Os intelectuais trabalham com conceitos que comportam sentidos. Vivemos de problematizar o real e de buscar a gênese das construções ideológicas a serviço de determinados segmentos sociais, com o intuito de desconstruí-las.

Nas marchas de junho de 2013, criou-se o “mito” da polarização. Não o mito que abre caminho para utopias. O mito aqui mais se assemelha a uma distopia: duas visões extremadas e irracionais que se opõem sem espaço para o diálogo – é o que se diz por aí. De um lado, os camisas verde-amarelas teleguiados pela Veja e a Rede Globo, inconformados com a marcha avassaladora da corrupção. De outro, os vermelhos esquerdistas que se manifestam por meio de sites, blogs e periódicos alternativos, escudados na “narrativa do golpe”.

Visões mais extremadas como a fornecida pela capa da “Isto É” – n. 2549, de 26 de outubro de 2018 –, concluem de forma taxativa que “o PT criou Bolsonaro”. Segundo essa leitura falseadora, o derretimento do centro político no país deve ser posto na conta das dívidas do partido, incapaz de fazer a sua “autocrítica”. A polarização da sociedade, já dizia o candidato Ciro Gomes, foi obra do partido de Lula.

Será mesmo? Proponho uma leitura alternativa. No meu entender, as classes dominantes se aglomeraram em torno de um polo, expulsando o PT do sistema ao qual ele tão bem (ou tão mal) – dependendo do ponto de vista – havia se aliado.

Um dos meus argumentos contra o impeachment – tirando a sua ilegitimidade e ilegalidade – era o de que com a sua consumação, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, com o apoio da grande imprensa e da burguesia conglomerada, passariam a compor um mesmo bloco. Assim foi. Criou-se um bloco hegemônico, sustentado pela força das instituições reorganizadas – graças à politização e elitização das suas cúpulas. Foi para o ralo a divisão de poderes.

O outro polo não existe ao menos do ponto de vista da participação nas instituições políticas. Ele existe, sim, enquanto força potencial da sociedade, restando-lhe no momento a resistência ao novo status quo.

Isso ficou patente durante a campanha de Fernando Haddad. Apesar de o candidato ter se superado em todos os quesitos, ficou evidente que ele corria praticamente sozinho, com apoio da militância petista, mas inclusive e, sobretudo, da juventude, dos professores e dos movimentos sociais, muitos não vinculados ao PT. As lideranças do PT – as novas e as velhas –, na sua grande maioria, ou são desconhecidas ou não têm votos. Em suma, apesar de um processo de renovação ter lentamente se iniciado, trata-se de um partido desfigurado, que não tem a força que o bloco dominante lhe confere.

Daí a sua incapacidade de recompor as pontes com o “mercado” e seus economistas, com o sistema partidário, com a grande mídia e com a burguesia e as suas várias frações de classe. Ora, o PT se tornou, depois do golpe, um partido pária, com o qual ninguém quer se aliar. O novo polo de forças políticas e sociais aglomeradas fez do PT novamente um “partido radical” para seu consumo próprio.

Não há polarização! Há, sim, expurgo do poder político de um segmento importante da sociedade, o que inclui a esquerda não-petista e os movimentos sociais em geral.

Senão vejamos. Dilma é apeada do poder numa ópera bufa de consternar qualquer cidadão que guarde um mínimo de decência pelos rituais democráticos. Depois se criam da noite para o dia “movimentos sociais” micróbios, pois desprovidos de qualquer representatividade, segundo a designação de Wanderley Guilherme dos Santos.

Os âncoras do Jornal Nacional reproduzem um diálogo entre uma presidenta e um ex-presidente, liberado ilegalmente por um juiz que não segue os preceitos básicos exigidos pelo cargo. Lula – o ex-presidente defensor da conciliação “com tudo e com todos” – é perseguido pela grande imprensa, procuradores e juízes e transformado em “chefe da quadrilha”. Depois o encarceram e cortam a sua voz, impedindo-o de dar entrevistas. O maior líder popular do mundo contemporâneo assume a pecha de presidiário. Neste meio tempo, direitos sociais e trabalhistas são eliminados sumariamente da carta constitucional.

Qual o resultado? Radicalização? Não. O PT aceita o impeachment e Lula, a sua prisão. Mesmo sabendo que as instituições estão viciadas pelo acordo das cúpulas dos três poderes – aos quais se somam a mídia e a finança –, decidem preparar a resistência. Democraticamente. Voltam para a oposição e recorrem às urnas.

Lula tem votos suficientes para se eleger no primeiro turno depois de toda a encenação. Segue em Curitiba, incomunicável, repito: o maior líder popular do mundo contemporâneo, para escândalo da mídia internacional. O Brasil está cercado pelo ódio contra a esquerda, contra o povo e contra a sua maior liderança. Ódio de classe.

Bolsonaro foi eleito nas eleições mais desequilibradas da história nacional. Teve apoio (velado ou explícito) da grande mídia e da burguesia, mas quem mostrou a cara foram os lumpempresários que financiaram as fakenews. O twitter disparado pelo comandante do Exército atingiu a juíza, selando assim o destino do habeas corpus.

O candidato vitorioso não foi aos debates no segundo turno, fato inédito na história da democracia brasileira recente, contando mais uma vez com a conivência da grande mídia. O mercado o apoiou com seus métodos, afinal, a bolsa subia e o dólar caía. O capitão não mencionou, durante a campanha, uma única política a ser executada pelo seu governo. Eleito, nomeou o justiceiro para a Justiça e trouxe o general do presidente do STF para a Defesa. Temer será brindado com uma embaixada no berço da latinidade.

Nas últimas semanas do segundo turno, a militância foi às ruas. Munidos de cartazes e folhetos, os jovens (e outros nem tão jovens assim) se dirigiram às periferias em busca do povo. Para quê? Conversar. Buscavam virar votos com base na argumentação e no convencimento. Nenhum discurso de ódio. Este novo movimento cultural que surgiu de maneira espontânea – e como resultado da inoperância da campanha e da máquina petista – é um dos grandes legados das eleições de 2018.

A polarização pode existir na esfera da família, das relações pessoais e do trabalho, gerando cisões e rompimentos desagradáveis. Um dia, quem sabe, serão feitas as pazes. Mas o Brasil não é uma grande família. Vivemos numa sociedade capitalista – dividida em classes, hoje quase castas -, e situada na semiperiferia de uma economia-mundo capitalista sujeita a fortes tensões e reajustamentos.

O poder foi tomado, nas eleições de 2018, por meio de uma aliança do voto com o coturno, a toga, o templo, a telinha, a banca de jornal e o WhatsApp. O bloco hegemônico responsável pelo golpe de 2016 mostrou a sua cara, sem disfarces. Logo, mostrará as suas rachaduras.

Não há polarização na sociedade. Do outro lado, estão os que foram expurgados pelo golpe e resistem ao “governo de ocupação” – mais uma vez, o mestre Wanderley – porque sabem que o que está em jogo é o seu extermínio real e simbólico da sociedade. À guerra de movimento, segue agora a guerra de posição. Não existe simetria em termos de forças. Como pode existir “polarização” num cenário em que “está tudo dominado” por eles?

O próximo lance cabe aos vencedores. A grande imprensa e o Judiciário dirão se prosseguem na farsa, naturalizando a ocupação. Idem para a burguesia. Neste contexto, o movimento de resistência ao desmonte das instituições, com todos os seus vícios e virtudes, arduamente construídas desde 1988, durante os governos FHC, Lula e Dilma – muitas delas remontando a Vargas, o ditador e o democrata, para não mencionar o Itamaraty do Barão do Rio Branco – será decisivo para o desenlace final do drama. Pois eles querem separar o trigo do joio.

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Alexandre de Freitas Barbosa é professor de História Econômica e Economia Brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP)

 

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